1. Um documento diz que Fílon, nos tempos de Cláudio, chegou a Roma para conversar com Pedro,
que então estava pregando aos dali. Isto na verdade pode não ser inverossímil, já que a própria
obra de que falo - composta por ele mais tarde, passado muito tempo - contém claramente as regras
da Igreja, observadas ainda em nossos dias.
2. Ocorre no entanto que, ao descrever com a maior exatidão possível a vida de nossos ascetas, fica
evidente que ele não somente conhecia, mas também aprovava, reverenciava e honrava os valores
apostólicos de seu tempo, de origem hebraica ao que parece, e que por isso conservavam ainda a
maior parte dos antigos costumes muito à maneira dos judeus.
3. Em primeiro lugar, no livro que intitulou Da vida contemplativa ou Suplicantes, Fílon deixa
bem estabelecido que não acrescentaria ao que contasse nada contrário à verdade nem de sua
própria criação. Diz que eram chamados terapeutas, e as mulheres que estavam com eles
terapeutisas, e comenta as razões de tais nomes: ou porque como médicos livravam aqueles que
os cercavam dos sofrimentos causados pela maldade às almas, curando-os e cuidando deles, ou
pela limpeza e pureza de seu serviço e culto à divindade.
4. Portanto não é necessário estender-se discutindo se Fílon colocou-lhes ele mesmo este nome,
escrevendo o nome que correspondia à índole desses homens, ou se na verdade já se chamavam
assim aos primeiros quando começaram, já que o nome de cristãos ainda não era bem conhecido
em qualquer lugar.
5. De qualquer forma, em primeiro lugar atesta seu afastamento das riquezas, afirmando que,
quando começam a viver esta filosofia, cedem seus bens aos parentes e assim, livres de toda
preocupação pela vida, saem para fora das muralhas para seguir sua vida em campos isolados e em
bosques, sabendo que o convívio com pessoas de sentimentos diferentes é nocivo e sem
proveito. Naquele tempo, ao que parece, os que agiam assim exercitavam-se em imitar com sua
fé entusiástica e ardorosa a vida dos profetas.
6. Com efeito, também nos Atos dos Apóstolos, que são reconhecidos como autênticos, descreve-se
que todos os discípulos dos apóstolos vendiam suas posses e riquezas e as repartiam a todos
conforme a necessidade de cada um, de forma que entre eles não havia indigentes129. Portanto,
segundo diz o livro130, todos os que possuíam campos ou casas os vendiam, e levando o produto da
venda, depositavam-no aos pés dos apóstolos, de modo que os repartissem a cada um segundo
suas necessidades.
7. Fílon, depois de atestar práticas semelhantes a estas continua dizendo textualmente:
"Este tipo de homens se encontra em muitos lugares do mundo, pois é mister que tanto a Grécia
como as terras bárbaras participem do bem perfeito. Mas onde abundam é no Egito, em cada um
dos chamados nomos131, e sobretudo em torno de Alexandria.
8. Os melhores de cada região são enviados a um tipo de colônia, como a uma pátria dos terapeutas,
um lugar muito adequado, que se encontra às margens do lago Mareia, sobre uma colina baixa,
nas melhores condições devido à segurança e à salubridade do ar."
Descreve então como eram suas moradias, e sobre as igrejas da região diz o que segue:
129 At 2:45.
130 At 4:34-35.
131 Distritos em que era dividido o Egito.
9. "Em cada casa há uma sala sagrada, que se chama oratório privado e monastério132, na qual se
isolam e realizam os mistérios da vida sagrada. Nela não introduzem bebida, nem alimento, nem
nada do que é necessário para o corpo, mas leis, oráculos anunciados por meio dos profetas,
hinos e tudo aquilo com que o conhecimento e a religião crescem e se aperfeiçoam." E depois
de outras coisas, diz:
10. "O tempo que vai do alvorecer ao ocaso é empregado inteiramente nesta prática: lêem as
Escrituras Sagradas, filosofam e expõe a filosofia pátria empregando a alegoria, já que pensam
que a expressão falada é símbolo da natureza oculta, que se manifesta em alegorias.
11. Possuem também escritos de antigos varões que foram os fundadores de sua seita e deixaram
numerosos monumentos de sua doutrina em forma de alegorias. Tomam-nos por modelos e
imitam sua maneira de pensar e agir."
12. Isto parece ser, portanto, o que disse o homem que os ouviu interpretar as Sagradas Escrituras.
E talvez os escritos dos antigos, que ele diz que possuem, sejam possivelmente os Evangelhos,
os escritos dos apóstolos e algumas explicações que interpretam, como é natural, os antigos
profetas, que são as que contêm a Carta aos Hebreus e outras cartas de Paulo.
13. Depois Fílon continua escrevendo o que segue sobre como compõem para si novos salmos:
"De forma que não somente se dedicam à contemplação, mas também compõem cantos e hinos
a Deus, em todas as formas de metros e melodias, ainda que marcando-os forçosamente com
números bastante graves."
14. Muitas outras coisas sobre o tema são explicadas no mesmo livro, mas pareceu-me necessário
enumerar aquelas pelas quais se expõe as características da vida da Igreja.
15. Mas se a alguém parecer que o que dissemos não é próprio unicamente da forma de vida segundo
o Evangelho, mas pode aplicar-se também a outros, além dos indicados, que se convença pelas
palavras seguintes de Fílon, nas quais, se sua intenção é boa, encontrará um testemunho
incontestável sobre este ponto, pois escreve assim:
16. "Começam estabelecendo como fundamento da alma a continência, e sobre esta edificam as demais
virtudes. Nenhum deles tomaria alimento ou bebida antes do pôr-do-sol, pois entendem que a luz
é conveniente para filosofar, enquanto que às necessidades do corpo servem bem as trevas; por
isso deixam o dia para aquele mister, e um breve espaço da noite para estas.
17. Alguns inclusive descuidam do alimento durante três dias: neles está mais arraigado o amor pela
ciência. Outros de tal maneira se alegram e deleitam no banquete da sabedoria, que tão rica e
abundantemente lhes abastece de doutrina, que podem resistir o dobro do tempo e tomar apenas
o alimento necessário ao fim de seis dias, por costume."
Cremos que estas palavras de Fílon referem-se clara e indiscutivelmente aos nossos.
18. Mas se depois do que foi dito alguém ainda se empenhar em contradizê-lo, afaste-se também este
de sua incredulidade e convença-se com provas mais claras, que não podem ser achadas em outra
parte senão na religião cristã segundo o Evangelho.
19. Diz efetivamente que, com os homens de que fala convivem também mulheres, a maioria das
quais chegam virgens à velhice depois de guardar a castidade, não por necessidade como algumas
sacerdotisas dos gregos, mas sim por convicção voluntária, devido ao seu zelo e sede de
sabedoria, com a qual se esforçam em viver, sem importar-se em nada com os prazeres do corpo e
desejosas de ter não filhos mortais, mas imortais, os quais somente a alma amante de Deus pode
gerar de si mesma.
20. Um pouco mais adiante expõe ainda mais claramente o que segue:
"Mas eles fazem as interpretações das Sagradas Escrituras por meio de sentidos simbólicos, em
alegorias, já que toda a legislação parece a estes homens semelhante a um ser vivo: como corpo
têm as expressões convencionadas; como alma, o sentido invisível encerrado nas palavras,
sentido que esta seita começou a contemplar como que refletida no espelho dos homens, a
beleza extraordinária dos conceitos."
21. Para que acrescentar a tudo isto suas reuniões num mesmo lugar, o modo de vida que levam
132 Fílon não fala de igreja, como diz Eusébio, mas de habitação sagrada, com o duplo nome de oratório privado e
monastério (lugar para uma só pessoa).
separadamente os homens e as mulheres e os exercícios que nós mesmos por costume ainda
praticamos, sobretudo os que costumamos realizar na festa da Paixão do Salvador: abstinência,
vigílias noturnas e a aplicação às palavras divinas?
22. Tudo isto nos transmitiu muito exatamente o mencionado autor em sua própria obra, com o
mesmo caráter que se pode observar até hoje somente entre nós. Descreve as vigílias completas
da grande festa, os exercícios que nela são feitos e os hinos que costumamos dizer, e como,
enquanto um vai salmodiando com ritmo e ordenadamente, os demais escutam em silêncio e
repetem com ele somente o estribilho dos hinos, e também como nos dias assinalados deitam-se
sobre leitos de palha e não tomam do vinho em absoluto - como escreve textualmente -, nem
sequer carne, antes têm como única bebida a água e como condimento do pão apenas sal e
hissôpo.
23. Além disso, descreve a ordem de precedência daqueles a quem estão confiados os ofícios
eclesiásticos públicos, o serviço e as presidências do episcopado, que estão acima de todas.
Quem desejar um conhecimento exato de tudo isto pode consegui-lo na mencionada obra do
referido autor.
24. E que Fílon escreveu isto depois de aceitar os primeiros arautos da doutrina evangélica e dos
costumes que desde o princípio transmitiram os apóstolos, é evidente para todos133.