Livro Decimo Sexto Flávio Josefo
Capítulo 10 Flávio Josefo
,
"TESTEMUNHO DO AFETO QUE OS IMPERADORES ROMANOS TINHAM PELOS JUDEUS.",
"698. Nesse mesmo tempo, os judeus que moravam na Ásia e na África,
aos quais os reis haviam concedido o direito de burguesia, eram maltratados
pelos gregos, que desviavam o dinheiro sagrado e lhes eram contrários em todas
as coisas. Então enviaram embaixadores a Augusto, de modo que se pusesse
um fim àquele bárbaro tratamento que recebiam. Esse príncipe escreveu às
províncias, reafirmando a manutenção daqueles privilégios, como se poderá ver
pela cópia da carta que julgo bem reproduzir, a fim de mostrar a afeição dos
imperadores romanos para conosco.
César Augusto, sumo sacerdote e administrador da República, ordena o
que se segue. Sendo a nação dos judeus, não somente no tempo presente, mas
também no passado, sempre fiel e afeiçoada ao povo romano, particularmente
ao imperador César, meu pai, quando Hircano era o seu sumo sacerdote,
ordenamos, com o consentimento do senado, que os judeus vivam segundo as
suas leis e costumes, tal como faziam no tempo de Hircano, sumo sacerdote do
Deus Altíssimo; que os seus Templos desfrutem sempre o direito de asilo; que
lhes seja permitido enviar a Jerusalém o dinheiro consagrado ao serviço de
Deus; que não sejam obrigados a comparecer a julgamento no dia de sábado
nem na vigília do sábado, após as nove horas; que seja punido como sacrílego e
tenha os seus bens confiscados em proveito do povo romano aquele que roubar
os seus livros santos ou o dinheiro destinado ao serviço de Deus. E, como
desejamos, em todas as ocasiões, dar provas de nossa bondade para com todos
os homens, é nosso desejo que o pedido apresentado por Caio Márcio Censorino
em nome do ju-deus seja colocado com a presente ordem em um lugar
eminente, no Templo de Ancira, o qual toda a Ásia consagrou ao nosso nome. E
seja severamente castigado aquele que ousar desobedecer a estas ordens.
Vê-se também o seguinte decreto gravado sobre uma coluna no Templo de
Augusto: César, a Norbano Flacco, saudação. Seja permitido aos judeus de
algumas províncias, onde eles moram, enviar dinheiro a Jerusalém, como
sempre o fizeram, para ser empregado no serviço de Deus, sem que isso lhes
seja impedido.
Agripa escreveu também em favor dos judeus, desta maneira: Agripa, aos
magistrados, ao senado e ao povo de Éfeso, saudação. Ordenamos que a guarda
e o emprego do dinheiro sagrado que os judeus da Ásia enviam a Jerusalém,
segundo o costume de sua nação, fique a cargo deles, e se alguém, tendo-o
roubado, recorrer aos asilos para se salvar, seja de lá tirado e entregue aos
judeus, para que o façam sofrer a pena que os sacrílegos merecem. O mesmo
Agripa escreveu também ao governador Silvano, para impedir que se
obrigassem os judeus a comparecer a julgamento em dia de sábado.
Marcos Agripa, aos magistrados e ao senado de Cirene, saudação. Os
judeus que moram em Cirene fizeram-nos queixas de que, embora Augusto
tenha ordenado a Flávio, governador da Líbia, e aos oficiais dessa província que
lhes dessem plena liberdade para enviar o dinheiro sagrado a Jerusalém, como
sempre fizeram, há pessoas maldosas que o querem impedir, sob pretexto de
alguns tributos de que os judeus lhes seriam devedores, quando na verdade
não devem. A esse respeito, ordenamos que eles sejam mantidos no usufruto de
seus direitos, sem que os tais lhes sejam impedidos ou dificultados, por
qualquer meio. E, se em alguma cidade o dinheiro sagrado for desviado, ele
deverá ser restituído aos judeus por aqueles que forem nomeados para esse
fim.
Caio Norbano Flacco, procônsul, aos magistrados de Sardes, saudação.
César nos ordenou, por meio de cartas, impedirmos que se perturbe a liberdade
que os judeus sempre tiveram de enviar a Jerusalém, segundo o costume de
sua nação, o dinheiro que eles destinam para esse fim, o que me obriga a
escrever-vos esta carta, a fim de vos informar da vontade do imperador e da
nossa.
Júlio Antônio, procônsul, escreveu também: Júlio Antônio, procônsul, ao
senado e ao povo de Éfeso, saudação. Quando eu administrava a justiça no
décimo terceiro dia de fevereiro, os judeus que moram na Ásia disseram-me que
César Augusto e Agripa lhes haviam permitido enviar com toda a liberdade a
Jerusalém, conforme as suas leis e costumes, as primícias que cada qual
desejasse oferecer livremente a Deus, por um sentimento de piedade. Eles
rogaram-me que lhes confirmasse essa graça. Por isso, conforme o desejo de
Augusto e de Agripa, faço-vos saber que permito aos judeus que nisso observem
os seus costumes, e que ninguém ouse impedi-los.
Como sei que esta história pode cair nas mãos dos gregos, julguei dever
relatar todas essas provas, para mostrar-lhes que não é de hoje que os
detentores da suprema autoridade nos permitem observar os costumes de
nossos antepassados e servir a Deus da maneira como ordena a nossa religião.
Julgo que devo repeti-lo muito, a fim de que as nações estrangeiras percam o
ódio que sem motivo nutrem contra nós. O tempo causa mudanças nos
costumes de todos os povos, e quase não há cidade onde isso não aconteça.
Mas a justiça deve ser igualmente reverenciada por todos os homens. Assim, as
nossas leis podem ser muito úteis, não somente aos gregos, mas também aos
bárbaros, o que os obriga a ter afeto por nós, pois elas são inteiramente
conformes à justiça, e nós as observamos fielmente. Por isso, rogo que nos não
odeiem pela nossa maneira diferente de viver, mas que, como nós, amem a
virtude, pois ela deve ser comum a todos os homens. Precisamos agora retomar
a nossa história.",