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Livro Decimo Sexto Flávio Josefo

Capítulo 16 Flávio Josefo

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,
"HERODES, MAIS IRRITADO DO QUE NUNCA CONTRA ALEXANDRE E
ARISTOBULO, POR CAUSA DE SUAS CALÚNIAS, MANDA-OS PARA A PRISÃO.
AUGUSTO RECONHECE A MALDADE DE SILEU E O CONDENA À MORTE.
CONFIRMA ARETAS NO REINO DA ARÁBIA E LASTIMA TER SE IRRITADO
CONTRA HERODES. ACONSELHA-O A REUNIR UMA GRANDE ASSEMBLÉIA EM
BERITO E LÁ JULGAR OS FILHOS.",
"709. A agitação na família de Herodes aumentava, pelo crescente ódio
deste contra Alexandre e Aristobulo, seus filhos. A desconfiança, que é um mal
muito perigoso para os reis, não tinha fim e fortaleceu-se ainda mais por este
fato: um certo Euriclés, lacedemônio, nobre de nascimento, muito perverso,
grande bajulador e extremamente astucioso, que usava de todos os meios para
parecer o que de fato não era, veio procurar Herodes com presentes, recebendo
também outros maiores. Ele se insinuou de tal modo nas boas graças do rei que
este o recebeu no número dos seus principais amigos. Indo morar em casa de
Antípatro, introduziu-se também na vida íntima de Alexandre e lhe fez crer que
o rei Arqueriau, seu sogro, tinha um afeto particular por ele e lhe faria qualquer
favor em consideração à princesa Glafira, sua filha.
Como ele era bem recebido por toda parte e não demonstrava tendência a
nenhum partido, era fácil para ele observar o que se dizia e disso se servir para
caluniar quem quisesse, pois havia conquistado a todos de tal modo que cada
qual julgava tê-lo por único amigo e que era apenas para servi-lo em seus
interesses que mantinha relacionamento com os outros. Alexandre, que tinha
pouca experiência, facilmente deixou-se envolver, a ponto não confiar em mais
ninguém senão nele. Assim, o jovem príncipe abriu-lhe o coração e manifestou
a sua dor pela distância que o rei seu pai mantinha dele e pela morte da rainha
sua mãe. Queixou-se também de que Antipatro sozinho desfrutava todas as
honras que o irmão e ele podiam pleitear e tinha poder sobre todas as coisas.
Por fim, confessou que não podia mais suportar o excessivo ódio do pai contra
ele e Aristobulo, que por isso não mais se dignava convidá-los para os
banquetes e nem mesmo lhes dirigia a palavra.
Esse traidor referiu tudo a Antipatro, dizendo que os favores que lhe devia
o levavam a avisá-lo do perigo que o ameaçava, a fim de que ele ficasse alerta,
pois Alexandre não dissimulava que podia passar das palavras aos fatos.
Antipatro recebeu esse aviso com grandes demonstrações de gratidão para com
Euriclés, deu-lhe ricos presentes e o incitou a dizer a mesma coisa ao rei. Ele o
fez, e Herodes facilmente acreditou nas palavras ambíguas de que esse infeliz se
servia para fazer aumentar as suspeitas e desconfianças. O ódio do rei por
Alexandre tornou-se irreconciliável, e ele deu cinqüenta talentos a Euriclés. O
traidor foi imediatamente procurar o rei Arquelau para elogiar o príncipe seu
genro, dizendo que ele fora muito feliz em contribuir para a conciliação entre
pai e filho. Deu ainda grandes presentes a Arquelau e voltou à Lacedemônia
antes que pudessem descobrir as suas intrigas. Porém, como em seu país não
vivia com mais probidade que entre os estrangeiros, foi expulso e mandado para
o exílio.
710. Herodes já não se contentava, como antes, em prestar fé às calúnias
que levantavam contra Alexandre e Aristobulo. O seu ódio por eles era tão
grande que, ainda que pessoalmente não os acusasse, não deixava de os fazer
vigiar e dava inteira liberdade para que falassem contra eles. E, como não
escutava outra coisa com melhor disposição, contaram-lhe, entre outras
histórias, que um certo Varate, de Cós, havia elaborado um plano de comum
acordo com Alexandre.
711. Além dessas contínuas calúnias, que tantos levantavam tão
obstinadamente contra os dois príncipes perante o rei, sob pretexto de cuidado
pela sua conservação, aconteceu ainda um outro fato, que o prejudicou mais
que todas as outras coisas. Entre os guardas de Herodes havia dois, chamados
Jucundo e Tirano, aos quais ele muito estimava, por causa de sua estatura e
força extraordinárias. Mas, por algum desprazer que lhe causaram, acabou
afastando-os. Alexandre os recebeu em sua companhia de guardas e, como
eram homens de muita habilidade nos exercícios, ele os agraciava com ouro e
muitos presentes.
O rei, logo que o soube, passou a suspeitar deles e mandou torturá-los.
Eles suportaram o castigo durante longo tempo, mas por fim, não podendo
resistir a tantas dores, confessaram que Alexandre os havia solicitado para
matar o rei quando ele fosse a caça e lhes havia dito que seria fácil fazer
acreditar que ele morrera vítima de suas próprias armas, caindo do cavalo,
pois, algum tempo antes, pouco havia faltado para que aquilo lhe acontecesse
de verdade. Acrescentaram que encontrariam dinheiro escondido na estrebaria
do príncipe e acusaram o monteiro-mor de lhes ter dado, por ordem de
Alexandre e de alguns que estavam sob o comando do príncipe, os dardos de
que o rei se servia nas caçadas.
712. Herodes mandou também prender e torturar o governador de
Alexandriom, porque o acusavam de haver prometido aos dois príncipes que os
receberia e lhes entregaria o dinheiro que Herodes lá fazia conservar. Ele nada
confessou, mas o seu filho disse que era verdade e trouxe algumas cartas, que
pareciam escritas por Alexandre e diziam: Logo que tivermos feito, com a ajuda
de Deus, o que deliberamos, iremos procurá-lo e não duvidamos de que nos
recebereis em vossa fortaleza, como me prometestes. Herodes, depois de ler as
cartas, não duvidou mais de que seus filhos atentariam contra a sua vida. Mas
Alexandre afirmou que o secretário Diofante havia falsificado a sua assinatura
por ordem de Antipatro, que era o autor de toda a maldade. Diofante era
deveras um grande falsificador e já havia sido castigado por um crime
semelhante.
713. Herodes, que então estava em Jerico, mandou apresentar em público
os que haviam sido torturados e tinham acusado os seus filhos. O povo os
matou a pedradas e queria também apedrejar Alexandre. Mas Herodes destacou
Ptolomeu e Feroras para impedi-lo e depois mandou-o para a prisão,
juntamente com Aristóbulo. Eles eram rigorosamente vigiados, tanto que
ninguém podia aproximar-se deles, e não somente se observavam as suas
ações, mas até as mínimas palavras. Assim, já eram considerados mortos. Eles
mesmos também assim pensavam.
714. Aristóbulo, para induzir Salomé, que era ao mesmo tempo sua tia e
sua sogra, a ter compaixão de sua infelicidade e a conceber ódio pelo seu
verdadeiro autor, disse-lhe: Julgais vós mesma que estais em segurança depois
de terem dito ao rei que é a esperança de desposar Sileu que vos faz avisá-lo de
tudo o que se passa no reino? Ela repetiu imediatamente essas palavras a
Herodes. Ele ficou tão furioso que, não se podendo mais se conter, ordenou que
atassem os dois irmãos em separado e os obrigassem a declarar por escrito
tudo o que se havia passado naquele empreendimento contra ele. Em
obediência à ordem, eles fizeram a declaração. Diziam que jamais haviam
pensado em trair ou conspirar contra o rei, mas que pretendiam fugir, e que por
causa do sofrimento que experimentavam a vida se lhes tornara incerta e
tediosa.
715. Nesse mesmo tempo, Arquelau enviou como embaixador à Judéia
um dos maiorais de sua corte, de nome Mela. Herodes, para mostrar que tinha
grandes motivos de queixa contra Arquelau, mandou buscar Alexandre na
prisão e perguntou-lhe na sua presença como e para que lugar ele havia
deliberado fugir. Ele respondeu que iria procurar o rei seu sogro, o qual havia
prometido mandá-lo a Roma, mas que não tivera a menor intenção de
empreender algo contra o rei seu pai, que não havia uma só palavra verdadeira
em tudo o que fora dito contra ele, que desejara que Tirano e seus
companheiros tivessem sido mais particularmente interrogados e que, para
impedir, pela morte deles, que se pudesse conhecer a verdade, Antípatro havia
ordenado a alguns dos seus partidários que incitassem o povo a apedrejá-los.
Em seguida, Herodes mandou que levassem no mesmo instante Alexandre
e Mela à princesa Glafira e perguntassem diante deles se ela não sabia da
conspiração contra ele. Quando a princesa viu o príncipe seu marido em
cadeias, foi tomada de tão viva dor que dava pancadas na cabeça e fazia retinir
o ar com os seus gemidos e soluços. Alexandre, por seu lado, derramava
lágrimas. Esse triste espetáculo causou compaixão a todos os presentes, que
ficaram muito tempo sem proferir uma só palavra e sem um único movimento.
Por fim, Ptolomeu, a quem fora entregue a guarda do príncipe, ordenou a
Alexandre que declarasse se a princesa sua esposa tinha ou não conhecimento
dos seus atos.
Ele respondeu: Como não o saberia, se a amo mais que a minha vida e se
ela me deu filhos que me são tão caros? Ela então tomou a palavra e disse que
estava inocente, mas que, se uma confissão de culpa pudesse contribuir para a
salvação do marido, estava disposta a declarar-se culpada, por maiores que
fossem os males que lhe pudessem acontecer. Alexandre disse-lhe em seguida:
É verdade que nem vós nem eu fizemos qualquer coisa de tudo o que nos
acusam. Mas não ignorais que havíamos resolvido nos retirar para junto do rei
vosso pai, para de lá irmos a Roma. Ela disse que sim, e Herodes julgou não
ter mais necessidade de outra prova da má vontade de Arquelau.
Enviou imediatamente Olímpio e Volúmnio até ele a fim de se queixarem
de sua participação no mau desígnio dos filhos. Ordenou a esses enviados que
desembarcassem em Eluza, que é uma cidade da Cilícia, e, depois de entregar
as cartas, passassem além, para ir a Roma. Ou, caso soubessem que Nicolau
fora bem-sucedido na sua embaixada, apresentassem a Augusto as cartas que
então lhe escrevia e as memórias, para mostrar que seus filhos eram culpados.
Arquelau respondeu que verdadeiramente prometera a Alexandre e a
Aristóbulo recebê-los, porque julgava que aquilo lhes seria vantajoso, bem como
ao rei seu pai, que teria podido com simples suspeitas deixar-se levar pela
cólera, mas que não tinha nenhuma intenção de enviá-los a Roma nem de os
conservar indispostos contra ele.
716. Olímpio e Volúmnio, chegando a Roma, não encontraram dificuldade
para entregar as cartas a Augusto, porque Nicolau conseguira, pela maneira
como vou dizer, tudo o que Herodes desejava. Sabedor de que havia divisão
entre os árabes e informado por alguns deles dos crimes cometidos por Sileu e
que os mesmos árabes estavam dispostos a ajudá-lo nas acusações e podiam
provar, por meio de algumas cartas que haviam sido interceptadas, que Sileu
mandara matar vários parentes do rei Obodas, Nicolau julgou ser aquela a
ocasião mais propícia para reconduzir o seu senhor às boas graças de Augusto.
Era muito melhor que combater com argumentos a grande aversão que o
imperador demonstrava estar sentindo por aquele soberano, pois, se começasse
por acusar Sileu, poderia encontrar uma oportunidade favorável para justificar
Herodes.
Quando chegou o dia de pleitear a causa diante de Augusto, Nicolau,
ajudado pelos embaixadores do rei Aretas, acusou fortemente Sileu de haver
matado o rei Obodas, seu senhor, e vários árabes, de pedir dinheiro emprestado
para empregá-lo em perturbar a ordem do Estado e de cometer diversos
adultérios, não somente na Arábia, mas também em Roma. E acrescentou que,
além de todos esses crimes, ele ousara enganar o imperador com mentiras e
falsidades, acusando Herodes de diversas coisas, das quais nem sequer uma
era verdadeira. A essas palavras, Augusto o interrompeu. Ordenou que
esquecesse o resto e declarasse se era verdade que Herodes havia entrado com
um exército na Arábia, matado dois mil e quinhentos homens, levado um
grande número de prisioneiros e saqueado o país.
Nicolau garantiu-lhe que todas aquelas coisas eram pura invenção e que
Herodes nada fizera que pudesse desagradá-lo. Augusto, surpreendido com
essa resposta, continuou a escutá-lo, com maior atenção ainda, e ele disse que
Herodes havia emprestado quinhentos talentos* e que o termo do empréstimo
dizia expressamente que, se o tempo marcado para a restituição fosse
ultrapassado, ele poderia reaver o dinheiro confiscando parte do país. E assim,
não se podia dar o nome de exército aos soldados de que ele fora obrigado a se
servir para esse fim. Eram apenas tropas executando uma ação judiciária.
Disse também que a moderação de Herodes fora tamanha que, embora pudesse
agir por si mesmo, pois estava fundado em seu direito, ele preferiu falar antes
com Saturnino e Volúmnio, governadores da Síria; que Sileu, depois disso,
jurara na presença deles, na cidade de Berito, pela saúde de César, pagar
aquela soma em trinta dias e restituir os trânsfugas; que, tendo Sileu faltado à
palavra, Herodes voltou a procurar esses mesmos governadores; que eles lhe
permitiram usar do direito que lhe cabia, ou seja, de receber aquele pagamento
pelas armas; e que fora esse o motivo de sua incursão na Arábia.
Ele acrescentou: Foi isso, ó poderoso príncipe, que eles chamaram
guerra, e da qual se fala com tanto exagero. Mas como dar o nome de guerra ao
que se fez com a permissão de vossos governadores, em virtude de uma
obrigação e após tão grande perjúrio, pelo qual não se teve receio de violar o
respeito devido aos deuses e ao vosso nome? Devo agora justificar o que se
refere aos prisioneiros que Herodes levou consigo, e não me será difícil fazê-lo.
Os ladrões que moravam em Traconites, que eram menos de quarenta no início,
mas que depois tiveram o seu número aumentado, temendo que Herodes os
castigasse, fugiram para a Arábia, onde Sileu não somente os recebeu como
também, para praticar maldades por meio deles, lhes deu terras e
compartilhava com eles o produto dos roubos, sem temor de violar o juramento
que fizera de entregar esses criminosos a Herodes com o dinheiro que lhe era
devido. Assim, como poderia ele provar que Herodes fizera outros prisioneiros
além dos da Arábia, dos quais uma parte ainda escapou? Já houve, acaso,
maior impostura? Mas esta não é menor, se não a sobrepujar ainda. Disseram-
vos que Herodes havia matado dois mil e quinhentos homens, mas vos afirmo
que nenhum de seus homens pôs mão à espada a não ser depois que Nacebe,
com as forças que comandava, os atacou e matou alguns. Mas ele próprio
depois foi morto, com vinte e cinco outros árabes. Vedes assim, ó poderoso
príncipe, que esse número foi, por um estranho cálculo, multiplicado até dois
mil e quinhentos.
Essas palavras comoveram Augusto tão fortemente que ele, encolerizado,
voltando-se para Sileu, perguntou-lhe quantos árabes haviam sido mortos
naquele combate. Ele disse, não sabendo o que responder, que se enganara no
número. Leram-se em seguida as cláusulas da obrigação do empréstimo, as
ordens do governador e as cartas das cidades que se queixavam daqueles
ladrões. Então Augusto, plenamente informado do assunto, ficou sentido por se
haver deixado levar pelas mentiras daquele impostor e por escrever tão
rudemente a Herodes. Então condenou Sileu à morte, censurando-o por suas
calúnias, pois haviam sido a causa daquela indisposição contra o seu amigo.
Ordenou depois que ele fosse reconduzido à Arábia, para acertar-se com os
credores antes de ser executado.
Quanto a Aretas, não conseguia perdoá-lo pelo fato de ele haver se
apoderado do reino sem a sua licença. Ele desejava entregar a Arábia a
Herodes, mas as cartas deste o fizeram mudar de idéia, porque, não contendo
elas outra coisa senão acusações contra os próprios filhos, julgou não ser
conveniente acrescentar os cuidados de um outro reino a um velho afligido por
tantas amarguras domésticas. Assim, permitiu aos embaixadores de Aretas que
viessem saudá-lo e, depois de repreender severamente aquele rei pelo
atrevimento de colocar a coroa na própria cabeça sem a ter recebido de suas
mãos, aceitou os presentes e confirmou-o no reino.
Escreveu depois a Herodes, lastimando que os filhos lhe causassem tanta
dor. E, se eles eram tão desnaturados a ponto de tramar contra a sua vida, era
justo tratá-los como parricidas, e assim, sobre esse assunto, dava-lhe plena
liberdade. Todavia, se o único desígnio deles era fugir, a piedade paterna o
obrigava a se contentar com um ligeiro castigo. Por fim, aconselhava-o a reunir
uma assembléia em Berito, onde havia um grande número de romanos, a fim
de que lá, com os governadores das províncias vizinhas, Arquelau, rei da
Capadocia, e outras pessoas de sua confiança, tanto por sua posição quanto
pelo afeto que lhe dedicavam, decidisse esse assunto.
* Não parece, pelo que precede, que Herodes tenha emprestado tão grande
soma.",