Livro 8 – Capítulo XVII História Eclesiástica

Apêndice ao livro VIII

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1. Lutando contra males tão grandes, deu-se conta das atrocidades que havia ousado cometer contra

os adoradores de Deus e, em conseqüência, recolhendo em si seu pensamento, primeiramente

confessou o Deus do universo e depois, chamando os de seu séquito, deu ordens para que, sem

tardar um momento, fizessem cessar a perseguição contra os cristãos e que, mediante uma lei e

um decreto imperiais, se dessem pressa em reconstruir suas igrejas e praticassem o culto de

costume, oferecendo orações pelo imperador.

2. Imediatamente pois, as obras seguiram as palavras, e por todas as cidades se divulgou um edito

que continha a palinódia do que foi feito conosco, nos seguintes termos:

3. "O Imperador César Galério Valério Maximiano, Augusto Invicto, Pontífice Máximo, Germânico

Máximo, Egípcio Máximo, Tebeu Máximo, Sármata Máximo cinco vezes, Persa Máximo duas

vezes, Carpo Máximo seis vezes, Armênio Máximo, Medo Máximo, Adiabeno Máximo, Tribuno

da Plebe vinte vezes, Imperator dezenove vezes, Cônsul oito vezes, Pai da Pátria, Procônsul;

4. e o Imperador César Flávio Valério Constantino Augusto Pio Félix Invicto, Pontífice Máximo,

Tribuno da Plebe, Imperator cinco vezes, Cônsul, Pai da Pátria, Procônsul;

5. e o Imperador César Valério Liciniano Licínio Augusto Pio Félix, Invicto, Pontífice Máximo,

Tribuno da Plebe quatro vezes, Imperator três vezes, Cônsul, Pai da Pátria, Procônsul, aos

habitantes de suas próprias províncias, saúde.

6. Entre as outras medidas que tomamos para utilidade e proveito do Estado, já anteriormente foi

vontade nossa endereçar todas as coisas conforme as antigas leis e ordem pública dos romanos e

prover para que também os cristãos, que tinham abandonado a seita de seus antepassados598,

voltassem ao bom propósito.

7. Porque, devido a alguma razão especial, é tão grande a ambição que os retém e a loucura que os

domina, que não seguem o que ensinaram os antigos, o mesmo que talvez seus próprios progenitores

estabeleceram anteriormente, mas, segundo o próprio desígnio e a real vontade de cada um,

fizeram leis para si mesmos, e guardam estas, tendo conseguido reunir multidões diversas em

diversos lugares.

8. Por esta causa, quando a isto seguiu uma ordem nossa de que mudassem para o estabelecido

pelos antigos, um grande número esteve sujeito a perigo, e outro grande número viu-se perturbado

e sofreu toda classe de mortes.

9. Mas como a maioria persistisse na mesma loucura e víssemos que nem rendiam aos deuses

celestes o culto devido nem atendiam ao dos cristãos, firmes em nossa benignidade e em nosso

constante costume de outorgar perdão a todos os homens, críamos que era necessário estender

também de boa vontade ao presente caso nossa indulgência, para que novamente haja cristãos e

597 Galério.

598 O paganismo, ou melhor, a religião do Império.

reparem os edifícios em que se reuniam, de tal maneira que não pratiquem nada contrário à ordem

pública. Por meio de outra carta mostrarei aos juízes o que deverão observar.

10. Em conseqüência, em troca desta nossa indulgência, deverão rogar a seu Deus por nossa

salvação, pela do Estado e por sua própria, com o fim de que, por todos os meios, o Estado se

mantenha são e possam eles viver tranqüilos em seus próprios lares."

11. Este era o teor do edito escrito em língua latina e tradução dentro do possível para o grego. O que

ocorreu depois disto, já é tempo de examiná-lo.

1. Agora bem, o autor deste edito, depois de semelhante confissão, ficou imediatamente livre das

dores, ainda que não por muito tempo, e morreu. Uma tradição diz que este foi o primeiro

causador da calamidade da perseguição. Já de antigamente, antes que os demais imperadores se

movessem, ele havia forçado a mudar de parecer os cristãos que estavam no exército e, é claro,

começando pelos que estavam em sua casa. A uns tirou a dignidade militar, a outros vexou da

maneira mais indigna e a outros inclusive ameaçou com a morte. Por último, induziu seus sócios

imperiais à perseguição contra todos. Não ficaria bem que silenciássemos sobre o final que estes

tiveram.

2. Foram, pois, quatro os que haviam repartido o governo supremo599. Os que pelo tempo e pelas

honras tinham a precedência, quando ainda não haviam se cumprido dois anos do início da

perseguição, retiraram-se do comando, como já explicamos acima. E depois de passar o resto de

suas vidas como simples pessoas privadas, tivera o seguinte fim:

3. O que pelas honras e pela idade ocupava o primeiro lugar, acabou minado por uma longa e

penosa enfermidade física; e o que depois dele ocupava o segundo posto, truncou sua vida

enforcando-se; e isto sofreu, segundo divina profecia, por causa dos numerosíssimos crimes que

havia cometido.

4. E dos que seguiam a estes, o último, de quem já dissemos que foi efetivamente o causador da

perseguição, padeceu males tão grandes como os já mencionados anteriormente. Por outro lado,

o que precedia a este, a saber, o mui benigno e suavíssimo imperador Constâncio, que passou todo

o tempo de seu governo de uma maneira digna do principado e que, em tudo o mais, mostrou-se o

mais favorável e o mais benfeitor para com todos, depois de manter-se à margem da guerra

contra nós, recebeu em troca um final de vida realmente feliz e triplamente abençoado, pois foi

o único a morrer feliz e gloriosamente no exercício de seu cargo imperial e deixando como

sucessor nele seu filho legítimo, em tudo prudentíssimo e muito religioso.

5. Este foi imediatamente proclamado pelas legiões imperador perfeitíssimo e augusto, e constituiu-

se em imitador da piedade paterna para com nossa doutrina. Assim foi a morte dos quatro

supracitados ocorrida em tempos diferentes.

6. Destes, o único que ainda vivia, o mencionado um pouco mais acima, junto com os que depois

disto foram introduzidos no governo, fez pública ante todos a confissão acima mencionada,

mediante o edito que já expusemos antes.

599 Diocleciano e Maximiano como augustos; Galério e Constâncio Cloro como césares.

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