Livro Decimo Sexto Flávio Josefo
Capítulo 9 Flávio Josefo
,
"HERODES, DEPOIS DE CONSTRUIR CESARÉIA, CONSAGRA-A EM HONRA DE
AUGUSTO E NELA PROMOVE ESPETÁCULOS DE INCRÍVEL MAGNIFICÊNCIA
PARA O POVO. CONSTRÓI AINDA OUTRAS CIDADES E DIVERSOS EDIFÍCIOS.
SUA EXTREMA LIBERALIDADE PARA COM OS ESTRANGEIROS
E SEVERO RIGOR PARA COM OS SÚDITOS.",
"695. Nesse mesmo tempo, a cidade de Cesaréia, cujos alicerces tinham
sido lançados havia dez anos, foi terminada, no ano vinte e oito do reinado de
Herodes e na centésima nonagésima segunda Olimpíada. Ele quis celebrar a
dedicação com toda a suntuosidade possível e imaginável. Mandou vir de todas
as partes todos os que tinham fama de excelentes músicos, lutadores ou atletas
de corridas e das outras espécies de exercícios. Reuniu um grande número de
gladiadores, animais ferozes, cavalos rapidíssimos e tudo o que se usa nesses
espetáculos tão apreciados pelos romanos e por outras nações. Consagrou
todos esses jogos em honra de Augusto e ordenou que fossem repetidos cada
cinco anos.
A imperatriz Lívia quis contribuir para essa soberba festividade, em que
Herodes não havia poupado despesa alguma. Mandou-lhe de Roma muitas
coisas preciosas, cujo valor chegava a quinhentos talentos. Além de uma
multidão enorme de povo que acorreu de toda as partes para ver tão grandiosa
festa, vieram embaixadores de diversas nações, convidados por Herodes. Ele
recebeu-os, alojou-os e os tratou com grande fidalguia. Dava-lhes todos os dias
novos divertimentos e, quando a noite caía, reunia-os em grandes banquetes,
dos quais eles não se cansavam de admirar a magnificência. Sentia tanto prazer
em se distinguir que se esforçava para que o brilho das últimas ações
superasse sempre o das anteriores. Afirmava-se que Augusto e Agripa disseram
muitas vezes que a sua alma estava tão acima de sua coroa que ele teria
merecido reinar sobre toda a Síria e todo o Egito.
696. Depois dessas festas e jogos celebrados com tanta pompa, ele
construiu uma cidade no campo de Cafarbasa, num lugar em que as águas e os
bosques a tornavam muito agradável. Era cercada por um rio e por uma grande
floresta de árvores muito altas. Deu a essa cidade o nome de Antipátride, por
causa de seu pai, Antípatro. Construiu, acima de Jerico, um castelo a que
chamou Cipro, nome de sua mãe, e tornou-o tão ilustre pela força quanto pela
beleza. Como não podia se esquecer de Fazael, seu irmão, a quem amara
extremamente, erigiu vários e excelentes edifícios para honrar-lhe a memória. O
primeiro foi uma torre em Jerusalém, que não era inferior à de Faraó. Chamou-
a Fazaela, sendo uma das principais fortalezas da cidade. Construiu depois, no
vale de Jerico, do lado do norte, uma cidade à qual deu o nome de Fazaela e
que foi causa de que o território das redondezas, antes deserto e abandonado,
fosse repovoado e recebesse também esse nome.
Seria difícil enumerar os bens que Herodes proporcionou não somente a
várias cidades da Síria e da Grécia, mas às de outros países por onde ele
passava em suas viagens. Costumava ajudar parte delas com a construção de
novas obras públicas ou fornecendo dinheiro para que concluíssem aquelas
que, após começadas, haviam sido abandonadas pela falta de recursos dos
moradores. Dentre as suas generosas doações, a mais digna de nota foi a do
Templo de Apoio Pítio, em Rodes, que ele mandou reconstruir à sua custa,
contribuindo também com vários talentos para que se restaurasse a frota da
cidade. Ele também ajudou na construção de obras públicas em Nicópolis,
erigida por Augusto depois da batalha de Accio. Ele ordenou ainda que se
fizessem galerias dos dois lados da praça que atravessa Antioquia,
importantíssima cidade, e mandou que lhe pavimentassem as ruas com pedra
polida, tanto para embelezá-la quanto para a comodidade de seus habitantes.
697. Como os jogos olímpicos não correspondiam à sua fama, porque
faltavam os recursos para cobrir as despesas, Herodes reservou para esse fim
uma importância anual, de modo que pudessem ser celebrados, cuidando
também da suntuosidade dos sacrifícios e dos ornamentos. Essa liberalidade
tão extraordinária fez com que lhe concedessem a honra de superintendente
perpétuo desses jogos.
Alguns ficam admirados com as grandes contradições que se acham em
Herodes. Quando consideramos a generosidade que ele dispensava com tanta
profusão, somos obrigados a confessar que ele era caridoso por natureza.
Quando se observa, no entanto, as crueldades e injustiças que ele cometia para
com os seus súditos e até mesmo para com os mais próximos, não há como
negar o seu gênio duro e o caráter violento e inexorável, que não conhecia
limites. Embora essas qualidades sejam tão opostas que parece não poderem
ser encontradas na mesma pessoa, é minha opinião que elas procedem de uma
mesma causa.
Como a ambição pela honra era a paixão dominante desse soberano, a
glória e o desejo de merecer elogios durante toda a vida e imortalizar a sua
memória levaram-no a ser tão munificente. Em contrapartida, os seus bens, por
maiores que fossem, não bastavam a despesas tão desmedidas. Ele era então
obrigado a tratar rudemente os seus súditos e receber assim, por meios
indignos, o que a sua vaidade o levava a dissipar. Desse modo, como ele, para
não empobrecer, tinha de insistir em fazer tais exações, que o tornavam odioso
aos seu súditos e o impediam de conquistar-lhes o afeto, tirava então proveito
desse ódio. Em vez de tentar acalmá-los, quando alguém não obedecia
cegamente a tudo o que ele ordenava ou quando ele desconfiava de alguma
intenção de mudança em seu governo, devido à dura servidão, ele os tratava
com rigor semelhante ao que dispensaria aos piores inimigos. Não poupava nem
os parentes nem aqueles a quem mais amava, porque exigia que todos lhe
prestassem respeito e submissão absolutos, por mais injusto que fosse o seu
governo.
Não precisamos de prova melhor dessa paixão desmesurada pela glória
pessoal que as honras excessivas que ele prestava a Augusto, a Agripa e aos
seus amigos, pois o seu intento era mostrar, pelo exemplo, de que maneira ele
gostaria de ser reverenciado. Como as nossas leis, todavia, têm por objetivo
unicamente a justiça, e não a vaidade, elas não permitiam aos judeus ganhar o
afeto dos príncipes levantando-lhes estátuas, consagrando-lhes Templos ou
usando de bajulações para contentar a própria ambição. Essa seria a razão,
julgo eu, pela qual Herodes era tão magnânimo para com os estrangeiros
quanto era injusto e cruel para com os próprios súditos.",