1. O mesmo autor, antes de seu próprio combate, menciona em sua primeira Apologia a outros
mártires anteriores a ele. Também este relato é útil para nosso intento.
2. Escreve assim: "Uma mulher vivia com seu dissoluto marido, e ela mesma havia-se dado
anteriormente à vida dissoluta. Mas, depois que conheceu os ensinamentos de Cristo, aprendeu
a conter-se e tratava de persuadir seu marido a tornar-se casto também, apresentando os
ensinamentos e anunciando-lhe o castigo que no fogo eterno terão os que não vivem castamente e
conforme a reta razão.
3. Mas ele perseverava na mesma devassidão e com suas obras seguia afastando-se de sua esposa,
pois a mulher, considerando ímpio seguir compartilhando o leito com um homem que buscava
recursos de prazer por todos os meios, contra a lei da natureza e contra a justiça, quis divorciar-
se.
4. E como os seus lhe suplicaram e a aconselharam que aguardasse ainda, com a esperança de que o
homem pudesse um dia mudar, fazendo uma violência contra si mesma, esperou.
5. Mas depois que seu marido foi para Alexandria e ela teve notícia de que ali fazia coisas piores,
para evitar compartilhar com ele as injustiças e impiedades permanecendo no matrimônio e
compartilhando a mesa e o leito, deu-lhe o que entre vós se chama repudium e se separou.
6. Mas o bom de seu marido, que deveria alegrar-se de que sua mulher, antes entregue à vida fácil
com criados e diaristas, desfrutando de bebedeiras e todo tipo de maldades, não somente havia
cessado com todas estas práticas, mas que também queria que ele deixasse de fazer o mesmo,
porque havia se separado sem que ele o quisesse, vai e a acusa de ser cristã.
7. E ela apresentou a ti, imperador, um libelo em que pedia, em primeiro lugar, que lhe fosse
permitido dispor de seus bens, e depois, quando seus assuntos estivessem arranjados, apresentar
sua defesa frente à acusação. E tu o permitiste.
8. Mas seu ex-marido, não podendo então dizer nada contra ela, voltou-se contra um tal Ptolomeu -
a quem Urbicio havia imposto um castigo - porque havia sido mestre daquela nas doutrinas
cristãs. Procedeu da seguinte maneira:
9. Ao Centurião que havia aprisionado Ptolomeu, e que era seu amigo, persuadiu a que se apoderasse
de Ptolomeu e lhe dirigisse esta única pergunta: se era cristão. E Ptolomeu, que amava a
verdade e não tinha o caráter embusteiro nem mentiroso, confessou que era cristão. O Centurião
fez com que o acorrentassem, e durante muito tempo submeteu-o a castigo no cárcere.
10. E quando por último Ptolomeu foi conduzido à presença de Urbicio, também lhe perguntaram
unicamente isto: se era cristão. E novamente, consciente do bem que havia recebido por meio da
doutrina de Cristo, confessou a escola da divina virtude;
11. porque quem nega algo, o que quer que seja, ou nega porque o condena, ou rejeita a confissão
porque considera a si mesmo indigno e alheio a isto. Nenhum destes casos enquadra o
verdadeiro cristão.
12. E quando Urbicio mandou que o levassem à execução, um tal Lúcio, que também era cristão,
vendo que a sentença era dada tão contra a razão, disse dirigindo-se a Urbicio: 'Qual é a causa de
que tenhas condenado este homem sem haver provado que seja um adúltero, um fornicador, um
homicida, um ladrão e sem que, em uma palavra, tenha cometido injustiça, mas somente porque
confessou levar o nome de cristão? Tu, Urbicio, não julgas como corresponde ao imperador Pio
nem ao filósofo que é o filho do César, nem tampouco ao senado sagrado.'
13. E Urbicio, sem nada responder, disse dirigindo-se também a Lúcio: 'Parece-me que também tu és
cristão.' E como Lúcio respondeu: "Assim é!", mandou que também a este levassem à execução.
Lúcio declarou que estava agradecido, pois - acrescentava - afastava-se de uns amos tão malvados
e ia para Deus, seu bom Pai e Rei. E a um terceiro que se apresentou foi infligida a mesma pena."
A isto Justino acrescentou, com razão e logicamente, as palavras que já citamos mais acima:
"E eu mesmo espero ser vítima da conspiração de algum dos nomeados, etc."