Livro Decimo Sexto Flávio Josefo
Capítulo 13 Flávio Josefo
,
"HERODES INICIA UMA GUERRA CONTRA OS ÁRABES POR CAUSA DA PROTEÇÃO DESTES
AOS LADRÕES DE TRACONITES.",
"706. Herodes, nesse mesmo tempo, viu-se obrigado a entrarem guerra
com os árabes pelo motivo que passo a expor. Depois que Augusto tirou
Traconites de Zenodoro para entregá-la a Herodes, os seus habitantes, não
ousando continuar os assaltos que costumavam fazer, foram obrigados a se
ocupar com o cultivo da terra. Embora esse trabalho fosse contrário à sua
inclinação e a terra fosse muito estéril, de modo que pouco proveito dela
tiravam, a vigilância de Herodes os impediu, durante algum tempo, de molestar
os vizinhos, e nisso ele mereceu muitos elogios. Mas quando viajou a Roma
para acusar Alexandre perante Augusto e recomendar-lhe Antípatro, correu a
notícia de que ele havia morrido, e então eles retomaram o hábito de roubar os
povos vizinhos, mas foram castigados pelos comandantes das tropas de
Herodes.
Os principais desses ladrões, surpresos com os infelizes resultados,
fugiram para a Arábia, onde Sileu, irritado por Herodes lhe haver recusado a
irmã, recebeu-os e deu-lhes asilo em um lugar defendido, de onde saíam para
realizar assaltos na Judéia e na Baixa Síria e devastar os campos. Herodes, ao
regressar de Roma, não conseguindo castigá-los como mereciam, porque eram
protegidos pelos árabes, mas também não podendo admitir que tratassem
daquele modo os seus súditos, entrou em Traconites e matou todos os que
tinham parentesco com eles. Os outros ficaram furiosos e, obrigados por uma
de suas leis, que os manda vingar a morte dos parentes, passaram a devastar,
com impunidade, tudo o que encontravam nos domínios de Herodes, que então
se dirigiu a Saturnino e a Volúmnio, constituídos por Augusto governadores
daquelas províncias, pedindo-lhes que os castigassem.
Essa queixa, todavia, em vez de atemorizar os ladrões, encolerizou-os
ainda mais. Então, reuniram-se em grande número, cerca de mil homens, e
intensificaram as incursões aos campos e aldeias, sem poupar nem um sequer
dos que lhes caíam nas mãos. Já não se tratava mais de roubo ou depredação,
mas de uma verdadeira guerra. Herodes pediu então insistentemente aos
árabes que lhe entregassem aqueles ladrões e pagassem os seiscentos talentos
que ele havia emprestado ao rei Obodas, por meio de Sileu, pois o prazo para o
pagamento já se esgotara. Mas Sileu, que expulsara Obodas e se apoderara do
reino, adiava sempre o reembolso e afirmava que os ladrões não se haviam
retirado para a Arábia. Por fim, Saturnino e Volúmnio ordenaram-lhe que
efetuasse o pagamento dentro de trinta dias e que cada qual entregasse os
trânsfugas que estivesse acolhendo. Viu-se então a malícia dos árabes, pois não
se encontrou ninguém dessa nação nas terras de Herodes, enquanto os ladrões
se haviam retirado todos para a Arábia.",