Livro 8 – Capítulo VI História Eclesiástica

Dos mártires das casas imperiais

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1. Acima de todos quantos foram celebrados alguma vez como admiráveis e famosos por sua

valentia, assim entre os gregos como entre os bárbaros, esta ocasião fez destacar os divinos e

excelentes mártires Doroteo e os servidores imperiais que o acompanhavam. Ainda que seus

amos os tenham considerado dignos da mais alta honra e no trato não os deixavam atrás de seus

próprios filhos, eles julgavam, com toda verdade, maior riqueza do que a glória e o prazer desta

vida as injúrias, os trabalhos e os variados gêneros de morte inventados contra eles por causa de

sua religião. Somente mencionaremos o fim que teve um deles e deixaremos a nossos leitores que

por ele concluam o que sucedeu aos outros.

2. Na mencionada cidade, um deles foi conduzido publicamente ante os imperadores já indicados;

ordenaram-lhe, pois, que sacrificasse, e ao opor-se, mandaram pendurá-lo desnudo e lacerar todo

seu corpo a força de açoites até que, rendido, fizesse o ordenado mesmo contra a vontade.

3. Mas como ele se mantinha inflexível mesmo depois de padecer estes tormentos, e seus ossos já

apareciam à vista, misturaram vinagre com sal e o derramaram nas partes mais laceradas de seu

corpo. Mas também desdenhou estas dores, e então trouxeram ao meio umas brasas e fogo, e

como se faz com a carne comestível, foram consumindo no fogo o resto de seu corpo, e não todo

de uma vez, para que não morresse em seguida, mas pouco a pouco. Os que o haviam posto sobre

a fogueira não podiam soltá-lo até que, ainda depois de tantos padecimentos, desse sinal de

aceder ao mandado.

4. Mas ele, solidamente aferrado a seu propósito, entregou vencedora sua alma em meio aos

tormentos. Tal foi o martírio de um dos servidores imperiais, digno realmente do nome que

levava: chamava-se Pedro.

5. Ainda que não tenham sido menores os tormentos dos outros576, em consideração às proporções do

livro os omitiremos, e unicamente mencionaremos que Doroteo e Gorgonio, juntamente com

muitos outros do serviço imperial, depois de passar por combates de todo gênero, morreram

enforcados e alcançaram o prêmio da divina vitória.

6. Neste tempo, Antimo, que então presidia a igreja de Nicomedia, foi decapitado por seu testemunho

de Cristo. E a ele se juntou uma multidão compacta de mártires quando nesses mesmos dias, e sem

saber-se como, deflagrou-se um incêndio no palácio imperial de Nicomedia. Ao suspeitar-se

falsamente e correr o boato de que havia sido provocado pelos nossos, a uma ordem imperial, os

cristãos daquele lugar, em tropel e amontoadamente, uns foram degolados a espada, e outros

acabaram pelo fogo. Uma tradição diz que então homens e mulheres saltavam por si mesmos ao

fogo com um fervor divino inefável. Os verdugos, por sua parte, amarravam outra multidão a

umas barcas e a lançavam aos abismos do mar.

7. Quanto aos servidores imperiais, depois de sua morte haviam sido confiados à terra com as honras

correspondentes, mas os que se encaram como donos fizeram-nos exumar novamente, com a

opinião de que estes também deveriam ser lançados ao mar, para que não acontecesse que

jazendo em sepulcros fossem adorados e os considerassem - ao menos isto pensavam eles - como

deuses. Tais foram os acontecimentos do começo da perseguição em Nicomedia.

8. Mas não muito depois, havendo alguns tentado, na região chamada Melitene, e outros inclusive na

Síria, atacar o império, saiu uma ordem imperial de que em todas as partes se encarcerasse e

acorrentasse os dirigentes das igrejas.

9. E o espetáculo a que isto deu lugar ultrapassa toda narração: em todas as partes se encerrava

uma multidão inumerável, e em todo lugar os cárceres, anteriormente aparelhados, desde

antigamente, para homicidas e violadores de tumbas, transbordavam agora de bispos, presbíteros,

575 Augusto Diocleciano e César Galério.

576 Os demais servidores imperiais companheiros de Pedro.

diáconos, leitores e exorcistas, até que não sobrasse lugar ali para os condenados por suas

maldades.

10. Mais ainda, ao primeiro edito seguiu-se outro577, em que se mandava deixar irem livres os

encarcerados que tivessem sacrificado e passar pela tortura os que resistissem. Como, repito,

neste caso alguém poderia enumerar a multidão de mártires de cada província, sobretudo da

África, Mauritânia, Tebaida e Egito? Do Egito, alguns que inclusive haviam emigrado para

outras cidades e províncias sobressaíram por seus martírios.

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