🏠 Home ← Anterior Próximo →

Livro 7 Flávio Josefo

Capítulo 36 Flávio Josefo

13567891011121314151617181920212223242526272829303132333435363738
,
"OS JUDEUS QUE MORAVAM EM ALEXANDRIA, VENDO QUE OS SICÁRIOS CADA VEZ MAIS
CONSOLIDAVAM A SUA POSIÇÃO NA REVOLTA, ENTREGAM
AOS ROMANOS OS QUE SE HAVIAM REFUGIADO NAQUELE PAÍS, PARA
EVITAR QUE ELES FOSSEM CAUSA DE SUA RUÍNA. INCRÍVEL CONSTÂNCIA COM
QUE OS DESSA SEITA SOFREM OS MAIORES TORMENTOS. FECHA-SE POR
ORDEM DE VESPASIANO O TEMPLO CONSTRUÍDO POR ONIAS NO EGITO, E
NÃO SE PERMITE MAIS AOS JUDEUS LÁ IR ADORAR A DEUS.",
"540. Depois da queda de Massada, Silva deixou uma guarnição e retirou-
se para Cesaréia porque não havia mais inimigos em todo o país. Mas os judeus
que moravam na Judéia não foram os únicos oprimidos por sua ruína; os que
estavam espalhados pelas províncias afastadas ressentiram-se também de
todos os seus efeitos, e vários dos que se haviam estabelecido nos arredores da
cidade de Alexandria, no Egito, foram massacrados; creio dever dizer qual a
causa disso.
Os do partido dos sicários que escaparam para aquela parte do país, não
se contentaram de lá ficar em segurança, mas conservando sempre o mesmo
espírito de revolta, para se manterem em liberdade, diziam que os romanos não
eram mais valentes do que eles e que só reconheciam a Deus por Senhor. Os
mais ilustres dos judeus não eram da sua opinião e eles, então, mataram a
vários destes e esforçaram-se por persuadir os outros a se revoltarem. Os mais
importantes da nossa nação, fiéis aos romanos, vendo sua obstinação, e que
não poderiam sem grave perigo atacá-los abertamente, reuniram os outros
judeus, disseram-lhes até onde ia a loucura e o furor daqueles sediciosos, que
eram a causa de todos os seus males e que se eles se contentassem de obrigá-
los a fugir, não ficariam nem por isso em segurança, porque os romanos não
teriam sabido de seus perversos intentos e vingar-se-iam sobre eles, fazendo
morrer os inocentes com os culpados. E assim o único meio de prover à sua
salvação era entregá-los aos romanos, para que os castigassem conforme
mereciam.
A grandeza do perigo persuadiu toda a assembléia a aceitar este conselho;
atiraram-se sobre os sicários e prenderam uns seiscentos. Os demais fugiram
para Tebas e para os lugares do Egito, onde foram também presos e trazidos
para Alexandria. Não poderíamos ver, sem espanto, sua incrível firmeza, à qual
não sei se deva chamar de loucura ou de fortaleza de alma, ou mesmo de furor;
pois, no meio dos tormentos mais horríveis que se pode imaginar, não foi
possível convencer a um só deles a dar ao imperador o nome de senhor. Todos
permaneceram inflexíveis na sua determinação de recusá-lo; suas almas
pareciam insensíveis à dor que os corpos sofriam e eles pareciam sentir prazer
em ver o ferro fazê-los em pedaços e o fogo, consumi-los. Mas nesse horrível
espetáculo nada era mais extraordinário do que a obstinação incrível das
crianças, em recusar-se a dar ao imperador o nome de senhor, tanto a
impressão que as máximas de tão fanática seita tinham feito em seu espírito, as
elevava acima da fraqueza de sua idade.
541. Lupo, que então era governador de Alexandria, avisou imediatamente
o imperador, dessa perturbação entre os judeus; o soberano considerando como
o povo era inclinado à revolta e o motivo que tinha de temer, que eles se
reunissem sempre mais e que outros a eles se juntassem, ordenou a esse
governador que destruísse o templo que eles tinham na cidade de Oniom, que
começara a ser construído e que assim fora denominado pelo motivo que passo
a expor: Onias, filho de Simão, um dos sumo sacerdotes, fugira de Jerusalém,
quando Antíoco, rei da Síria, fazia guerra aos judeus e retirou-se para
Alexandria. Ptolomeu, que então reinava no Egito, recebeu-o mui
favoravelmente, pelo ódio que tinha de Antíoco, e com promessa de Onias de
atrair os de sua nação ao seu partido, se ele lhes concedesse um favor, o
príncipe prometeu-lho, se fosse algo que ele pudesse cumprir. Onias então
pediu-lhe que lhe permitisse construir um templo no seu reino, onde os judeus
pudessem servir a Deus, segundo os preceitos de sua religião e garantiu-lhe,
que aquela graça os teria presos ao seu serviço, aumentaria ainda o ódio que
eles tinham de Antíoco, porque ele tinha destruído o templo de Jerusalém e
faria várias deles passar para o Egito, a fim de gozar da liberdade de viver
segundo suas leis. Ptolomeu aprovou essa proposta e deu-lhe um terreno na
região de Heliópolis, a cento e oitenta estádios de Mênfis. Onias mandou
construir um templo e um castelo, que não era semelhante ao de Jerusalém,
mas tinha uma torre parecida, cuja altura era de sessenta côvados e tinha sido
construída com pedras enormes. Lá mandou fazer também um altar à imitação
do de Jerusalém, colocou ornamentos semelhantes, exceto o grande
candelabro, no lugar do qual havia uma lâmpada de ouro que brilhava como
uma luz, inferior à estrela da manhã e estava pendurada a uma corrente. As
portas desse templo eram de pedra e a torre de tijolos. Obteve também da
liberalidade do soberano uma grande quantidade de terras e uma renda em
dinheiro, a fim de que os sacerdotes pudessem prover às despesas necessárias
ao culto de Deus. Onias não resolveu tentar esse empreendimento, pelo afeto
aos mais ilustres dos judeus, que moravam em Jerusalém, contra os quais, ao
contrário, a lembrança de sua fuga o animava; mas seu fim era levar o povo a
abandoná-los para vir para junto dele e havia mais de seiscentos anos que o
profeta Isaías tinha predito que aquele templo construído no Egito, por um
judeu, seria destruído.
Logo depois da ordem recebida do imperador o governador foi ao templo,
tirou-lhe uma parte dos ornamentos e mandou fechá-lo. Depois de sua morte
Paulino, seu sucessor no governo, obrigou os sacerdotes com graves ameaças a
entregar-lhe todos os ornamentos que existiam, tomou-os, mandou fechar o
Templo, e proibiu a quem quer que fosse lá ir adorar a Deus; aboliu assim até
os menores sinais do culto divino. Fazia então trezentos e quarenta e três anos
que aquele Templo tinha sido construído.",