Livro 8 – Capítulo XII História Eclesiástica

De muitíssimos outros, homens e mulheres, que combateram de diversas maneiras

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1. Que necessidade tenho eu agora de recordar por seus nomes os demais, de contar a multidão dos

homens ou de pintar os variados tormentos dos admiráveis mártires? Uns foram mortos com

machados, como ocorreu aos da Arábia; a outros queimaram as pernas, como sucedeu aos da

Capadócia; às vezes os penduravam do alto pelos pés, cabeça para baixo, e acendiam debaixo um

fogo lento, cuja fumaça os asfixiava ao arder a lenha, como no caso dos da Mesopotâmia; e às

vezes cortavam-lhes o nariz, as orelhas e as mãos e partiam em pedaços os restantes membros e

partes de seus corpos, como aconteceu em Alexandria.

2. Para que reavivar a recordação dos de Antioquia, dos que eram assados em braseiros, não para

fazê-los morrer, mas para alongar seu tormento; e dos que preferiam meter sua mão direita no

fogo a tocar o sacrifício maldito? Alguns deles, para fugir da prova, antes de serem presos e de

584 Cuidados pelos próprios perseguidores, já que "ninguém deve morrer em conseqüência da tortura".

585 Isto supõe já promulgado o quarto edito, em 304.

586 Ex 22:20.

587 Ex 20:3.

cair nas mãos dos conspiradores, eles mesmos se lançavam do alto de suas casas, considerando

o morrer como um subtrair-se à maldade dos ímpios.

3. E certa pessoa, santa e admirável pela virtude de sua alma, ainda que mulher por seu corpo, e

famosa ainda entre todas as de Antioquia, por sua riqueza, sua linhagem e seu bom nome, havia

criado suas filhas nas leis da religião, um par de virgens notáveis pela beleza de seu corpo e em

plena juventude. Moveu-se contra elas muita inveja que por todos os meios se esforçava em

descobrir seu esconderijo. Ao inteirar-se de que se achavam em terra estrangeira, arranjou-se

astutamente para chamá-las a Antioquia, e assim caíram nas redes dos soldados. Vendo-se a si

mesma e as suas filhas em tal apuro, a mãe falou-lhes e lhes expôs os horrores que lhes viriam dos

homens, inclusive o mais terrível e insuportável de todos, a ameaça de violação, exortando-se a

si mesma e exortando as filhas a não tolerar nem sequer que chegassem a roçar-lhes os ouvidos.

Dizia-lhes também que entregar suas almas à escravidão dos demônios era pior do que todas as

mortes e que toda ruína, e lhes sugeria que a única solução de tudo isto era a fuga para o Senhor.

4. Então, estando de acordo as três, arranjaram decentemente seus vestidos em torno de seus

corpos e, chegadas ao meio do caminho, pediram aos guardas permissão para afastarem-se um

momento, e se lançaram ao rio que corria ali ao lado.

5. Estas pois, lançaram-se elas mesmas, mas na mesma Antioquia houve outro par de virgens, em

tudo dignas de Deus e verdadeiramente irmãs, ilustres por sua linhagem, brilhantes por sua

posição, jovens na idade, formosas de corpo, santas de alma, piedosas de caráter e admiráveis em

seu zelo, às quais, como se a terra não fosse capaz de suportar tanta grandeza, os servos dos

demônios mandaram lançar ao mar. Isto é o que ocorreu a estas.

6. Outros, de sua parte, sofreram no Ponto tormentos que, só de ouvi-los fazem estremecer. A uns

trespassaram os dedos com hastes pontiagudas, cravadas pela ponta das unhas; a outros, depois de

fundir chumbo no fogo, fervendo e candente como estava, vertiam-no sobre as costas e lhes

queimavam as partes mais necessárias do corpo;

7. e outros sofreram em seus membros secretos e em suas entranhas tormentos vergonhosos,

implacáveis e impossíveis de expressar com palavras, tormentos que aqueles nobres e legítimos

juízes imaginavam com o maior zelo, mostrando sua crueldade como um alarde de sabedoria e

tratando com esforço de superar-se uns aos outros na invenção de suplícios, sempre mais novos,

como num concurso com prêmios.

8. Mas o fim destas calamidades chegou quando, já sucumbindo à fadiga de tal excesso de males,

cansados de matar e fartos e aborrecidos de tanto derramamento de sangue, voltaram-se ao que

tinham por bom e humano, de modo que já parecia que nada terrível se empreenderia contra nós.

9. Porque não convinha, diziam, manchar as cidades com sangue de sua própria gente, nem acusar de

crueldade o poder supremo dos príncipes, benévolo e suave para com todos, antes, fazia-se

necessário estender a todos o benefício da humana e imperial autoridade e não mais castigar com a

pena de morte. Efetivamente, segundo eles, por causa da humanidade dos imperadores, este seu

castigo ficava abolido contra nós.

10. Então ordenou-se arrancar os olhos e inutilizar uma das pernas, pois para eles isto era humano e

o castigo mais leve aplicado contra nós; em conseqüência, por causa desta humanidade dos

ímpios, já não era possível descrever a multidão incalculável de mutilados: uns, aos quais primeiro

foi arrancado o olho direito com a espada e logo cauterizado; outros, aos quais haviam inutilizado

o pé esquerdo, também por meio de cautérios nas articulações, e os que haviam condenado às

minas de cobre de cada província, não tanto por seu serviço quanto para maltratá-los e fazê-los

sofrer. Além de todos estes, outros sucumbiram em diversos combates que nem sequer é possível

catalogar, já que suas façanhas vencem toda palavra.

11. Nestes combates, os magníficos mártires de Cristo brilharam por toda a terra habitada e, como

era natural, por todas as partes enchiam de assombro as testemunhas oculares de seu valor, e em

si mesmos ofereciam a prova manifesta do poder verdadeiramente divino e inefável de nosso

Salvador. Mas seria longo, para não dizer impossível, fazer menção de cada um por seus nomes.

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