1. Seu filho Maxêncio593, que em Roma havia-se constituído em tirano, começou fingindo ter
nossa fé, por agradar e adular o povo romano, e por esta razão ordenou a seus súditos
interromper a perseguição contra os cristãos, simulando piedade e pensando que assim
pareceria acolhedor e muito mais brando que seus antecessores.
2. Na verdade não resultou nas obras como se esperava que seria, mas que, chegando a todo tipo de
sacrilégios, não descuidou de uma só obra de perversidade e desregramento, cometeu adultérios e
todo tipo de corrupção. Por exemplo, separando de seus maridos as legítimas esposas, ultrajava-as
da maneira mais desonrosa e em seguida mandava-as de volta aos maridos; e cuidava de não
fazer isto com pessoas insignificantes e obscuras, mas antes, escolhia dentre os mais eminentes
dos que haviam alcançado os primeiros postos do senado romano594.
3. Todos os que estavam a sua mercê, plebeus e magistrados, famosos e gente comum, todos
estavam cansados de tão terrível tirania, e ainda que estivessem em calma e suportassem sua
amarga escravidão, ainda assim, não mudava em nada a sanguinária crueldade do tirano.
Efetivamente, às vezes com um pretexto fútil dava carta branca a seu corpo de guarda para
executar uma matança contra o povo, e assim foram assassinadas multidões incontáveis do povo
romano no meio da cidade, e não por obra das lanças e armas dos citas e bárbaros, mas dos
próprios cidadãos.
4. Assim, por exemplo, não é possível calcular o número de senadores assassinados com vistas a
591 Praticamente Constâncio Cloro e Severo ficaram com todo o Ocidente, Galerio e Maximino Daza se apropriaram
do Oriente.
592 Primeiro entre os tetrarcas.
593 Também traduzido como Magnêncio ou Magêncio.
594 A maior parte das referências a Maxêncio provém de autores da propaganda de Constantino, não sendo portanto
isentas. Maxêncio efetivamente parou a perseguição contra os cristãos e inclusive construiu uma basílica, que
Constantino veio a renomear com seu próprio nome.
apoderar-se de suas fortunas, pois foram infinitos os eliminados em diferentes ocasiões e por
diferentes causas, todas inventadas.
5. Mas o cúmulo dos males levou o tirano à magia. Com vistas à magia fazia abrir o ventre de
mulheres grávidas, escrutinar as entranhas de crianças recém-nascidas ou degolar leões, e criava
algumas abomináveis invocações sobre demônios e um sacrifício conjurador da guerra, pois ele
tinha posto toda sua esperança nestes meios para chegar à vitória.
6. Em conseqüência, enquanto ele esteve como tirano em Roma, é impossível dizer o que fez para
escravizar seus súditos, tanto que os próprios víveres mais necessários chegaram a uma escassez e
penúria tão extremas como nossos contemporâneos não lembram ter visto em Roma nem em
nenhuma outra parte.
7. Quanto ao tirano do Oriente, Maximino, tendo feito um pacto secreto de amizade com o de
Roma, como com um irmão na maldade, esforçava-se em ocultá-lo o maior tempo possível, mas
foi descoberto e pagou logo como lhe era merecido.
8. Era de admirar como também ele havia conseguido afinidade e irmandade, e mais, o primeiro
lugar em maldade e a palma em perversidade, com o tirano de Roma. Efetivamente, considerava
os principais charlatães e magos dignos da mais alta honra, de tão medroso e extremamente
supersticioso que era e pela importância que dava a errar em matéria de ídolos e demônios. Sem
consultar adivinhos e oráculos era absolutamente incapaz de atrever-se a mover, por assim dizer,
sequer uma unha.
9. Esta foi a causa de que se entregasse com maior fúria e freqüência à perseguição contra nós. Deu
ordem de levantar templos em todas as cidades e renovar diligentemente os santuários
destruídos pelo passar do tempo; estabeleceu em cada lugar e em cada cidade sacerdotes de
ídolos, e sobre estes, como sumo sacerdote de cada província, com escolta e guarda militar, um dos
magistrados que mais brilhantemente houvessem se distinguido em todos os cargos públicos, e
por fim, presenteou o comando e as maiores honras, sem a menor reserva, a toda classe de
feiticeiros, por crê-los gente piedosa e amiga dos deuses.
10. Partindo destes princípios, vexava e oprimia já não uma cidade ou uma região, mas todas as
províncias que estavam sob seu domínio, com cobranças de ouro, prata e riquezas sem conta, e
com gravíssimas acusações falsas e outras diferentes penas, segundo a ocasião. Tomando dos
ricos os bens acumulados por seus antepassados, distribuía a mãos cheias riquezas e montes de
dinheiro aos aduladores que o rodeavam.
11. Na verdade, entregava-se a tais excessos de bebida e de embriaguez que, bebendo, enlouquecia e
perdia a razão, e dava tais ordens estando bêbado, que no dia seguinte, recobrados os sentidos,
tinha que arrepender-se. Não se permitia ficar atrás de ninguém como crápula e desregrado,
tornando-se mestre de maldade para os que o rodeavam, governantes e governados. Incitava o
exército com todo tipo de prazeres e intemperanças a entregar-se à frouxidão, e provocava os
governantes e comandantes militares a cair sobre os súditos com rapinas e mesquinhez, tendo-os
quase como companheiros de tirania.
12. Para que recordar as torpezas passionais daquele homem ou contar a multidão de mulheres que
corrompeu? De fato, não passava por uma cidade sem cometer adultérios continuamente e
raptar donzelas.
13. Saía-se bem nessas façanhas com todos, exceto unicamente com os cristãos, que, desprezando a
morte, desdenhavam tamanha tirania. Os homens, efetivamente, suportavam o fogo e o ferro, a
crucificação, as feras e as profundezas do mar, que lhes amputassem e queimassem os membros,
que lhes furassem e arrancassem os olhos; a mutilação, enfim, de todo o corpo e, como se fosse
pouco, a fome, as minas e as correntes, mostrando-se em tudo isto mais prontos a padecer pela
religião do que a dar aos ídolos o culto devido a Deus.
14. E quanto às mulheres, não menos fortalecidas que os homens pelo ensinamento da doutrina
divina, umas suportavam os mesmos combates que os homens e levaram os mesmos prêmios
por sua virtude; outras, arrastadas para serem desonradas, preferiram entregar sua alma à morte
antes que o corpo à desonra.
15. E certo que, de todas as que foram violadas pelo tirano, somente uma, cristã e das mais distintas e
ilustres de Alexandria, conseguiu com sua firmeza mais que varonil vencer a alma apaixonada e
dissoluta de Maximino. Mesmo sendo muito célebre por sua riqueza, sua linhagem e sua
educação, tudo preteria a sua castidade. Maximino insistiu muito, mas não era capaz de matar a
que já estava disposta a morrer, pois sua paixão era mais forte do que sua cólera. Condenou-a
então ao desterro e confiscou toda sua propriedade.
16. E outras incomparáveis mulheres, não podendo nem escutar sequer ameaças de violação,
suportaram por parte dos governadores de província todo tipo de tormentos, de torturas e de
suplícios mortais.
Por isso também estas foram admiráveis. Mas a mais extraordinariamente admirável foi aquela
mulher de Roma, a mais nobre em verdade e a mais casta de todas quantas o tirano dali,
Maxêncio, tentara atropelar, imitando Maximino.
17. Efetivamente, assim que soube (também ela era cristã) que estavam em sua casa os que serviam ao
tirano em tais empreitadas, e que seu marido, ainda que prefeito dos romanos, por medo havia
permitido que a levassem com eles, pediu permissão por um momento com o pretexto de
arrumar-se, e entrando em seu quarto, sozinha, ela mesma cravou-se uma espada e morreu
instantaneamente. Aos que a levariam deixou seu cadáver, mas a todos os homens presentes e
futuros mostrou com suas ótimas obras, mais sonoras que qualquer voz, que a única coisa
invencível e indestrutível é a virtude dos cristãos.
18. Tal abundância de maldade acumulou-se, de fato, num mesmo tempo por obra dos dois tiranos
que haviam recebido separadamente Oriente e Ocidente. E quem, procurando a causa de tantos
males, poderia duvidar que foram produzidos pela perseguição a nós? Pelo menos este estado de
confusão não cessou de modo algum até que os cristãos obtivessem a liberdade.