Livro 8 – Capítulo X História Eclesiástica

Informes escritos do mártir Fileas acerca do ocorrido em Alexandria

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1. Posto que já dissemos que Fileas foi digno de grande consideração por seus muitos conhecimentos

profanos, venha ele mesmo ser testemunha de si mesmo e ao mesmo tempo nos declare quem

era e nos conte com maior exatidão do que nós faríamos os martírios ocorridos em seu tempo

em Alexandria. Estas são suas palavras:

DA CARTA DE FILEAS AOS TMUITAS

2. "Como nas divinas e sagradas Escrituras encontramos todos estes exemplos, modelos e bons

indicadores, os bem-aventurados mártires que estavam conosco, sem vacilar o mínimo, fixando

limpidamente os olhos de suas almas no Deus do universo e abraçando em suas mentes a morte pela

religião, aferravam-se tenazmente a sua vocação por terem encontrado que nosso

Senhor Jesus Cristo se fez homem por nossa causa, para destruir pela raiz todo pecado e prover-

nos de viático de entrada na vida eterna, pois não teve como usurpação o ser igual a Deus, mas

que esvaziou-se a si mesmo tomando forma de servo, e reconhecido em sua figura como

homem, humilhou-se a si mesmo até a morte, e morte de cruz579.

3. Pelo que, os mártires portadores de Cristo, procurando os dons maiores580, suportaram todo

trabalho e toda classe de invenções de tormentos, não uma só vez, mas alguns até duas vezes, e

ainda que os guardas rivalizassem em ameaças contra eles, não só por palavra, mas também por

obra, não abandonaram sua resolução, por aquele cujo amor perfeito lança fora todo o temor581.

4. E que discurso bastaria para enumerar sua força e seu valor em cada tormento? Porque, como

todo aquele que o quisesse tinha permissão para ultrajá-los, uns os golpeavam com paus, outros

com varas, outros com açoites, outros com correias e outros com cordas.

5. O espetáculo das torturas variava e continha em si muita maldade, porque alguns eram

pendurados do potro, com as duas mãos amarradas às costas, e por meio de certas máquinas

distendiam-lhes todos os membros, e estando assim, os verdugos, a uma ordem, se enfureciam

com seus corpos em sua totalidade, não somente nas costas, como se costumava com os

assassinos, mas castigavam-nos com suas armas defensivas582 inclusive no ventre, nas pernas e nas

faces. Outros eram pendurados do pórtico atados por uma só mão; a tensão das articulações e dos

membros era mais terrível que qualquer dor. Outros, por fim, eram atados às colunas cara a cara e

sem pousar os pés no chão: com o peso do corpo, as ataduras se tensionavam e apertavam

fortemente.

6. E isto suportavam não somente enquanto o governador conversava com eles e deles se ocupava,

mas quase durante o dia inteiro, pois enquanto passava aos outros, deixava que seus ministros

vigiassem os primeiros para o caso de algum, vencido pelas torturas, parecer ceder, mas ordenando

impiedosamente que apertassem ainda mais as ataduras583 e que, descendo os que ao fim

expirassem, os arrastassem pela terra.

7. E não tinham por nós a mínima consideração, mas agiam como se não existíssemos, um segundo

tormento que, além dos golpes, inventaram nossos adversários.

8. Havia os que inclusive depois dos tormentos jaziam sobre o cepo com os pés distendidos até o

quarto furo, de forma que até por força tinham que ficar de boca para cima sobre o cepo,

impotentes, por terem recentes as feridas dos golpes por todo o corpo. Outros jaziam estirados

no solo por efeito dos tormentos aplicados de uma vez, e ofereciam aos curiosos um espetáculo

579 Fp 2:6-8.

580 1 Co 12:31.

581 1 Jo 4:18.

582 O texto não se explica e resulta francamente sem sentido.

583 Novamente o texto fica obscuro.

mais cruel do que ao serem atormentados, pois levavam em seus corpos as marcas das múltiplas e

diversas torturas inventadas.

9. Assim as coisas, uns morriam em meio aos tormentos, envergonhando com sua constância o

adversário; outros, encerrados meio mortos no cárcere, faleciam ao cabo de poucos dias

oprimidos pelas dores; e os demais, conseguida a recuperação de suas forças a base de

cuidados584, com o tempo e a estadia no cárcere fizeram-se ainda mais animosos.

10. Assim pois, quando lhes foi exigido escolher585: ou tocar o sacrifício abominável e não ser

molestado, conseguindo deles a liberdade maldita, ou não sacrificar e receber condenação à

morte, eles, sem vacilar o mínimo, marcharam alegremente para a morte, pois sabiam que as

Sagradas Escrituras nos prescrevem: Quem oferecer, diz, sacrifícios a outros deuses será

exterminado586; e não terás outros deuses além de mim587."

11. Tais são as palavras que o mártir, como verdadeiro filósofo e amigo de Deus, estando ainda no

cárcere antes de sua última sentença, escreveu aos irmãos de sua igreja, confiando-lhes a situação

em que se encontrava e, ao mesmo tempo, exortando-os a manterem-se firmemente fiéis à

religião de Cristo mesmo depois de sua iminente consumação.

12. Mas que necessidade há de estender-se prolixamente e de juntar a combates recentes outros

combates ainda mais recentes, sustentados pelos santos mártires em toda a terra, sobretudo

aqueles que já não eram atacados em conformidade com uma lei comum, mas com todo o aparato

de uma guerra?

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