Livro 4 – Capítulo VII História Eclesiástica

Quem foram neste tempo os líderes da gnosis de enganoso nome

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1. As igrejas de todo o mundo já resplandeciam como astros brilhantíssimos, e a fé em nosso

Salvador e Senhor Jesus Cristo chegava a seu pleno vigor em todo o gênero humano, quando o

demônio, avesso ao bem assim como inimigo da verdade e sempre hostil, demasiadamente, à

salvação dos homens, voltou contra a Igreja todas as suas artimanhas. Se em outro tempo suas

armas eram as perseguições contra ela, que vinham de fora,

2. agora, em troca, sendo-lhe vedados estes meios e lançando mão de homens malvados e feiticeiros

como de funestos instrumentos e ministros da perdição das almas, levam a cabo sua campanha por

outros caminhos. Imaginam todos os recursos, como o de que feiticeiros e embusteiros se

deslizem sob o próprio nome de nossa doutrina, para assim conduzir ao abismo da perdição os fiéis

que conseguem capturar, e aos que não conhecem a fé, com os meios que põe em prática, afastar

do caminho que leva à doutrina salvadora.

3. Assim pois, de Menandro, de quem já dissemos que foi sucessor de Simão271, saiu como uma serpente

bicéfala e com duas bocas uma força que estabeleceu como autores de duas diferentes heresias

Saturnino, antioquenho de origem, e o alexandrino Basílides. Um na Síria e o outro no Egito

constituíram caminhos de ensino de heresias inimigas de Deus.

4. Irineu demonstra que as falsidades ensinadas por Saturnino eram em sua maior partes as

mesmas de Menandro, e que Basílides, sob a aparência de coisas mais secretas, estendia suas

fantasias até o infinito, forjando as fábulas monstruosas de sua ímpia heresia.

5. Naquele tempo saíram a lutar pela verdade grande número de varões eclesiásticos, e

defenderam com bastante eloqüência a doutrina apostólica e eclesiástica. Alguns, com seus

escritos, inclusive proporcionaram aos que vieram depois os recursos profiláticos contra as

referidas heresias.

6. Destes chegou até nós uma eficaz Refutação contra Basílides, de Agripa Castor, famosíssimo

entre os escritores de então272.

7. Agripa põe a descoberto a habilidade da impostura daquele homem, pois ao desvelar seus

mistérios diz que Basílides havia composto vinte e quatro livros sobre o Evangelho, e que

chamava Barcabas e Barcof de profetas seus, e instituía para si alguns de sua própria invenção, aos

quais dava nomes bárbaros para deixar pasmos aos que se assombram com tais coisas, e também

ensinava que comer alimentos oferecidos aos ídolos e renegar despreocupadamente a fé com

juramento em tempos de perseguição eram atos sem importância. A exemplo de Pitágoras,

impunha cinco anos de silêncio aos que vinham a ele.

8. O mesmo escritor enumera ainda outras coisas parecidas a estas sobre Basílides e desmascara

valentemente o erro da citada heresia.

9. Mas também Irineu escreve que Carpocrates, pai de outra heresia, a denominada dos gnósticos,

foi coetâneo daqueles. Estes gnósticos consideravam certo transmitir as magias de Simão, não

ocultamente como ele, mas abertamente, quase gabando-se como se fossem grandes coisas, dos

filtros amorosos que elaboravam com grande cuidado, de certos espíritos familiares que enviam

sonhos e de alguns outros métodos semelhantes. De acordo com isto, ensinavam que os que

queriam chegar à perfeição de seus mistérios, melhor dizendo, de suas abominações, tinham que

concretizar tudo o que houvesse de mais obsceno, porque, segundo eles, não poderiam escapar

aos que chamam de príncipes do mundo senão satisfazendo-os a todos com uma conduta infame.

10. O que realmente ocorreu foi que o demônio, cujo prazer é o mal dos outros, usando de tais

271 Vide III:XXVI.

272 Apesar desta fama, perderam-se todos seus escritos, conhecidos apenas por fragmentos conservados por

Clemente de Alexandria.

ministros, por um lado conduziu à escravidão, para sua perdição, aos que estes conseguiram

miseravelmente enganar, e por outro proporcionou aos povos infiéis abundante material de

descrédito para a doutrina de Deus, pois a fama daqueles resultava em calúnia para todo o povo

cristão.

11. Foi assim que, na maior parte, aconteceu que se divulgasse entre os infiéis de então a ímpia e

absurdíssima suspeita de que nós praticássemos inconfessáveis uniões com nossas mães e com

nossas irmãs e que usássemos alimentos sacrílegos.

12. Mas o certo é que tudo isso não lhe trouxe proveito por muito tempo, já que a verdade manifestou-

se por si mesma e brilhou com uma luz muito intensa com o passar do tempo.

13. De fato, rebatidas pela própria ação da verdade, logo se estenderam as invenções do adversário.

As heresias eram inventadas umas depois das outras, as primeiras iam caindo sem interrupção e,

cada qual a sua maneira e a seu tempo, se corrompiam e ficavam reduzidas a idéias variadas e

multiformes. Em troca, o esplendor da única verdadeira Igreja católica, sempre idêntica a si

mesma, crescia e aumentava irradiando a toda a raça dos gregos e dos bárbaros a majestade, a

simplicidade, a liberdade, a sobriedade e a pureza da conduta e da filosofia divinas.

14. Em conseqüência, com o passar do tempo, extinguiram-se também as calúnias contra toda a

doutrina, enquanto que somente nosso ensinamento se mantinha vencedor entre todos e com o

reconhecimento de ser a que mais sobressai por sua venerabilidade, sua moderação e suas

doutrinas sábias e divinas, de forma que ninguém dos de agora se atreve a proferir contra nossa

fé uma injúria vergonhosa nem calúnia semelhantes às que anteriormente gostavam de utilizar os

que se conjuravam contra nós.

15. E mesmo assim, nos tempos de que falamos, a verdade tomou numerosos defensores seus, que

não somente lutaram contra as ímpias heresias com argumentos não escritos, mas também com

demonstrações escritas.

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