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Livro Decimo Sexto Flávio Josefo

Capítulo 4 Flávio Josefo

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,
"OS JUDEUS DAJÔNIA QUEIXAM-SE A AGRIPA, NA PRESENÇA DE HERODES, DE QUE OS
GREGOS OS ESTÃO PREJUDICANDO EM SEUS PRIVILÉGIOS.",
"685. Apenas Agripa e Herodes chegaram à Jônia, um grande número de
judeus moradores daquela província vieram queixar-se de que, com prejuízo
dos privilégios a eles conferidos pelos romanos e da liberdade que estes lhes
haviam concedido para viver segundo as suas próprias leis, estavam sendo
obrigados a comparecer nos dias de festas diante dos juizes. Eram também
obrigados a ir à guerra e forçados a contribuir para as despesas públicas. Isso
os impedia de enviar a Jerusalém o dinheiro destinado às cerimônias sagradas.
Herodes não quis perder essa ocasião de ajudar os judeus. E escolheu um
amigo, de nome Nicolau, para defender a causa. Agripa então reuniu os
principais romanos que estavam com ele, alguns reis e vários príncipes.
Esse amigo de Herodes assim falou: Grande e generoso Agripa. Não é de
se admirar que pessoas oprimidas recorram àqueles cuja autoridade possa
aliviá-los dos males que sofrem. E não duvidamos de que obteremos o que vos
iremos pedir, pois não desejamos outra coisa senão sermos mantidos na
mesma condição em que vos dignastes permitir-nos viver, mas da qual os
nossos inimigos se esforçam por nos privar, embora não se possam opor à
vossa vontade, sendo-vos tão sujeitos quanto nós. Que motivos eles podem ter?
Se é grande a graça que nos fizestes, é porque nos julgastes dignos de recebê-
la. E, se é pequena, ser-vos-ia vergonhoso não permitir que as desfrutem os que
a receberam de vossa liberalidade. Assim, é evidente que a injúria que eles nos
fazem recai sobre vós, pois desprezam o vosso desejo e tornam inúteis os vossos
benefícios. Se lhes for perguntado o que preferem: perder a vida ou ser
impedidos de observar as leis de seu país e as suas festas, cerimônias e
sacrifícios, acaso não responderão que é preferível sofrer qualquer castigo a
privar-se de todas essas coisas? Que guerras não empreenderão para se manter
na posse de um bem tão precioso e tão caro a todas as nações? E, que há de
mais doce, na paz que se desfruta sob o Império Romano, senão a liberdade de
viver segundo as leis do próprio país? Mas esses bárbaros querem impor aos
outros um jugo que não podem suportar, como se houvesse menos impiedade
em nos impedir prestarmos a Deus o culto ao qual a nossa religião nos obriga
que em faltarem eles mesmos aos deveres aos quais a sua os mantém sujeitos.
E outra razão torna-os ainda mais inexcusáveis. Existe cidade ou povo, que, a
menos que tenha perdido o juízo, não considere uma grande felicidade viver sob
a dominação de tão poderoso império como o romano e queira dele ser privado?
Pois é isso o que fazem os nossos inimigos quando se esforçam por nos privar
do bem que recebemos de vossa bondade. Eles estão também renunciando ao
direito de usufruir os benefícios de que vos são devedores e de que não podem
assaz estimar. Pois, se considerarmos as outras nações, quase todas obedecem
a reis e vivem numa feliz tranqüilidade, sob a proteção dos imperadores, não se
julgando súditos, mas pessoas livres. E, por maior que seja a nossa felicidade
em desfrutar a tranqüilidade que encontramos sob o vosso domínio, eles não
têm o direito de a invejar, quando a única coisa que pedimos é não sermos
perturbados no exercício de nossa religião. Pode-se com justiça no-lo recusar
quando há vantagem em no-lo conceder? Porque Deus não somente honra
aqueles que lhe prestam honra, mas também aqueles que permitem que elas
sejam prestadas. Porventura existe em todas as nossas leis e costumes algo que
se possa com razão criticar ou que não seja, ao contrário, pleno de justiça e de
piedade? As nossas leis são tão puras e santas que não tememos que sejam
conhecidas em todo o mundo. Empregamos o sétimo dia, que para nós é dia de
descanso, em estudá-las e em aprendê-las e experimentamos o quanto são
úteis para corrigir defeitos e nos levar à virtude. E, ainda que não fossem tão
louváveis em si mesmas, não deveria a sua antigüidade, que alguns ousam
vãmente contestar, torná-las ainda mais veneráveis, já que não se poderia sem
impiedade abandonar leis consagradas pela aprovação de tantos séculos?
Muitos motivos temos nós, portanto, de nos queixarmos daqueles que praticam
contra nós tão grande injustiça, pois roubam, por um horrível sacrilégio, o
dinheiro que ofertamos para ser empregado no serviço de Deus, fazem sobre
nós imposições de que estamos isentos e nos obrigam, nos dias de nossas
festas, a comparecer perante os juizes para tratar de negócios temporais, e isso
somente para nos impedir o exercício de nossa religião. E nisso são tão injustos
quanto conscientes de que não lhes damos nenhum motivo para que nos
odeiem e não podem ignorar que a eqüidade de vosso governo tem por único
objetivo unir os vossos súditos e impedir tudo o que possa vir a alterar-lhes a
união. Livrai-nos, pois, senhor, de tal opressão, por vossa autoridade, fazendo
com que não nos impeçam mais a observância de nossas leis e que aqueles que
nos odeiam não tenham mais poder sobre nós, assim como não pretendemos
dominar sobre eles. O que pedimos é justo, pois se trata da execução dó que já
nos foi concedido, como se pode ver ainda hoje nos muitos decretos do senado,
gravados sobre as tábuas de cobre do Capitólio. Não se pode também duvidar
de que a nossa afeição e fidelidade ao povo romano não tenham sido causa de
tantas demonstrações que ele nos deu de sua amizade. E, mesmo que não
tivéssemos merecido esses privilégios, seria suficiente dizer que eles nos foram
concedidos uma vez a fim de serem para sempre invioláveis, pois a vossa
maneira de agir para com todas as outras nações é tão generosa que, em vez de
diminuir os vossos benefícios, sentis prazer em aumentá-los além das
esperanças dos que já vos são reconhecidos. Os favores que recebemos do
Império Romano são tão numerosos que eu seria demasiado prolixo se os fosse
enumerar. Para que não pareça que o meu testemunho acerca do nosso
acatamento ao povo romano e de nossas benemerências seja pura vaidade e
sem fundamento, não citarei os séculos passados. Contentar-me-ei em falar-
vos«,do rei que agora nos governa e que vejo sentado junto de vós. Que
demonstrações não vos deu ele de sua grande afeição? Que provas não
recebestes de sua fidelidade? Que honras não vos prestou? Tivestes
necessidade de algum auxílio que ele não tenha sido o primeiro a vo-lo
conceder? Poderieis então recusar, diante de tantos méritos, o favor que vos
pedimos? E, poderia eu passar em silêncio os grandes serviços de Antípatro,
seu pai? Quem não sabe que ele, quando César estava empenhado na guerra
contra o Egito, levou a esse rei dois mil homens e que nenhum outro obteve
maior glória que ele pelo seu valor em todos os combates de terra e mar ou
serviu mais proveitosamente ao império? Não precisamos de outra prova.
Bastam os presentes que César lhe fez e as cartas que escreveu ao senado,
plenas da estima e do afeto que lhe devotava, obtendo assim para ele grandes
honras e a qualidade de cidadão romano. Seja essa única prova suficiente para
mostrar que merecemos essas graças e que assim não temos razão para temer
que recuseis confirmá-las. Esperamos mesmo que as aumenteis, pois vemos a
amizade que dedicais ao nosso rei e sabemos das honras que prestastes a Deus
em Jerusalém com os vossos sacrifícios e com os banquetes que oferecestes ao
povo, da bondade com a qual recebestes deles presentes e do prazer que
demonstrastes pela maneira como o nosso rei vos recebeu em seu reino e na
sua capital. Que mais se poderia desejar, pois, para não haver dúvida de que
sereis levados a reverenciar a nossa nação? Depois de tantas considerações,
não temos como recear que venhais a permitir que a malícia de nossos inimigos
nos impeça fruir os favores que recebemos de vossa generosidade.
Nicolau assim falou pelos judeus, e nenhum dos gregos o contradisse,
porque não era um assunto tratado diante dos juizes, mas uma intercessão que
pretendia fazer cessar uma injustiça que sofriam. Os inimigos de nossa nação
outra coisa não puderam alegar contra nós senão que éramos estrangeiros e
que estávamos sob os seus cuidados. A isso os judeus responderam que não
deviam passar por estrangeiros, pois eram cidadãos que viviam segundo as leis
de seu país, sem fazer injustiça a ninguém.",