Livro Decimo Sexto Flávio Josefo
Capítulo 17 Flávio Josefo
,
"HERODES ACUSA ALEXANDRE E ARISTÓBULO NUMA GRANDE ASSEMBLÉIA REUNIDA EM
BERITO E OS CONDENA À MORTE.",
"717. Essa carta de Augusto deu grande alegria a Herodes, tanto por lhe
mostrar que estavam reconciliados quanto pela inteira liberdade que lhe con-
cedia para agir com os filhos. Não sei como chegou a tal excesso, o de querer
matá-los e de tratar o caso com tal precipitação, porque, embora ele
demonstrasse muita severidade para com os filhos no tempo de sua
prosperidade, isso nunca havia acontecido. Agora não tinha medidas o seu
ódio, ainda que os negócios estivessem em tão boa situação que ele não poderia
desejar melhor. Enviou convites a todas as partes, para que todos os que
Augusto havia julgado conveniente se reunissem em Berito, exceto Arqueiau,
porque o odiava e por temer que ele se opusesse ao seu desígnio. Os
governadores das províncias e as personagens mais importantes de diversas
cidades para lá se dirigiram, mas ele não quis que os filhos estivessem
presentes e mandou-os para uma aldeia dos sidônios, chamada Platana,
próxima daquela cidade e de onde podiam ser levados, caso fosse necessário.
Ele adentrou sozinho a assembléia, que constava de cento e cinqüenta
pessoas, e a maneira como acusou os filhos, em vez de despertar compaixão
pela sua infelicidade e persuadir os presentes da necessidade que o obrigava a
chegar a tão grandes extremos, pareceu, ao invés, muito inconveniente na boca
de um pai. Ele falou com muita veemência, perturbado pela cólera, esforçando-
se para mostrar a verdade dos crimes de que os jovens eram acusados, e não
trouxe nenhuma prova daquelas acusações. Via-se, enfim, um pai que, longe de
instruir os juizes, não tinha vergonha de tentar convencê-los a se unir a ele no
litígio contra os filhos. Leu as cartas deles, mas nada continham que
demonstrasse algum plano organizado contra ele ou que se tivessem deixado
levar a alguma impiedade. Pareciam confirmar somente que haviam decidido
fugir, além de algumas palavras pelas quais expressavam o descontentamento
que sentiam contra ele.
Nesse ponto das cartas, ele exclamou, como se tais palavras fossem uma
clara confissão, que eles haviam atentado contra a sua vida e jurou que elas lhe
eram mais insuportáveis que a morte. Acrescentou que a natureza e Augusto
lhe davam pleno poder sobre os filhos e que uma das leis de sua nação era
clara a esse respeito, pois ordenava que, quando um pai ou uma mãe
acusassem os filhos e pusessem a mão sobre a cabeça deles, os que estivessem
presentes eram obrigados a apedrejá-los. Assim, ele teria podido, sem outra
forma de processo, condenar à morte os seus filhos em seu país e no seu reino,
mas desejara ouvir o parecer daquela ilustre assembléia. Não os reunira,
portanto, como juizes, pois o crime deles era manifesto, porém somente por
formalidade, a fim de que participassem de seu justo ressentimento e para que
a posteridade soubesse, pelos seus sufrágios, quão importante é não tolerar tão
horríveis atentados como o dos filhos contra aqueles que lhes deram a vida.
Herodes assim falou e, como não havia trazido os filhos para que se
defendessem, a assembléia não teve dificuldade em constatar que não havia
mais probabilidade de reconciliação e confirmou-lhe o poder que Augusto lhe
dera para dispor dele como quisesse. Saturnino, que havia sido cônsul e
desempenhara cargos honrosos, opinou primeiro, com muita moderação. Ele
disse que era de opinião que fossem castigados, não, porém, com a morte.
Porque, sendo ele pai, não podia ter sentimentos tão cruéis nem crer que se
deveria acrescentar à infelicidade de Herodes aquela nova aflição, que seria o
cúmulo de todas as outras. Os três filhos dele, que eram os seus lugar-
tenentes, opinaram em seguida e foram do mesmo parecer. Volúmnio, ao
contrário, achou melhor sentenciá-los a morte. Os que falaram depois dele
foram, em sua maioria, da mesma opinião, e assim não restou mais esperança
aos dois príncipes.
718. Herodes partiu imediatamente para Tiro e levou também os filhos.
Nicolau, que voltava de Roma, encontrou-o lá, e Herodes contou-lhe o que se
havia passado em Berito e depois perguntou qual era em Roma a opinião de
seus amigos com respeito aos filhos. Ele respondeu que a maior parte os
condenava, julgando que ele devia encerrá-los na prisão para fazê-los morrer,
se o achasse justo, mas somente depois de madura reflexão, a fim de que não
parecesse que, em assuntos tão delicados, ele agia mais pela cólera que pela
razão. Ou então, para não se envolver numa aflição sem remédio, devia absolvê-
los e pô-los em liberdade. Herodes, ouvindo-o falar assim, ficou muito tempo
pensativo, sem dizer palavra. Ordenou em seguida que subisse com ele ao
navio, e partiram para Cesaréia.
Esse estado de coisas tornou-se o motivo de todas as conversas; não se
falava de outra coisa. A infelicidade dos dois príncipes e o ódio que o pai nutria
por eles havia tanto tempo criou uma imensa expectativa quando ao que iria
acontecer com os jovens. Mas, na inquietação em que o reino se encontrava, era
perigoso expressar ou dar ouvidos a qualquer coisa que lhes fosse favorável.
Era preciso esconder no coração a compaixão que se tinha deles e dissimular a
dor, sem ousar manifestá-la.
719. Apenas Tirom, um velho e corajoso cavalheiro, cujo filho era da
idade de Alexandre e muito afeiçoado ao príncipe, não ficou calado e ousou
dizer o que os outros somente pensavam. Não temia mesmo dizer em voz alta e
publicamente que não havia mais verdade nem justiça entre os homens, que a
mentira e a malícia reinavam nos corações e que a cegueira era tal que, por
maiores que fossem as suas faltas, eles não as reconheciam. Tinha-se prazer
em ouvi-lo falar com aquela perigosa liberdade, e ninguém podia condenar a
sua ousadia. Porém todos se mantinham em silêncio, pois não queriam se
arriscar, embora a apreensão pelo destino dos infelizes príncipes bem podia ter
incentivados outros a imitá-lo. Ele atreveu-se mesmo a pedir uma audiência
com o rei, para conversar a sós com ele.
Herodes concedeu-a, e então ele lhe disse: Majestade! Eu não poderia
deixar de falar-vos com esta liberdade, que me pode ser perigosa, mas também
pode ser muito útil a vós, para que reflitais no que vou dizer. Em que estais
pensando, majestade? Onde está agora aquela extraordinária sagacidade com
que tratáveis os assuntos mais complicados, e que é feito de vossos amigos e
parentes? Poder-se-ia incluir nesse número os que não se preocupam em
resolver um assunto que põe em grave perturbação uma corte tão feliz quanto a
vossa? Não percebeis o que se passa? Estaríeis desejando a morte desses dois
príncipes, oriundos de tão digna rainha — nobres, portanto, de nascimento —,
para vos colocardes, na idade em que estais, nas mãos de um filho que
concebeu esperanças criminosas e para vos entregardes aos vossos parentes,
que tantas vezes julgastes indignos de viver? Não percebeis que o silêncio do
povo condena o vosso proceder, achando-o abominável? Não vos ocorre que os
vossos soldados, particularmente os oficiais, sentem compaixão pela
infelicidade desses dois príncipes e horror pelos que os puseram em tal
desgraça?
Como o rei se achava muito sensibilizado em sua aflição e bem
convencido da maldade de seus parentes, não reprovou, de início, as palavras
de Tirom. Mas, vendo que ele o apertava com brutal liberdade, sem se impor
nenhum limite, começou a se inquietar. E, considerando o que ele lhe dizia
mais como censura que como advertência, que a preocupação pelo bem-estar
do rei o levava a dizer, perguntou quem eram os oficiais e os soldados que
condenavam o seu proceder. Quando tomou conhecimento dos nomes, mandou
colocar todos eles na prisão.
Um certo Trifom, que era barbeiro de Herodes, veio contar em seguida que
Tirom lhe havia pedido várias vezes para que cortasse a garganta do rei com a
navalha quando lhe fizesse a barba, garantindo que ele seria muito bem
recompensado e que poderia esperar, depois disso, qualquer favor da parte de
Alexandre. Herodes imediatamente ordenou que prendessem o barbeiro e o
mandou torturar, bem como a Tirom e seu filho, o qual, vendo o pai padecer os
tormentos sem nada confessar e percebendo que a crueldade do rei não dava
esperança alguma de que os aliviassem para ele também, disse que declararia
toda a verdade contanto que os deixassem de torturar. Herodes prometeu que o
faria, e ele contou que o pai, tendo obtido a liberdade de falar a sós com o rei,
havia resolvido matá-lo e se expor a todas as conseqüências, tal o seu afeto por
Alexandre. Essa declaração livrou Tirom dos tormentos, mas não se sabe se era
essa a verdade ou se o filho falara daquele modo apenas para poupar o pai e a
si mesmo de tantas dores.
720. Herodes baniu então de seu espírito qualquer compaixão que lhe
viesse impedir de ordenar a morte dos dois filhos. E, não querendo dar lugar ao
arrependimento, apressou-se em realizar a execução. Mandou então apresentar
em público os trezentos oficiais do exército cujos nomes haviam sido citados,
bem como a Tirom, o filho deste e o barbeiro, e os acusou diante do povo, que
se lançou imediatamente sobre eles e os matou. Quanto a Alexandre e
Aristóbulo, o impiedoso pai os enviou a Sebaste, onde, por sua ordem, foram
estrangulados. Os corpos foram levados a Alexandriom, ao túmulo de seu avô
materno, onde vários de seus antepassados estavam sepultados.
721. Não é de admirar, talvez, que um ódio alimentado por tanto tempo
tenha crescido até esse ponto, conseguindo afogar no espírito de Herodes todos
os sentimentos da natureza. Pode-se duvidar, todavia, e com razão, se foi justa
a condenação desses dois príncipes, os quais, tendo continuamente irritado o
pai, obrigaram-nos por fim a considerá-los mortais inimigos, ou se não
deveríamos atribuí-la à dureza de Herodes e à sua violenta paixão pelo poder,
pois ele, quando se tratava de conservar a sua absoluta autoridade, não
tolerava a mínima resistência e se achava no direito de não poupar ninguém.
Talvez se possa ainda atribuí-la à sorte, que é mais poderosa que todos os
sentimentos humanos e pode levar os homens a tais resoluções.
Quanto a mim, estou convencido de que todas as nossas ações são
preordenadas por uma inevitável necessidade a que chamamos destino, sem
cuja ordem nada se faz no mundo. Mas é suficiente havermos tocado nisso de
passagem, isto é, acerca do destino, que é muito mais elevado que o raciocínio
pelo qual busquei a causa da morte dos príncipes — se ocorreu pela
imprudência deles ou pela crueldade de Herodes. Todavia, como se pode julgar
pelo que encontramos escrito a esse respeito nos livros da nossa Lei, não se
deve crer que essa doutrina nos isente de qualquer participação nos
acontecimentos ou nivele de tal modo os diferentes costumes dos homens que
exima de toda culpa os maus e os criminosos.
Mas, voltando às duas primeiras causas de tão trágico e deplorável
acontecimento, é verdade que se pode acusar os dois príncipe da ousadia que é
comum aos de sua idade, ainda mais quando herdeiros do fausto de um
nascimento real; de haverem escutado demais as palavras dos que falavam em
desabono de seu pai; de julgarem sem eqüidade as suas ações; de suspeitarem
dele injustamente; de falarem com excessiva liberdade; de terem eles mesmos
dado motivo para calúnias aos que observavam as suas mínimas palavras com
o propósito ganhar a estima do rei.
Quanto a Herodes, como se poderá perdoar uma ação tão desumana e
desnaturada como a de matar os próprios filhos sem ter conseguido provar que
eles haviam atentado contra a sua vida, privando assim a nação de dois
príncipes tão formosos, hábeis em todos os exercícios, capazes de ser valorosos
na guerra e que falavam com tanta graça — particularmente Alexandre — que
não eram somente queridos de todo o povo judeu, mas também dos
estrangeiros? E, mesmo que os tivesse julgado culpados, por que não se
contentou em mantê-los numa prisão ou em bani-los do reino, uma vez que
nada tinha a temer, nem dentro nem fora, garantido como estava pela poderosa
proteção dos romanos? Que maior prova poderia ele dar senão a de se ter
deixado governar pela paixão, demonstrando, ao ordenar a morte dos filhos,
uma insuperável impiedade?
O que aumenta a sua culpa é o fato de que ele estava já numa idade em
que jamais poderia alegar pouca experiência para deixar ir tão longe uma
questão. Sua falta teria sido menor se a surpresa de um atentado contra a sua
vida o tivesse impelido imediatamente cometer aquela ação, ainda que tão
cruel. Porém, agir depois de tão grande demora e após tantas deliberações é
indício de uma alma sanguinária e endurecida pelo mal, como o provaram os
fatos seguintes, pois ele não perdoou nem mesmo aqueles a quem antes
demonstrara amar sinceramente, embora pouco se tenha a lamentar por causa
deles, porque eram culpados. Mas nisso se vê também a grande crueldade de
Herodes.",
"