1. Tudo isto se cumpriu, efetivamente, em nossos dias, quando com nossos próprios olhos vimos os
oratórios inteiramente arrasados, desde o telhado até os fundamentos, e as divinas e sagradas
Escrituras entregues ao fogo nas praças públicas, e os pastores das igrejas ocultando-se aqui e
ali vergonhosamente, ou presos indecorosamente e escarnecidos pelos inimigos quando,
segundo outro oráculo profético, lançou o desprezo sobre os príncipes e os faz andar errantes
por onde não há caminho568.
2. Mas não é tarefa nossa descrever as tristes calamidades que estes por fim passaram, pois
tampouco é nosso deixar memória de suas mútuas dissensões e de suas loucuras de antes da
perseguição, pelo que decidimos também não contar sobre eles mais do que aquilo que nos
permita justificar o juízo de Deus.
3. Por conseguinte, não nos deixamos levar a fazer memória dos que foram tentados pela
perseguição ou dos que naufragaram por completo no assunto de sua salvação e por sua própria
vontade se precipitaram nos abismos das ondas, mas à história geral vamos acrescentar
unicamente aquilo que possa ser de proveito primeiramente a nós mesmos e logo também a
nossa posteridade. Vamos, pois; comecemos já desde este ponto a descrever em resumo os
combates sagrados dos mártires da doutrina divina.
4. Era este o ano dezenove do império de Diocleciano e o mês de Distro -entre os romanos se diria
o de março569 - quando, estando próxima a festa da Paixão do Salvador, por todas as partes
estenderam-se editos imperiais mandando arrasar até o solo as igrejas e fazer desaparecer pelo
fogo as Escrituras, e proclamando privados de honras570 a aqueles que delas desfrutavam e de
liberdade aos particulares se permanecessem fiéis em sua profissão de cristianismo571.
5. Assim foi o primeiro edito contra nós, mas não muito depois vieram-nos outros editos nos quais
se ordenava: primeiro, lançar nas prisões todos os presidentes das igrejas em todo lugar, e
depois, forçá-los por todos os meios a sacrificar.