1. Que necessidade tenho eu agora de recordar por seus nomes os demais, de contar a multidão dos
homens ou de pintar os variados tormentos dos admiráveis mártires? Uns foram mortos com
machados, como ocorreu aos da Arábia; a outros queimaram as pernas, como sucedeu aos da
Capadócia; às vezes os penduravam do alto pelos pés, cabeça para baixo, e acendiam debaixo um
fogo lento, cuja fumaça os asfixiava ao arder a lenha, como no caso dos da Mesopotâmia; e às
vezes cortavam-lhes o nariz, as orelhas e as mãos e partiam em pedaços os restantes membros e
partes de seus corpos, como aconteceu em Alexandria.
2. Para que reavivar a recordação dos de Antioquia, dos que eram assados em braseiros, não para
fazê-los morrer, mas para alongar seu tormento; e dos que preferiam meter sua mão direita no
fogo a tocar o sacrifício maldito? Alguns deles, para fugir da prova, antes de serem presos e de
584 Cuidados pelos próprios perseguidores, já que "ninguém deve morrer em conseqüência da tortura".
585 Isto supõe já promulgado o quarto edito, em 304.
586 Ex 22:20.
587 Ex 20:3.
cair nas mãos dos conspiradores, eles mesmos se lançavam do alto de suas casas, considerando
o morrer como um subtrair-se à maldade dos ímpios.
3. E certa pessoa, santa e admirável pela virtude de sua alma, ainda que mulher por seu corpo, e
famosa ainda entre todas as de Antioquia, por sua riqueza, sua linhagem e seu bom nome, havia
criado suas filhas nas leis da religião, um par de virgens notáveis pela beleza de seu corpo e em
plena juventude. Moveu-se contra elas muita inveja que por todos os meios se esforçava em
descobrir seu esconderijo. Ao inteirar-se de que se achavam em terra estrangeira, arranjou-se
astutamente para chamá-las a Antioquia, e assim caíram nas redes dos soldados. Vendo-se a si
mesma e as suas filhas em tal apuro, a mãe falou-lhes e lhes expôs os horrores que lhes viriam dos
homens, inclusive o mais terrível e insuportável de todos, a ameaça de violação, exortando-se a
si mesma e exortando as filhas a não tolerar nem sequer que chegassem a roçar-lhes os ouvidos.
Dizia-lhes também que entregar suas almas à escravidão dos demônios era pior do que todas as
mortes e que toda ruína, e lhes sugeria que a única solução de tudo isto era a fuga para o Senhor.
4. Então, estando de acordo as três, arranjaram decentemente seus vestidos em torno de seus
corpos e, chegadas ao meio do caminho, pediram aos guardas permissão para afastarem-se um
momento, e se lançaram ao rio que corria ali ao lado.
5. Estas pois, lançaram-se elas mesmas, mas na mesma Antioquia houve outro par de virgens, em
tudo dignas de Deus e verdadeiramente irmãs, ilustres por sua linhagem, brilhantes por sua
posição, jovens na idade, formosas de corpo, santas de alma, piedosas de caráter e admiráveis em
seu zelo, às quais, como se a terra não fosse capaz de suportar tanta grandeza, os servos dos
demônios mandaram lançar ao mar. Isto é o que ocorreu a estas.
6. Outros, de sua parte, sofreram no Ponto tormentos que, só de ouvi-los fazem estremecer. A uns
trespassaram os dedos com hastes pontiagudas, cravadas pela ponta das unhas; a outros, depois de
fundir chumbo no fogo, fervendo e candente como estava, vertiam-no sobre as costas e lhes
queimavam as partes mais necessárias do corpo;
7. e outros sofreram em seus membros secretos e em suas entranhas tormentos vergonhosos,
implacáveis e impossíveis de expressar com palavras, tormentos que aqueles nobres e legítimos
juízes imaginavam com o maior zelo, mostrando sua crueldade como um alarde de sabedoria e
tratando com esforço de superar-se uns aos outros na invenção de suplícios, sempre mais novos,
como num concurso com prêmios.
8. Mas o fim destas calamidades chegou quando, já sucumbindo à fadiga de tal excesso de males,
cansados de matar e fartos e aborrecidos de tanto derramamento de sangue, voltaram-se ao que
tinham por bom e humano, de modo que já parecia que nada terrível se empreenderia contra nós.
9. Porque não convinha, diziam, manchar as cidades com sangue de sua própria gente, nem acusar de
crueldade o poder supremo dos príncipes, benévolo e suave para com todos, antes, fazia-se
necessário estender a todos o benefício da humana e imperial autoridade e não mais castigar com a
pena de morte. Efetivamente, segundo eles, por causa da humanidade dos imperadores, este seu
castigo ficava abolido contra nós.
10. Então ordenou-se arrancar os olhos e inutilizar uma das pernas, pois para eles isto era humano e
o castigo mais leve aplicado contra nós; em conseqüência, por causa desta humanidade dos
ímpios, já não era possível descrever a multidão incalculável de mutilados: uns, aos quais primeiro
foi arrancado o olho direito com a espada e logo cauterizado; outros, aos quais haviam inutilizado
o pé esquerdo, também por meio de cautérios nas articulações, e os que haviam condenado às
minas de cobre de cada província, não tanto por seu serviço quanto para maltratá-los e fazê-los
sofrer. Além de todos estes, outros sucumbiram em diversos combates que nem sequer é possível
catalogar, já que suas façanhas vencem toda palavra.
11. Nestes combates, os magníficos mártires de Cristo brilharam por toda a terra habitada e, como
era natural, por todas as partes enchiam de assombro as testemunhas oculares de seu valor, e em
si mesmos ofereciam a prova manifesta do poder verdadeiramente divino e inefável de nosso
Salvador. Mas seria longo, para não dizer impossível, fazer menção de cada um por seus nomes.