Livro 8 – Capítulo VII História Eclesiástica

Dos mártires egípcios da Fenícia

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1. Nós conhecemos dentre eles pelo menos os que brilharam na Palestina, e inclusive conhecemos

os que se sobressaíram em Tiro da Cilicia. Vendo-os, quem não ficaria pasmo com os inumeráveis

açoites e a resistência com que os suportaram estes atletas da religião verdadeiramente

maravilhosos? E depois dos açoites, o combate com as feras devoradoras de homens, os ataques

de leopardos, de ursos de diferentes espécies, de javalis e de touros feridos com ferro em brasa:

como não pasmar-se da admirável paciência daquelas nobres pessoas frente a cada uma destas

feras?

2. Também nós nos achamos presentes a estes acontecimentos e observamos como o poder divino do

próprio Jesus Cristo, nosso Salvador, de quem eles davam testemunho, se fazia presente e se

mostrava claramente aos mártires: as feras devoradoras de homens tardaram muito tempo a

atrever-se a tocar e até a aproximar-se dos corpos dos amigos de Deus, enquanto se lançavam

contra os outros que as açulavam de fora, sem dúvida; os santos atletas foram os únicos a quem

de modo algum tocaram, apesar de que se achavam de pé, desnudos, e lhes faziam gestos com as

mãos, provocando-as contra si mesmos (pois assim lhes mandaram que fizessem). Inclusive

quando se lançavam contra eles, novamente retrocediam, como rechaçadas por uma força mais

divina.

3. O fato de prolongar-se este espetáculo longo tempo causou grande assombro entre os espectadores,

ao ponto de que, ante a inação da primeira fera, soltaram uma segunda e até uma terceira contra

um só e mesmo mártir.

4. Era para ficar atônito ante a intrépida constância daqueles santos em tais circunstâncias e ante a

firme e inflexível resistência de seus corpos jovens. Ali pois, verias um jovem, da idade de vinte

anos incompletos, de pé, sem correntes e com as mãos estendidas em forma de cruz, que com

ânimo impassível e tranqüilo se entregava com a maior calma às orações de Deus, sem mover-

se nem desviar-se o mínimo do lugar onde se achava, enquanto ursos e leopardos, respirando

furor e morte, quase tocavam já sua carne; mas, não sei como, por uma força inefável e divina, a

ponto já de fechar suas mandíbulas, novamente saíam correndo para trás. Assim era este

homem.

5. Também poderias ter visto outros (eram cinco no total) que foram lançados a um touro bravo. Aos

de fora578 que se aproximavam este os lançava ao ar com seus cornos e os despedaçava, deixando-os

meio mortos para serem retirados; já quando se lançava furioso e ameaçador somente contra os

santos mártires, nem podia aproximar-se deles; ainda que desse golpes aqui e acolá com suas patas

e cornos, e respirasse furor e ameaça porque o açulavam com ferro em brasa viva, a providência

sagrada o arrastava para trás. Assim, como este touro não lhes fizesse o mínimo dano, soltaram

contra eles outras feras.

6. Finalmente, depois de terríveis e variadas acometidas destas, todos eles foram degolados a

espada e entregues às ondas do mar em vez de à terra e aos sepulcros.

577 São na realidade o segundo e terceiro editos, do segundo semestre de 303.

578 Refere-se aos pagãos.

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