Livro Decimo Sexto Flávio Josefo
Capítulo 15 Flávio Josefo
,
"SILEU INDISPÕE DE TAL MODO AUGUSTO COM HERODES QUE O IMPERADOR
SE RECUSA A RECEBER OS SEUS EMBAIXADORES. NEGA-SE TAMBÉM A
ESCUTAR OS EMBAIXADORES DEARETAS, REI DOS ÁRABES, QUE SUCEDERA A
OBODAS, O QUAL SILEU MANDARA ENVENENAR PARA SE APODERAR DO
REINO. HERODES ENVIA UMA TERCEIRA EMBAIXADA A AUGUSTO.",
"708. Os árabes enviaram com urgência emissários a Roma para contar a
Sileu, de forma distorcida, o que acontecera. Quando lhe deram a notícia, ele
passeava diante do palácio de Augusto, que já o conhecia. Tomou então uma
veste de luto e foi procurar o imperador. Unindo lágrimas às queixas, contou-
lhe que Herodes havia entrado com armas na Arábia e a destruíra
completamente, matando dois mil e quinhentos dos principais dentre os árabes
e Nacebe, seu parente, amigo e general do exército. Disse também que ele havia
roubado grandes riquezas no castelo de Repta e que o desprezo de Herodes por
Obodas — cuja negligência fora tão grande que nem se havia preparado para a
guerra, faltando-lhe ainda um bom chefe —, na sua ausência, o havia levado a
empreender uma guerra injusta. Acrescentou que, se não confiasse nos
cuidados do imperador em manter todas as províncias em paz, não teria
deixado o seu país para vir a Roma e, se lá tivesse ficado, jamais permitiria que
Herodes saísse vencedor naquela guerra.
Augusto, impressionado com essas palavras, limitou-se a indagar de
alguns amigos de Herodes e uns romanos recém-chegados da Síria se era
verdade que aquele príncipe havia entrado com armas na Arábia. E, como não
podiam negá-lo, não se informou o motivo que a isso o havia obrigado. César
ficou muito encolerizado e escreveu a Herodes uma carta cheia de ameaças, que
dizia, entre outras coisas, que até então ele o considerara um amigo, mas que
dali em diante o trataria como súdito.
Sileu, por sua vez, escreveu à Arábia, do modo como bem se pode
imaginar, e as suas cartas levantaram tanto o ânimo daquela nação que, vendo
eles o imperador irritado contra Herodes, não restituíram os fugitivos e não
pagaram o que deviam nem o que era de direito pelas pastagens que haviam
arrendado. Os habitantes de Traconites também se aproveitaram da ocasião:
rebelaram-se contra as guarnições iduméias enviadas por Herodes, uniram-se a
outros ladrões árabes e saquearam o país, causando muitos outros males, não
tanto para se aproveitar deles quanto pelo desejo de vingança. Herodes foi
obrigado a suportá-los, porque nada ousava empreender, ao ver que Augusto,
de tão enfurecido contra ele, nem se dignara escutar os primeiros embaixadores
que lhe enviara, tampouco dar uma resposta aos que foram em seguida.
A presença de Sileu em Roma aumentava ainda mais a angústia de
Herodes, pois sabia que estavam dando crédito às palavras daquele impostor e
que ele aspirava à coroa da Arábia. O rei Obodas morrera por aquele tempo, e
Enéias, cognominado Aretas, o substituiu. Sileu valia-se de todas as calúnias
que podia para forçar a sua destituição e usurpar o trono. Para isso, agradava
com valiosos presentes os que desfrutavam prestígio perante Augusto,
prometendo muitos mais ao imperador, esperando que ele os recebesse tão
favoravelmente quanto estava indignado com Aretas, que se atrevera a
apoderar-se do reino sem lhe pedir permissão.
Esse novo rei, por fim, escreveu a Augusto e enviou-lhe, entre outros
presentes, uma coroa de ouro de grande valor. Nas suas cartas, ele acusava
Sileu de ser um pérfido, que envenenara o rei Obodas, seu senhor, e lhe usur-
para o governo quando ele ainda vivia e que havia abusado insolentemente das
mulheres dos árabes e emprestado grandes somas para abrir caminho à tirania.
Mas Augusto não quis receber os presentes nem ouvir os embaixadores, e os
despediu sem resposta.
Assim, as coisas se indispunham cada vez mais entre os judeus e os
árabes, e não havia ninguém capaz de apaziguar tamanha divergência. Aretas
ainda não se havia consolidado no novo reino para poder reprimir as
insolências de seus súditos, e Herodes, temeroso de irritar ainda mais o
imperador, caso repelisse as injúrias que lhe faziam, era obrigado a suportá-los.
Nessa aflição em se encontrava, resolveu enviar uma terceira embaixada para
tentar, por intermédio de amigos, apaziguar os ânimos de César, e para isso
escolheu Nicolau de Damasco.",