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Livro 7 Flávio Josefo

Capítulo 34 Flávio Josefo

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"ELEAZAR, VENDO QUE MASSADA NÃO PODIA DEIXAR DE SER TOMADA DE
ASSALTO PELOS ROMANOS, EXORTA A TODOS OS QUE DEFENDIAM O CASTELO
COM ELE, A INCENDIÁ-LO E A SE MATAREM, PARA EVITAR A ESCRAVIDÃO.",
"538. Mas Eleazar estava muito longe de querer fugir e de permitir a quem
quer que fosse tal idéia. A única coisa que lhe veio à mente, quando viu o
segundo muro reduzido a cinzas e que não restava mais nenhuma esperança de
salvação, foi livrarem-se todos, com suas mulheres e filhos, dos ultrajes e dos
males que poderiam esperar dos romanos, depois que eles se tivessem
apoderado da fortaleza. Assim, julgando nada poder fazer de mais corajoso, em
tal extremo, reuniu à noite os mais valentes de seus companheiros e para
exortá-los àquela ação, assim lhes falou: Generosos judeus, que resolvestes
depois de tanto tempo não suportar nem a dominação dos romanos, nem a de
qualquer outra nação, mas obedecer somente a Deus, que é o único que tem o
direito de governar todos os homens, eis chegado o tempo de manifestardes por
meio de obras, que verdadeiramente tendes esses sentimentos no coração. Até
agora nós nos livramos da escravidão. Não nos desonremos agora, submetendo-
nos à mais cruel, que poderíamos imaginar, se cairmos vivos nas mãos dos
romanos, depois de termos sido os primeiros a sacudir-lhes o jugo e os últimos
que tiveram a coragem de lhes opor resistência. Não nos tornemos indignos da
graça que Deus nos faz de poder morrer voluntária e gloriosamente e ainda
livres, o que é uma felicidade que não tiveram aqueles que se iludiram com a
esperança de não poderem ser vencidos. Nossos inimigos só desejam
aprisionar-nos vivos e por maior que seja a nossa resistência, não poderíamos
amanhã evitar sermos atacados com violência; mas eles não nos podem impedir
que nos antecipemos por uma morte generosa e terminemos nossos dias todos
juntos, com as pessoas que nos são mais caras. Depois que empreendemos esta
guerra, para defender nossa liberdade, não devemos julgar, pelos males que nos
causaram nossas dissensões e ainda mais pelos que os romanos nos fizeram
sofrer, com os felizes êxitos de suas armas, que Deus que tinha outrora amado
tanto nossa nação tenha então decretado sua ruína, pois que, se Ele nos tivesse
então sido favorável ou menos irritado contra nós, Ele jamais teria derramado o
sangue de um número tão grande de pessoas e aquela santa cidade — onde Ele
era adorado por peregrinos que vinham de todas as partes do mundo — teria
sido destruída e reduzida a cinzas. Nós somos os únicos de todos os judeus que
imaginamos poder conservar nossa liberdade e quisemos disso persuadir aos
outros, como se não tivéssemos parte nas ofensas que atraíram a cólera de
Deus e fôssemos nós os únicos inocentes. Mas vedes de que modo, para
confundir nossa loucura, Ele nos oprime com males ainda mais
extraordinários, que nossas esperanças ridículas e extravagantes. Pois, de que
nos serviram a força desta praça, que a arte e a natureza pareciam ter tomado
inexpugnável e a quantidade de armas e de todas as outras coisas necessárias
para se sustentar um grande assédio? Podemos duvidar de que Deus não
queira que pereçamos depois de termos visto o fogo que o vento levava contra
nossos inimigos, voltar-se de repente contra nós, para queimar o muro em que
estava toda nossa defesa? Esses sinais da cólera de Deus não podem ser
atribuídos senão aos crimes horríveis que nós cometemos com tanto furor, con-
tra os da nossa própria nação e como não poderemos deixar de ser castigados,
não é melhor satisfazermos à justiça por uma morte voluntária, do que esperar-
mos que os romanos lhe sejam os executores, depois de nos terem vencido?
Esse castigo que exercemos sobre nós mesmos será muito menor que o que nós
merecemos porque morreremos com a consolação de termos livrado nossas
esposas, da perda da honra, nossos filhos, de sua liberdade e, apesar de nossa
má sorte, dado a nós mesmos uma sepultura honrosa, morrendo sob as ruínas
de nossa pátria, antes que nos expormos a sofrer uma vergonhosa escravidão.
Mas, a fim de que os romanos tenham o desprazer de achar apenas como
despojos os nossos cadáveres, sou de opinião que queimemos o castelo, com
tudo o que ele tem de preciosidades e dinheiro, conservando apenas os víveres,
para lhes mostrarmos que não foi por necessidade, mas por generosidade que
nós nos conservamos inquebrantáveis na resolução de preferir a morte à
escravidão.
Estas palavras de Eleazar não foram recebidas do mesmo modo pelos que
as escutaram: uns, ficaram tão impressionados, que ardiam de desejo de
terminar seus dias com uma morte que lhes parecia tão gloriosa. Mas outros,
levados pela compaixão que sentiam de suas esposas e filhos, e deles mesmos,
entreo-Ihavam-se e mostravam bem com suas lágrimas que não eram da
mesma opinião. Eleazar, temendo que sua fraqueza viesse a diminuir a coragem
dos que mostravam com tanta coragem aprovar suas idéias, retomou a palavra,
com mais veemência ainda, para comovê-los, na consideração da imortalidade
da alma; começou fixando com firmeza aqueles que choravam e disse:
Enganei-me, então, quando vos tomei por homens de coragem, que
combatendo pela liberdade preferíeis morrer gloriosamente a viver com infâmia,
pois que quando deveríeis, sem que ninguém a isso vos incitasse, vós mesmos
tomar a iniciativa de vos livrardes de tantos males que vos são inevitáveis se
vivêsseis mais, o temor que vos causa a morte mostra-me que nenhuma
covardia é comparável à vossa. As Sagradas Escrituras, que são os mesmos
oráculos de Deus, as lições que temos recebido, desde nossos primeiros anos,
de nossos pais, seus exemplos, não nos ensinam que não é na vida, mas na
morte, que consiste nossa felicidade, pois que ela põe nossas almas em
liberdade e dá-lhes o meio de voltar àquela pátria celeste onde tiveram sua
origem?
Somente lá elas nada mais têm a temer, mas enquanto estiverem presas
no cárcere deste corpo, podemos dizer que os males que Ele lhes comunica,
torna-as mais mortas, que não vivas, pois não há proporção entre duas coisas,
das quais uma é toda divina e outra, mortal. É verdade que enquanto a alma
está no corpo, ela o faz mover-se invisivelmente e operar, por meio de ações que
estão acima da sua natureza, que a faz sempre inclinar-se para a terra; mas
apenas livre do peso, ela regressa ao seu ponto de origem, onde goza de uma
feliz liberdade e de uma força sempre incorruptível em si mesma, produz no
mesmo grandes mudanças. Assim, dá-lhes pleno vigor, que o anima; ele
enlanguesce e morre logo que ela o abandona, sem que ela deixe de ser imortal.
O sono é uma prova que basta para mostrar que a felicidade da alma está nela
mesma, pois não estando, então, preocupada com o corpo, ela goza de um
descanso mui agradável e tem mesmo conhecimento de várias coisas futuras,
pela sua comunicação com Deus. Por que então amando o sono como o
amamos, nós tememos a morte? E como, fazendo o caso que fazemos de uma
vida tão breve, poderíamos sem loucura invejar a felicidade de possuir uma que
é eterna? Devemos conhecer tão bem essas verdades que os outros aprendem
de nós a desprezar a morte. Se fosse necessário procurarmos exemplos entre as
nações estrangeiras, não vemos que entre os indianos os que fazem uma
profissão particular de sabedoria e que vivem mui virtuosamente levam a vida
com pesar, porque a consideram um fardo que a natureza os obriga a carregar e
de que têm pressa em se desfazer, pela separação do corpo, de suas almas?
Assim, embora gozem de plena saúde, o desejo de possuir uma imortalidade
bem-aventurada fá-los despedir-se das pessoas mais caras, para passar desta
vida a uma outra, sem que alguém lhes procure impedir. Todos, ao contrário,
julgam-nos felizes e estão tão persuadidos de que a morte não quebrará o liame
que os une, que eles lhes rogam dar suas notícias aos amigos que já passaram
ao outro mundo. Então esses homens generosos, para purificar suas almas e
separá-las do corpo, lançam-se no fogo, que eles mesmos fizeram preparar e
sua morte é seguida de louvores de todos aqueles que as presenciam. Seus
mais caros amigos os acompanham mais de boa mente nessa ação, que os
outros homens acompanham os seus, quando eles vão partir para uma viagem
demorada, e em vez de chorar, eles invejam-lhes a felicidade de ir gozar da
imortalidade e só derramam lágrimas para lamentar a si mesmos. Que
vergonha então para nós sermos inferiores em sabedoria aos indianos e
calcarmos aos pés, por nossa fraqueza, as leis de nossos antepassados, que
toda a terra venera. Mas, quando mesmo tivéssemos sido educados na crença
de que a vida é um grande bem e que a morte é um grande mal, o estado em
que nos encontramos reduzidos não nos obrigaria a no-la darmos
generosamente, pois que a vontade de Deus e a necessidade a isso nos
obrigam? Quem pode duvidar de que há muito tempo, Deus, para nos castigar,
por termos feito um uso tão mau da vida, não resolveu dela nos privar e que
assim, não é, nem às nossas forças, nem a clemência dos romanos que
devemos não termos morrido nessa guerra? Uma causa superior ao poder
desses conquistadores lhes deu sobre nós as vantagens que os fazem parecer
vitoriosos. Quando os judeus que moravam em Cesaréia e que não somente não
haviam tido o pensamento de se revoltar, foram mortos, com suas esposas e
filhos, sem se defender quando se ocupavam unicamente em celebrar o sábado,
foram talvez os romanos que os massacraram, tão cruelmente, eles, que nos
trataram como inimigos somente depois que tomamos as armas? Se dissermos
que os habitantes de Cesaréia foram obrigados a degolar os judeus, pelo antigo
ódio que lhes votavam, que diremos dos de Citópolis, que poupando aos
romanos, não temem fazer-nos guerra, para agradar aos gregos e assassinando
os nossos, com todas as suas famílias, assim nos recompensaram o auxílio que
lhes havíamos dado e nos fizeram sofrer o que nós mesmos havíamos impedido
que eles sofressem? Eu seria demasiado longo se quisesse referir todos os
exemplo semelhantes. Não sabeis que não há uma só cidade da Síria que nos
não tenha tratado do mesmo modo e que não nos odeie ainda mais do que os
romanos? Os de Damasco, sem poder alegar pretexto algum, não mataram
dezoito mil dos nossos, com suas mulheres e filhos e não se nos garante que
mais de sessenta mil foram de diferentes maneiras torturados no Egito? A isto,
se se responder que foi, porque eles não puderam num país estrangeiro
encontrar auxílio algum, contra seus perseguidores, que diremos dos nossos
que fizeram guerra aos romanos, no nosso próprio país? Que nos faltava para
esperarmos vencê-los? Não tínhamos armas, cidades mui fortificadas, castelos e
fortalezas, que pareciam inexpugnáveis, uma resolução decidida de não temer
perigo algum, para conservarmos nossa liberdade e enfim, tudo o que nos podia
pôr em condições de resistir? Mas, durante quanto tempo isso nos valeu?
Aquelas praças, nas quais depositávamos nossa principal confiança, não foram
todas elas tomadas e em vez de servir de refúgio seguro para aqueles que tanto
tinham trabalhado em construí-las e fortificá-las, não parece que o foram
apenas para tornar a vitória dos romanos ainda mais brilhante? Não devemos
então julgar felizes os que morreram com armas na mão combatendo
generosamente pela liberdade de sua pátria e não podemos, ao contrário,
lastimar bastante o grande número daqueles que são escravos dos romanos?
Quanto à morte, deveria parecer-lhes suave, para evitar, dando-a a si mesmos,
os horríveis males que eles sofrem? Uns morrem sob os golpes, outros, depois
de terem experimentado toda espécie de tormentos, terminam a vida no fogo,
outros, semidevorados pelas feras, são reservados para servir outra vez de
alimento a esses cruéis animais e os mais infelizes, de todos, são os que vivem
ainda, sem poder encontrar a morte que tão ardentemente desejam a cada
instante. Que foi feito daquela poderosa cidade, a soberba capital da nossa
nação, que tantos muros, tantas torres, tantas fortalezas pareciam tornar
inexpugnável, que mal podia conter todas as munições de guerra e de boca
necessárias para se sustentar um grande assédio, e que era defendida por uma
multidão incrível de homens, onde se pensava que Deus mesmo se dignava
habitar? Não foi ela destruída até os alicerces e não lhe restam somente ruínas,
sobre as quais os vencedores ergueram seus acampamentos? Que resta
também daquele grande povo? Apenas alguns míseros anciãos que regam com
suas lágrimas as cinzas do santo Templo, que era antigamente nossa principal
felicidade e nossa maior glória, e algumas mulheres, que os vencedores
reservam para fazê-las sofrer ultrajes mil vezes piores do que a mesma morte?
Quem poderia imaginando tão horríveis misérias querer ainda ver a luz do sol,
quando mesmo lhe fosse garantido poder viver sem nada mais ter a temer? Ou
melhor, quem pode ser tão inimigo de sua pátria e tão fraco em não considerar
como um grande mal e uma grande desgraça estar ainda vivo, e não invejar a
felicidade daqueles que morreram antes de ter visto essa santa cidade destruída
completamente e nosso sagrado Templo inteiramente destruído pelo fogo
sacrílego? Se a esperança de podermos, resistindo corajosamente, vingarmo-nos
de algum modo de nossos inimigos, nos sustentou até agora, neste instante, em
que essa esperança desvaneceu-se, que esperamos para correr ao encontro da
morte, todos, quando ainda está em nosso poder dá-la também às nossas
mulheres e filhos, pois seria a maior graça que nós lhes poderíamos fazer;
nascemos para morrer, é uma lei indispensável da natureza à qual os homens
mais robustos e felizes estão também sujeitos. Mas a natureza não nos obriga a
suportar os ultrajes e a servidão e a ver por vossa covardia, arrebatar às vossas
esposas a honra, e aos vossos filhos, a liberdade, quando está em nosso poder
tudo assegurar-lhes pela morte. Depois de ter tão generosamente tomado as
armas contra os romanos e desprezado as ofertas que eles nos fizeram, de nos
salvarmos, se quiséssemos nos submeter a eles, que tratamento devemos
esperar de seu ressentimento, se viermos a cair vivos em suas mãos? A força e
o vigor dos nossos mais robustos só serviriam para nos tornar mais capazes
ainda de sofrer por mais tempo os maiores tormentos; os que são mais idosos,
não seria menos de se lamentar porque teriam mais dificuldade em suportá-los;
nós veríamos levarem-se nossas esposas a uma infeliz escravidão e ouviríamos
nossos filhos, com cadeias aos pés, implorando em vão o nosso auxílio. Mas
enquanto temos ainda agora pleno e livre uso de nossos braços e de nossas
espadas, que nos impede, livrarmo-nos da escravidão? Morramos com as pesso-
as que nos são mais caras, antes que vivermos escravos. Elas no-lo pedem
nossas leis no-lo ordenam, Deus no-lo impõe, e os romanos nada temem mais
do que isso. Apressemo-nos então em fazê-los perder a esperança de triunfar
sobre nós e o espanto de apenas poder desencadear a sua raiva sobre cadáveres
force-os a admirar a nossa generosidade.",