Livro 7 Flávio Josefo
Capítulo 30 Flávio Josefo
,
"SILVA, QUE, DEPOIS DA MORTE DE BASSO, GOVERNAVA AJUDÉIA, DECIDE-SE
A ATACAR MASSADA, ONDE ELEAZAR, CHEFE DOS SICÁRIOS, SE HAVIA
REFUGIADO. HORRÍVEIS ATOS DE CRUELDADE E DE IMPIEDADE COMETIDOS
PELOS DESSA SEITA, PORFOÃO, POR SIMÃO E PELOS IDUMEUS.",
"534. Basso morreu na Judéia e foi substituído por Flávio Silva e como
Massada era a única praça que lhe restava tomar, ele reuniu todas as tropas
para atacá-la. Eleazar, chefe dos sicários ou assassinos, comandava-os, nessa
praça; ele era da família de Judas, que tinha outrora persuadido a vários ju-
deus, a não se submeterem ao recenseamento, que Cirênio queria fazer. Estes
revoltosos não podiam tolerar que se obedecesse aos romanos e tratavam os
que o faziam, como inimigos, saqueavam-lhes os bens, levavam seu gado,
queimavam-lhes as casas e diziam que não se devia fazer diferença entre eles e
os estrangeiros, pois eles tinham por sua covardia traído a pátria, preferindo a
escravidão à liberdade para cuja conservação tudo devemos fazer. Mas os
efeitos fizeram ver que isso era apenas um pretexto para disfarçar-lhes a cru-
eldade e a ambição porque, quando os que eles acusavam de covardes e
pérfidos se uniram a eles, para fazer guerra aos romanos, eles os trataram
ainda mais cruelmente do que o haviam feito antes e principalmente àqueles
que lhes censuravam a malícia. Jamais tempo algum foi mais fecundo em
crimes do que esse, entre os judeus. Cada qual procurava sobrepujar seu com-
panheiro, em toda espécie de crueldade e de maldade, bem como de impiedade.
Em geral e em particular, só havia corrupção. Os ricos tiranizavam o povo; o
povo procurava prejudicar os ricos. Uns queriam dominar, outros queriam
saquear, e estes sicários foram os primeiros que, sem poupar aos de sua nação,
se distinguiram por violências e assassínios. De sua boca só saíam palavras
ofensivas, seu coração só desejava traições e sua inteligência só encontrava
prazer em excogitar instrumentos de maldade.
Por mais detestáveis e violentos que eles fossem, porém, podiam passar
por moderados, em comparação com João. Este não se contentava de tratar
como inimigos e de mandar matar os que propunham coisas úteis para o bem
comum, mas não havia males que ele não causasse à sua pátria. Seria para nos
admirarmos, de que um homem que calcava aos pés o respeito devido às leis de
nossos antepassados, que havia renunciado à pureza de que os judeus faziam
profissão, que não tinha dificuldade em comer carnes proibidas e cujo furor
chegava a cometer mil atos de impiedade contra Deus, tivesse renunciado a
todos os sentimentos de humanidade?
Que crimes não cometeu também Simão, filho de Gioras? De que
espantosa maneira não tratou ele aos mesmos que o haviam recebido em
Jerusalém? Eram livres e tornaram-se escravos, submetendo-se à sua tirania?
O parentesco, a amizade e todos os outros laços que unem mais fortemente os
homens, puderam talvez impedir-lhe manchar continuamente suas mãos no
sangue? Em vez de se acalmar e tornar-se mais benigno, não o tornaram e aos
do seu partido, ainda mais cruéis? Não maltratar e não ofender pessoas
indiferentes, era para eles uma maldade covarde e tímida; nada, ao contrário,
lhes parecia tão belo, como calcar aos pés todos os deveres da natureza e da
sociedade civil, para fazer sentir os efeitos do seu furor, àqueles que eram mais
obrigados a amar.
Os idumeus, por seu lado, foram-lhes talvez inferiores em toda sorte de
crimes? Esses malvados, depois de terem massacrado os sacerdotes, não se
contentaram de abolir todos os sinais de piedade, que podiam ainda restar;
destruíram também tudo o que tinha alguma aparência de justiça humana e de
política e puseram a injustiça sobre o trono. Mostraram que eram
verdadeiramente zelotes, não pelo amor das coisas justas e santas, as quais os
haviam feito tomar esse nome, que eles se atribuíam tão falsamente e com que
entusiasmavam os ignorantes, mas por um zelo verdadeiro e pela ardente
paixão que tinham de sobrepujar, em toda espécie de crimes, os maiores
criminosos, que jamais existiram sobre a face da terra.
Se eles mostraram, até que excesso pode chegar a impiedade, Deus
mostrou quanto sua justiça deve ser temível aos maus, pois, de todos os
tormentos e suplícios que os homens são capazes de experimentar, não houve
um sequer que eles não sofressem durante a vida e que não sofrerão, sem
dúvida, depois da morte. Eu sei que alguns dirão que esse castigo, por maior
que seja, não corresponde à magnitude das ofensas e que se poderia desejar
ainda mais, pois não há castigos que os possam igualar. Quanto aos que foram
tão infelizes, de ficar expostos ao furor dessas feras, não é este o lugar de eu me
estender em deplorar sua desdita; devo retomar minha narração, que fui, quase
obrigado, a interromper.",