Livro 5 – Capítulo V História Eclesiástica

De como Deus atendeu as orações dos nossos e fez chover do céu para o imperador Marco Aurélio

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1. E tradição que o irmão deste, Marco Aurélio César, estando em ordem de batalha frente aos

germânicos e aos sármatas, passava grande dificuldade por causa da sede que castigava seu

exército. Mas os soldados que serviam sob a assim chamada legião de Melitene343 - que por sua fé

subsiste desde então até hoje -, formados frente ao inimigo, puseram seus joelhos no chão,

segundo nosso familiar costume de orar, e dirigiram suas súplicas a Deus.

2. Tal espetáculo pareceu, na verdade, muito estranho aos inimigos, mas outro documento conta que

no mesmo instante foram surpreendidos por outro espetáculo ainda mais estranho: um furacão

punha em fuga e aniquilava os inimigos, enquanto que a chuva caía sobre o exército dos que

haviam invocado o socorro divino e o reanimava quando já estava todo ele a ponto de perecer

pela sede.

3. O relato conserva-se inclusive entre os escritores alheios a nossa doutrina que se preocuparam em

escrever sobre aqueles tempos. Também os nossos o dão a conhecer. No entanto, os historiadores

de fora, alheios a nossa fé, expõe o prodígio mas não confessam que este se realizou pelas orações

dos nossos; já os nossos, como amantes da verdade, transmitem o ocorrido com simplicidade e

sem malícia.

4. Destes poderia ser também Apolinário, que afirma que a legião autora do prodígio por sua

oração recebeu do imperador, a partir de então, um nome adequado ao sucedido, que em língua

latina se diz Fulmínea.

5. Testemunha destes fatos, digno de crédito, poderia também ser Tertuliano, que dirigiu ao senado

a Apologia latina em favor da fé, da qual fizemos menção mais acima344, e confirma o relato

com uma demonstração mais ampla e mais clara.

6. Escreve pois também ele e diz que até agora conservam-se cartas de Marco, o imperador mais

sábio, nas quais ele mesmo atesta que, estando seu exército a ponto de perecer na Germania e por

falta de água, salvou-se pelas orações dos cristãos. E segue dizendo Tertuliano que o imperador

ameaçou inclusive com a pena de morte aos que tentassem acusar-nos.

7. A tudo isso o mesmo autor junta o seguinte:

"Que tipo de leis são estas então, ímpias, injustas e cruéis, seguidas somente contra nós?

Vespasiano não as observou, apesar de ter vencido os judeus; Trajano teve-as em parte como

nada, ao impedir que se perseguissem os cristãos, e Adriano, apesar de ocupar-se com muita

curiosidade com muitas coisas, não as sancionou, como tampouco o que é chamado Pio." Mas

isto, que cada um o deixe onde quiser.

8. Nós, por nossa parte, voltemos ao fio do que se segue. Quando Potino, com seus noventa anos

cumpridos, morreu em companhia dos mártires da Gália, Irineu recebeu em sucessão o

episcopado da igreja de Lion, que Potino havia regido. Sabemos que ele, em sua juventude, foi

ouvinte de Policarpo.

342 Marco Aurélio.

343 Importante cidade da Capadócia, sede da XII legião. Não é estranho que tivesse em suas fileiras bom número de

cristãos, ainda que não fossem a maioria.

344 Vide II:2:4; 25:4; III:33:3. O Apologeticum. não foi dirigido ao senado, mas aos governadores.

9. No livro terceiro de sua obra Contra as heresias expõe a sucessão dos bispos de Roma até

Eleutério, de cuja época também investigamos os acontecimentos, e estabelece a lista como se,

de fato, sua obra fosse composta nos tempos deste; escreve como segue:

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