Livro 7 Flávio Josefo
Capítulo 25 Flávio Josefo
,
"BASSO SITIA MACHEROM. ESTRANHO FATO PELO QUAL AQUELA PRAÇA, QUE ERA TÃO
FORTE, LHE É ENTREGUE.",
"528. Depois que Basso observou bem Macherom, mandou encher o vale
que está do lado do oriente, e trabalhou com grande diligência para levar
plataformas, bastante altas, a fim de poder atacar o castelo. Os judeus, que lá
estavam cercados, obrigaram aos que consideravam como uma vil populaça a
se retirar para a cidade, a fim de resistir aos primeiros ataques dos romanos e
permaneceram para a defesa do castelo, porque, além de ser bastante forte e
mais fácil de se defender, eles não duvidavam em obter facilmente o perdão dos
romanos, en-tregando-lho, se lhe não pudessem resistir, depois de ter feito todo
o possível para obrigá-los a levantar o cerco. Não se passava um dia sem que
dessem vários assaltos e não matassem vários dos inimigos, que eles
procuravam continuamente surpreender; os romanos, ao invés, mantinham-se
sempre alertas. Mas não era desse modo que o cerco devia terminar. Um
acidente obrigou os judeus a lhes entregar a praça. Havia entre eles um certo
Eleazar, moço, forte e muito valente. Ele se distinguia em todos os combates,
atrasava os trabalhos dos romanos, animava a coragem dos inimigos com seu
exemplo e, quando eles eram obrigados a ceder, facilitava-lhes a retirada,
ficando sempre por último para escorar o ataque dos inimigos. Um dia, depois
da luta, em vez de regressar com os outros para a praça, ele se deteve, para
falar com os que estavam nas muralhas, como desprezando os romanos, que
ele dizia pouco corajosos e incapazes de um novo combate. Um soldado do
exército romano, de nome Rufo, que era egípcio, atacou-o tão repentinamente
que o dominou; levou-o então armado como estava e o trouxe para o
acampamento com grande espanto dos judeus, como se pode bem imaginar.
Basso fê-lo estender completamente despido e chicotear, à vista dos seus
companheiros. Eles vieram todos, ante esse espetáculo e seu pesar foi tão
grande que o ar ecoava com seus gemidos e lamentação; mal se podia imaginar
ser aquilo causado pela infelicidade de um único homem. Basso, para apro-
veitar a ocasião e aumentar ainda mais a compaixão que tinham de Eleazar e
obrigá-los a entregar-lhe a praça, para poupar-lhe a vida, mandou erguer uma
cruz, como para crucificá-lo naquele mesmo instante. Apenas a viram erguida,
o pesar dos judeus cresceu tanto e de tal modo, que se puseram a gritar, que
tamanha dor lhes era insuportável. Eleazar, por seu lado, rogava-lhes que não o
deixassem morrer tão miseravelmente e que pensassem na própria salvação,
sem pretender resistir às forças e à boa sorte dos romanos, depois que tantos
outros tinham sido obrigados a ceder. Este pedido, mais o dos parentes que
intercediam por ele, tocou tão vivamente aos que defendiam o castelo, que,
contra seus primeiros sentimentos, resolveram, para salvar Eleazar, entregar a
praça, com a condição de se retirarem para onde quisessem; mandaram
imediatamente a proposta a Basso, que facilmente a aceitou. Os que estavam
na cidade, tendo sabido desse tratado feito sem sua participação, resolveram
fugir durante a noite. Mas os outros, quer pela inveja, quer por temor de que
Basso fosse contra eles, avisaram-no. Assim, só os que haviam saído por
primeiros e que eram os mais decididos, salvaram-se. O restante, uns mil e
setecentos, foram mortos, suas mulheres e filhos, escravizados. Aos do castelo,
Basso, para manter a palavra que lhe havia falado, entregou-lhes Eleazar.",