1. Posto que já dissemos que Fileas foi digno de grande consideração por seus muitos conhecimentos
profanos, venha ele mesmo ser testemunha de si mesmo e ao mesmo tempo nos declare quem
era e nos conte com maior exatidão do que nós faríamos os martírios ocorridos em seu tempo
em Alexandria. Estas são suas palavras:
DA CARTA DE FILEAS AOS TMUITAS
2. "Como nas divinas e sagradas Escrituras encontramos todos estes exemplos, modelos e bons
indicadores, os bem-aventurados mártires que estavam conosco, sem vacilar o mínimo, fixando
limpidamente os olhos de suas almas no Deus do universo e abraçando em suas mentes a morte pela
religião, aferravam-se tenazmente a sua vocação por terem encontrado que nosso
Senhor Jesus Cristo se fez homem por nossa causa, para destruir pela raiz todo pecado e prover-
nos de viático de entrada na vida eterna, pois não teve como usurpação o ser igual a Deus, mas
que esvaziou-se a si mesmo tomando forma de servo, e reconhecido em sua figura como
homem, humilhou-se a si mesmo até a morte, e morte de cruz579.
3. Pelo que, os mártires portadores de Cristo, procurando os dons maiores580, suportaram todo
trabalho e toda classe de invenções de tormentos, não uma só vez, mas alguns até duas vezes, e
ainda que os guardas rivalizassem em ameaças contra eles, não só por palavra, mas também por
obra, não abandonaram sua resolução, por aquele cujo amor perfeito lança fora todo o temor581.
4. E que discurso bastaria para enumerar sua força e seu valor em cada tormento? Porque, como
todo aquele que o quisesse tinha permissão para ultrajá-los, uns os golpeavam com paus, outros
com varas, outros com açoites, outros com correias e outros com cordas.
5. O espetáculo das torturas variava e continha em si muita maldade, porque alguns eram
pendurados do potro, com as duas mãos amarradas às costas, e por meio de certas máquinas
distendiam-lhes todos os membros, e estando assim, os verdugos, a uma ordem, se enfureciam
com seus corpos em sua totalidade, não somente nas costas, como se costumava com os
assassinos, mas castigavam-nos com suas armas defensivas582 inclusive no ventre, nas pernas e nas
faces. Outros eram pendurados do pórtico atados por uma só mão; a tensão das articulações e dos
membros era mais terrível que qualquer dor. Outros, por fim, eram atados às colunas cara a cara e
sem pousar os pés no chão: com o peso do corpo, as ataduras se tensionavam e apertavam
fortemente.
6. E isto suportavam não somente enquanto o governador conversava com eles e deles se ocupava,
mas quase durante o dia inteiro, pois enquanto passava aos outros, deixava que seus ministros
vigiassem os primeiros para o caso de algum, vencido pelas torturas, parecer ceder, mas ordenando
impiedosamente que apertassem ainda mais as ataduras583 e que, descendo os que ao fim
expirassem, os arrastassem pela terra.
7. E não tinham por nós a mínima consideração, mas agiam como se não existíssemos, um segundo
tormento que, além dos golpes, inventaram nossos adversários.
8. Havia os que inclusive depois dos tormentos jaziam sobre o cepo com os pés distendidos até o
quarto furo, de forma que até por força tinham que ficar de boca para cima sobre o cepo,
impotentes, por terem recentes as feridas dos golpes por todo o corpo. Outros jaziam estirados
no solo por efeito dos tormentos aplicados de uma vez, e ofereciam aos curiosos um espetáculo
579 Fp 2:6-8.
580 1 Co 12:31.
581 1 Jo 4:18.
582 O texto não se explica e resulta francamente sem sentido.
583 Novamente o texto fica obscuro.
mais cruel do que ao serem atormentados, pois levavam em seus corpos as marcas das múltiplas e
diversas torturas inventadas.
9. Assim as coisas, uns morriam em meio aos tormentos, envergonhando com sua constância o
adversário; outros, encerrados meio mortos no cárcere, faleciam ao cabo de poucos dias
oprimidos pelas dores; e os demais, conseguida a recuperação de suas forças a base de
cuidados584, com o tempo e a estadia no cárcere fizeram-se ainda mais animosos.
10. Assim pois, quando lhes foi exigido escolher585: ou tocar o sacrifício abominável e não ser
molestado, conseguindo deles a liberdade maldita, ou não sacrificar e receber condenação à
morte, eles, sem vacilar o mínimo, marcharam alegremente para a morte, pois sabiam que as
Sagradas Escrituras nos prescrevem: Quem oferecer, diz, sacrifícios a outros deuses será
exterminado586; e não terás outros deuses além de mim587."
11. Tais são as palavras que o mártir, como verdadeiro filósofo e amigo de Deus, estando ainda no
cárcere antes de sua última sentença, escreveu aos irmãos de sua igreja, confiando-lhes a situação
em que se encontrava e, ao mesmo tempo, exortando-os a manterem-se firmemente fiéis à
religião de Cristo mesmo depois de sua iminente consumação.
12. Mas que necessidade há de estender-se prolixamente e de juntar a combates recentes outros
combates ainda mais recentes, sustentados pelos santos mártires em toda a terra, sobretudo
aqueles que já não eram atacados em conformidade com uma lei comum, mas com todo o aparato
de uma guerra?