Livro Decimo Sexto Flávio Josefo
Capítulo 11 Flávio Josefo
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"O REI HERODES MANDA ABRIR O SEPULCRO DE DAVI, PARA TIRAR DINHEIRO,
E DEUS O CASTIGA. DIVISÕES E PERTURBAÇÕES NA FAMÍLIA. CRUELDADE
DESSE SOBERANO CAUSADA POR SUAS DESCONFIANÇAS E PELA MALÍCIA DE
ANTÍPATRO. MANDA METER ALEXANDRE, SEU FILHO, NA PRISÃO.",
"699. As excessivas despesas feitas por Herodes dentro e fora do reino
haviam esgotado as suas finanças. Ele sabia que Hircano, seu predecessor,
retirara três mil talentos de prata do sepulcro de Davi e imaginava que outros lá
ainda restassem, em número suficiente para cobrir todas as suas necessidades.
Havia muito tempo ele desejava recorrer a esse meio, e por fim o fez. Começou
por usar de todas as precauções possíveis, para impedir que o povo descobrisse
o seu intento. Mandou abrir o sepulcro à noite e lá entrou acompanhado
somente pelos seus amigos mais fiéis. Não encontrou dinheiro em moedas,
como Hircano, porém achou muitos vasos de ouro e outras preciosas dádivas
que ali haviam sido colocadas. Mandou levar tudo, no entanto isso lhe fez
desejar mais. Mandou então rebuscar até mesmo no ataúde onde estava o
corpo de Davi e o de Salomão. Conta-se, porém, que de lá saiu uma chama, que
matou dois de seus guardas. Esse fato prodigioso assustou-o e, para expiar tal
sacrilégio, ele depois mandou construir à entrada do sepulcro um soberbo
monumento de mármore branco.
Nicolau, que escreveu a história dessa época, faz menção desse fato, mas
não diz que Herodes entrou no sepulcro, porque julgava prejudicial à imagem
do rei. Em seu livro, ele tem a mesma atitude com relação a muitas outras
coisas referentes a esse soberano porque, tendo escrito essa história enquanto
Herodes ainda vivia, o desejo de agradá-lo levou-o a falar somente o que lhe
podia redundar em glória. Assim, ele registra, com grandes elogios, os seus
belos feitos, mas suprime, tanto quanto possível, os seus crimes mais notórios,
ou pelo menos procura disfarçá-los. Esforça-se mesmo por desculpar, com
pretextos especiosos, a crueldade para com Mariana e os filhos desta. Ele assim
procede em toda a sua obra, dirigindo pomposos encômios às suas justas
ações, mas principalmente fazendo apologia de suas injustiças. Quanto a mim,
que tenho a honra de descender dos asmoneus e ter o meu lugar entre os
sacerdotes e que não ousaria pronunciar qualquer falsidade contra eles, narro
as coisas sinceramente e não creio ofender aos reis descendentes de Herodes ao
preferir a verdade, a qual em certos momentos pode lhes causar desgosto.
700. Desde o dia em que Herodes violou o respeito devido à santidade dos
sepulcros, a agitação em sua família aumentou cada vez mais, fosse por uma
vingança do céu, o que teria tornado essa chaga ainda mais dolorosa, fosse por
ocorrer num tempo em que se podia vincular a causa a esse sacrilégio. Uma
guerra civil não agitaria mais uma nação que as paixões dos diversos partidos
da corte desse príncipe. Parecia que cada qual desejava superar os demais em
calúnias. E era Antípatro quem sobrepujava a todos em artifícios para destruir
os irmãos. Fazia com que fossem acusados de falsos crimes e ocultava a sua
perigosa malícia tomando-lhes muitas vezes a defesa, a fim de poder, com esse
amor aparente, oprimi-los sem muita dificuldade e enganar o rei seu pai, que
pensava ser ele o único a se interessar pela sua conservação. Assim, Herodes
ordenou a Ptolomeu, seu principal ministro, que nada fizesse no governo sem
antes comunicar a Antipatro. Dava também à mãe dele participação em todas
as coisas, e Antipatro servia-se dessa influência para insuflar o ódio na mente
de todos os que julgava importante tornar inimigos do rei.
Alexandre e Aristóbulo, por sua vez, cujo coração correspondia à grandeza
de sua origem, não podiam tolerar um tratamento tão indigno da parte
daqueles que lhes eram inferiores, e as suas mulheres eram do mesmo parecer.
Glafira odiava Salomé mortalmente, tanto por causa do afeto que tinha por
Alexandre, seu marido, quanto por não tolerar que ela fizesse prestar à filha,
que desposara Aristóbulo, as mesmas honras que a ela mesma.
Feroras contribuía para essa divisão, levando Herodes a desconfiar dele e
a odiá-lo, porque recusara desposar a filha deste por causa de uma serviçal a
quem amava perdidamente. Esse injurioso desprezo feriu Herodes
profundamente, porque nada lhe podia ser mais doloroso que ver o irmão* a
quem agraciara com tantos benefícios e que era quase associado ao governo
pela autoridade que lhe concedera, corresponder tão pouco ao seu afeto. E,
vendo que não conseguiria afastá-lo daquela loucura, deu essa princesa em
casamento ao filho de Fazael, seu irmão mais velho. Mais tarde, quando julgou
que Feroras, tendo já realizado os seus desejos, se havia tornado mais razoável,
fez-lhe graves censuras pela maneira ofensiva como procedera para com ele e
convidou-o ao mesmo tempo a desposar Cipro, sua outra filha.
Ptolomeu repreendeu Feroras, dizendo que este ofendera gravemente o
irmão ao se deixar conduzir daquele modo por uma tão vergonhosa paixão,
podendo por isso ser privado da boa vontade do rei para com ele, que tivera a
generosidade de perdoá-lo de sua primeira falta, e provocar o seu ódio e a
própria desgraça, quando devia conservar aquela amizade. Feroras, persuadido
por essas razões, despediu a mulher, de quem tivera um filho, e prometeu ao
rei, com juramento, não vê-la mais e desposar a princesa dentro de um mês.
Chegado esse tempo, no entanto, ele esqueceu todas as promessas, retomou
aquela mulher e amou-a ainda mais ardentemente que antes.
Herodes, ofendido com esse proceder, não pôde reter por mais tempo a
sua cólera, e com freqüência escapavam-lhe palavras que traduziam toda a sua
ira. Alguns, vendo-o daquela maneira indisposto contra Feroras, incitavam-no
ainda mais por meio de calúnias. Não se passava um dia, ou mesmo uma hora,
em que ele não recebesse novos motivos de desgosto por aquela cisão e pelas
disputas contínuas entre os parentes e as pessoas que lhe eram muito
queridas.
O ódio de Salomé pelos filhos de Mariana era tão grande que ela não podia
tolerar que a própria filha, que havia desposado Aristóbulo, vivesse em paz com
o marido. Exigia dela que lhe referisse as coisas mais secretas que o casal tinha
entre si e, se acontecia entre eles alguma pequena rusga, como é natural, em
vez de lhe acalmar o espírito, irritava-a ainda mais com as suspeitas que lhe
despertava. Obrigava-a também a revelar o que se passava entre os dois
irmãos.
A jovem princesa contou-lhe que, quando eles estavam sozinhos, faziam
menção à rainha Mariana e à aversão que tinham pelo pai, dizendo que, se um
dia chegassem ao trono, não dariam outro emprego aos filhos que Herodes
tivera das outras mulheres senão o de tabeliães nas aldeias, pois, com a
educação que haviam recebido, era o cargo que estavam aptos a exercer. E, se
eles vissem as mulheres de Herodes se adornando com os trajes da rainha sua
mãe, dar-lhes-iam por vestes apenas cilícios e as encerrariam em lugares onde
jamais veriam a luz do sol. Salomé relatava todas essas coisas a Herodes. Ele as
ouvia com pesar e procurava remediá-las, porque preferia corrigir os filhos a
castigá-los. Assim, embora ele se tornasse cada dia mais triste e propenso a
crer no que lhe contavam, contentou-se em repreender severamente os filhos e
ficou satisfeito com as suas justificativas.
Porém esse mal, que parecia curado, bem depressa se manifestou muito
maior. Feroras disse a Alexandre ter sabido de Salomé que o rei concebia pela
princesa Glafira — esposa de Alexandre — uma paixão tão forte que era
impossível controlar. Essas palavras despertaram tal ciúme no príncipe que ele
passou a enxergar com maldade qualquer demonstração de afeto da parte de
Herodes pela nora. O seu penar foi tão intenso que, não o podendo mais
suportar, foi falar com o rei seu pai. Narrou-lhe em lágrimas o que Feroras lhe
dissera. Jamais Herodes tivera surpresa maior. Ele ficou tão chocado com
aquela abominável acusação que começou a lamentar profundamente a horrível
malícia de seus domésticos, os quais pagavam com a ingratidão os muitos
benefícios de que lhe eram devedores.
Mandou imediatamente chamar Feroras e disse-lhe, encolerizado: Sois o
pior de todos os homens! É assim que reconheceis tantos favores que de mim
recebestes? Como podem penetrar em vosso espírito e sair de vossa boca
pensamentos e palavras tão injuriosas contra a minha reputação e tão
contrárias à verdade? Bem compreendo o vosso desígnio. Não foi somente para
me ofender que falastes desse modo a meu filho, mas para o induzir a me
envenenar, pois qual filho, mesmo possuindo um gênio pacífico, deixaria de
vingar tamanho ultraje? Ou pensais que há grande diferença entre incentivar
tal ciúme em seu espírito e pôr-lhe a espada na mão, para que me mate? Qual é
o vosso desígnio, fingindo amar um irmão que sempre vos quis bem, quando na
verdade me tendes ódio mortal e me acusais falsamente de praticar uma ação
na qual não se pode sem impiedade nem mesmo pensar? Ide-vos, ingrato, que
renunciastes a todos os sentimentos de humanidade por vosso benfeitor e
irmão. Sejam as recriminações de vossa consciência o vosso carrasco pelo resto
de vossa vida. Quanto a mim, para vos cobrir de confusão, contentar-me-ei em
confundir a vossa malícia com a minha bondade, não vos castigando como
mereceis, mas vos tratando com a mansidão de que vos tornastes indigno.
Feroras, não podendo se desculpar de tamanho crime, de que se havia tão
claramente culpado, lançou a culpa sobre Salomé, dizendo que aquilo partira
dela. Aconteceu que ela estava presente, e, como era tão fingida quanto má,
afirmou altivamente que nada havia de mais falso e exclamou que parecia que
todos haviam conspirado para torná-la odiosa ao rei e levá-la a perder a vida, e
que a sua preocupação pelo bem-estar de Herodes diante dos perigos que o
ameaçavam era motivo para que a odiassem, e Feroras mais que todos, pois
fora ela a causa de que ele despedisse a mulher que mantinha. Enquanto
falava, arrancava os cabelos e batia no peito, mas ninguém deu crédito ao que
ela dizia.
Feroras, no entanto, ficou aflitíssimo, porque não podia negar ter dito
aquelas palavras a Alexandre nem provar que as ouvira de Salomé. E ambos
discutiram por muito tempo: ele para acusá-la e ela para se justificar. Herodes,
cansado daquela discussão, mandou-os embora, louvando o filho pela sua
moderação e por haver lhe manifestado o seu penar. Como já era tarde, foi pôr-
se à mesa. Ninguém deu razão a Salomé, e não se duvidava de que fora ela
quem inventara aquela calúnia. As mulheres do rei, que a odiavam por causa
de seu mau humor e de sua inconstância nos afetos, difamavam-na
continuamente perante Herodes.
701. Obodas reinava então na Arábia. Era um príncipe preguiçoso, que só
amava a ociosidade. Sileu, que era hábil, bem apessoado e em plena mocidade,
governava sob a sua autoridade. Veio ele falar com o rei Herodes sobre alguns
negócios e, um dia, quando estava com o rei à mesa, Salomé, que também
estava presente, caiu-lhe nas suas boas graças. Sabendo que ela era viúva,
propôs-lhe casamento. Como Sileu também lhe agradasse e ela já não estivesse
bem afinada com o espírito do rei seu irmão, não rejeitou a proposta. As
mulheres do rei logo o foram informar dessa nova amizade, acrescentando os
seus próprios comentários e críticas. Ele ordenou a Feroras que os observasse,
e este disse-lhe que era fácil de se julgar, pelos olhares e pelos sinais que
ambos trocavam, que estavam de acordo. Então Herodes não duvidou mais, e
Sileu despediu-se.
Dois ou três meses depois, ele veio pedir Salomé em casamento,
declarando que tal união seria muito vantajosa a Herodes, por causa do
comércio de seu reino com a Arábia, pois era ele, Sileu, quem a governava de
fato no presente, e o reino com certeza, no futuro, lhe pertenceria. Herodes
falou com a irmã. Ela deu-lhe voluntariamente o seu consentimento, e ele disse
a Sileu que podia satis-fazer-lhe o pedido, contanto que abraçasse a religião dos
judeus. O árabe respondeu-lhe que não o podia fazer, porque os de sua nação o
apedrejariam. E assim, desfez-se o contrato. Feroras acusou Salomé de ter
pouco cuidado com a sua reputação, e as mulheres do rei diziam abertamente
que ela nada havia recusado àquele estrangeiro.
702. Algum tempo depois, Herodes deixou-se vencer pela importunação
de Salomé e resolveu dar em casamento ao filho que ela tivera de Costobaro a
princesa sua filha que Feroras, apaixonado pela serva, recusara desposar. Mas
Feroras o fez mudar de idéia, dizendo que aquele moço jamais a amaria, por
causa do ressentimento que conservava pela morte de seu pai. Se ele achasse
melhor, que a desse ao seu filho, que tinha também a honra de ser seu
sobrinho e deveria sucedê-lo na tetrarquia. Herodes aprovou a proposta, deu
cem talentos à filha, como dote, e perdoou Feroras pelas faltas passadas.
703. As perturbações na família de Herodes não cessaram. Ao contrário,
aumentaram com novos fatos, vergonhosos em seu início e funestos em suas
conseqüências. O soberano tinha três eunucos aos quais muito estimava,
porque eram muito belos. Um era o seu mordomo, o outro, o seu camareiro e o
terceiro, o principal criado de quarto. O rei servia-se deles até mesmo nos
negócios mais importantes. Mas lhe contaram que Alexandre, seu filho, os
havia subornado com uma grande quantia de dinheiro. Herodes interrogou-os,
e eles confessaram que era verdade; todavia, negaram que ele os houvesse
induzido a empreender algo contra o rei.
Torturaram-nos uma segunda vez e os trataram com tanta violência que
eles, não podendo mais suportar, disseram que Alexandre ainda conservava no
coração o ódio que sempre tivera pelo rei seu pai e os havia exortado a
abandoná-lo, pois era um homem já inútil para tudo, por causa da velhice que
ele se esforçava tanto para ocultar, fazendo pentear a barba e os cabelos, e que,
se quisessem unir-se a ele, prometia elevá-los aos mais altos cargos quando
viesse a reinar. E isso iria acontecer muito em breve, mesmo que o seu pai não
o quisesse, pois, além de o reino lhe pertencer por direito de nascimento, estava
tudo preparado para que logo o assumisse, e os seus amigos estavam dispostos
a fazer qualquer coisa por amor a ele.
Essas palavras suscitaram terrível cólera a Herodes, causando-lhe ao
mesmo tempo um angustioso temor, pois não podia tolerar que o filho tivesse
ousado falar a seu respeito de modo tão ultrajoso. Ele temia ainda não poder
fugir de imediato ao perigo que o ameaçava. Julgou também que não era
conveniente agir às claras para resolver aquele assunto. Era preferível empregar
para isso, secretamente, pessoas de sua inteira confiança. No entanto, ele
desconfiava de todos e, julgando que a sua segurança dependia dessa
desconfiança, suspeitava de muitos que eram inocentes. Quanto mais íntimo
lhe era alguém, mais ele o julgava capaz de conspirar contra ele. Quanto aos
que não lhe eram próximos, bastava alguém acusá-los para que logo os
mandasse matar.
As coisas chegaram a tal ponto que os seus criados, convencidos de que
só se poderiam salvar arruinando os outros por meio de calúnias, passaram a
acusar os companheiros. Mas eram, por sua vez, acusados por outros, e assim
recebiam também um justo castigo, sofrendo as mesmas penas que haviam
causado aos inocentes e caindo em ciladas semelhantes às que preparavam
para os outros. Herodes logo se arrependia de supliciar pessoas que não
haviam cometido crime algum, mas isso não o impedia de insistir na prática
dessa injustiça. Ele se contentava em impor aos delatores os mesmos suplícios
sofridos pelos que haviam sido falsamente acusados por eles.
Esse deplorável estado de coisas em que se encontrava a corte do
soberano chegou a tal ponto que ele proibiu de comparecer à sua presença e de
entrar no palácio vários dentre os que ele mais amava ou estimava por
merecimento. Andrômaco e Gamelo estavam nesse número. Eram seus amigos
de longa data e lhe haviam prestado grandes serviços com os seus conselhos e
embaixadas nos mais importantes negócios do reino. Haviam cuidado da
educação dos príncipes, e em ninguém tinha ele mais confiança. Mas ele
afastou Andrômaco, porque o príncipe Alexandre era muito achegado a
Demétrio, filho daquele, e a causa da aversão por Gamelo foi o afeto que ele
nutria por esse mesmo príncipe, que fora seu discípulo e o acompanhara na
viagem a Roma. Herodes com certeza os trataria mais rudemente se não lhes
conhecesse os méritos, que eram notórios. Por isso, contentou-se em afastá-los
e em lhes tirar toda a autoridade, a fim de que, não vivendo mais em sua
presença, pudesse agir com inteira liberdade.
Antipatro era a causa principal de todos esses males, pois, quando viu
que o rei se deixava transportar facilmente a tantos temores e suspeitas,
retomou com mais crueldade os seus propósitos anteriores, sugerindo-lhe,
como se lhe prestasse um grande serviço, que mandasse matar todos os que
estavam em condições de lhe resistir. Assim, Herodes, depois do afastamento de
Andrômaco e de outros que lhe poderiam falar com liberdade, fez torturar os
que eram fiéis a Alexandre, para obrigá-los a confessar qualquer participação
em alguma conspiração contra o rei. Eles morriam nos tormentos afirmando
que eram inocentes, mas isso o fazia obstinar-se ainda mais em torturar os
suspeitos. E Antipatro era tão mau, que dizia que eles eram impedidos de
confessar a verdade por causa de sua extrema fidelidade para com Alexandre.
Com isso, um grande número de pessoas foi submetido a tormentos, a fim de se
extrair delas o que o rei desejava saber.
Um deles, sucumbindo ante a violência da dor, afirmou que ouvira
Alexandre dizer diversas vezes, quando lhe louvavam a grandeza e a beleza do
porte e a habilidade em atirar com o arco e em todas as outras espécies de
exercícios, que tais virtudes, recebidas da natureza, eram mais desgraças que
favores, porque causavam inveja ao rei seu pai, pois quando o acompanhava,
era obrigado a se curvar para não parecer mais alto que ele e quando ia à caça,
devia atirar mal, de propósito, porque o rei não podia tolerar que o louvassem.
Quando ouviram o homem falar desse modo, deixaram de o atormentar, e ele,
sentindo-se aliviado, acrescentou que Aristóbulo conspirava com o irmão para
matar o rei quando este fosse à caça e que, se o plano fosse executado sem
empecilhos, eles fugiram e iriam a Roma reivindicar o reino. Encontraram
também cartas desse príncipe ao irmão, nas quais se queixava de Herodes
haver concedido a Antipatro terras que podiam render anualmente duzentos
talentos. Tudo isso fez Herodes crer que já havia o suficiente para um justo
motivo de desconfiança dos filhos.
704. Irritou-se então novamente contra Alexandre e o encerrou na prisão.
Mas ele não estava convencido de todas aquelas acusações contra os príncipes,
pois, ainda que ousassem atentar contra a sua vida, não havia probabilidade de
que lhes tivesse ocorrido a idéia de ir a Roma após cometerem semelhante
crime. Parecia-lhe mais verossímil ser aquilo fruto do descontentamento dos
moços, pois possuíam uma grande ambição e tinham inveja de Antípatro.
Assim, querendo maiores provas, para achá-los culpados e evitar que o
acusassem de haver levianamente mandado prender o filho, mandou que se
torturassem os principais amigos do príncipe e ordenou a morte de outros,
ainda que nada tivessem confessado.
A corte estava tão agitada e cheia de terror, que alguém anunciou que
Alexandre havia preparado veneno em Asquelom e depois escrevera aos seus
amigos em Roma para que comunicassem a Augusto que descobrira um plano
contra ele: o rei seu pai deixara o partido dos romanos para unir-se a
Mitridates, rei dos partos. Herodes prestou fé a essas acusações, e não faltaram
aduladores que, para consolá-lo no seu sofrimento, diziam que era muito justo
tudo o que ele havia feito. Todavia, por mais indagações que ele fizesse, esse
pretenso veneno nunca foi encontrado.
Alexandre, embora amargurado por tantos males, não se deixou abater.
Manifestou mais coragem do que nunca em sua infelicidade: não se dignava
defender-se. Em vez de se justificar, falava de uma maneira que irritava ainda
mais o rei, de um lado cobrindo-o de confusão, pois deixava transparecer que
era facilmente enganado pelas calúnias, e de outro pondo-o em amargura e o
colocando em sérias dificuldades, caso prestasse fé ao que o filho dizia.
Escreveu-lhe quatro cartas nas quais dizia que era inútil torturar tantas
pessoas para saber se conspiravam contra ele, pois isso era coisa certa. Os seus
amigos mais fiéis tomavam parte naquela conspiração, até mesmo Feroras. A
própria Salomé viera, secretamente, à noite, deitar-se em seu leito. Assim, todos
pensavam unicamente em tirá-lo deste mundo para depois viver com
tranqüilidade. Por meio delas, apontava até mesmo a cumplicidade de Ptolomeu
e Sapínio, em quem Herodes depositava toda a confiança.
Parecia que todos estavam dominados pela raiva e que aqueles que
outrora eram os melhores amigos se haviam tornado inimigos mortais. Não se
escutavam as justificativas dos acusados, não se procurava esclarecer a
verdade. O suplício precedia o julgamento, e a prisão de uns, a morte de outros
e o desespero daqueles que não esperavam melhor tratamento enchiam o
palácio de tal temor que não restava sequer um pequeno indício da felicidade
passada. O próprio Herodes, em meio a tão grande perturbação, enfadara-se da
vida. O temor contínuo pela sua vida e o desprazer de não poder confiar em
ninguém mantinham-no em cruel e incessante tormento. Assim, como ele noite
e dia não pensava em outra coisa, imaginava freqüentemente ver o filho vir a ele
de espada em punho para matá-lo, e pouco faltou para que esse terror, que o
agitava continuamente, não o fizesse perder o juízo.",