Livro 5 – Capítulo XVIII História Eclesiástica

Em que termos Apolônio refutou aos catafrigas e quem ele menciona

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1. Como a heresia chamada catafriga ainda estivesse florescendo por aqueles tempos na Frígia,

também Apolônio, escritor eclesiástico, empreendeu o trabalho de uma refutação. Compôs

contra eles um escrito próprio, no qual corrige, palavra por palavra, as falsas profecias alegadas

por eles e descreve como foi a vida dos líderes da heresia. Mas escuta isto que diz sobre

Montano, literalmente:

2. "Mas suas obras e seus ensinamentos mostram quem é este novo mestre. Este é o que ensinou o

rompimento de matrimônios374, o que impôs leis de jejuns, o que deu o nome de Jerusalém a

Pepuza e a Timio (cidades insignificantes da Frígia), porque queria reunir ali gente de todas as

partes, o que estabeleceu arrecadadores de dinheiro, o que inventava a aceitação de donativos sob o

nome de oferendas, o que assalariava os arautos de sua doutrina375, com a finalidade de que o

ensinamento de sua doutrina se afirmasse por meio da glutonaria."

3. Isto sobre Montano. Mas um pouco mais abaixo escreve também sobre suas profetisas como

segue:

"Demonstramos portanto que estas primeiras profetisas em pessoa são as que, desde o momento

em que ficaram cheias do espírito, abandonaram seus maridos. Como então tratavam de

enganar-nos chamando de virgem Priscila?"

4. Ainda segue dizendo:

"Não te parece que toda a Escritura proíbe que um profeta receba donativos e dinheiro? Portanto,

quando vejo que a profetisa recebeu ouro e prata e vestidos suntuosos, como posso não rechaçá-

la?"

5. E um pouco mais abaixo, outra vez diz sobre alguns de seus confessores o que segue:

"Mais ainda: também Temiso, que envolveu sua avidez com mantos de aceitabilidade e que não

suportou as insígnias da confissão376, mas que depôs as correntes em troca de muito dinheiro, quando

por tudo isto devia humilhar-se, fez-se de mártir e, compondo uma Carta católica, em imitação

ao Apóstolo, atreveu-se a catequizar aos que eram melhores crentes do que ele, a combater com

palavras vazias de sentido e a blasfemar contra o Senhor, os apóstolos e a santa Igreja."

6. E sobre outro, também dos que eles estimam como mártires, escreve assim:

"E para não falar demais, que nos diga a profetisa o que há de Alexandre, o que a si mesmo chama

de mártir, com o qual ela banqueteia e que muitos inclusive adoram. Não é preciso que citemos os

latrocínios e demais crimes seus pelos quais foi castigado: estão conservados no opistodomo377.

7. "Quem pois perdoa a quem de seus pecados? Qual dos dois: o profeta ao mártir por seus

latrocínios, ou o mártir ao profeta por sua avareza? Porque, tendo dito o Senhor: não possuireis

nem ouro nem prata nem duas túnicas378, estes pecaram fazendo tudo ao contrário no que tange à

posse destas coisas proibidas. Efetivamente, vamos demonstrar que os chamados entre eles de

profetas e mártires não somente caem sobre as posses dos ricos, mas também sobre as dos pobres,

dos órfãos e das viúvas.

8. E se estão seguros, que se apresentem aqui e se expliquem sobre estes pontos para que, no caso de

serem convencidos, deixem de continuar prevaricando. Efetivamente, há que se examinar os

frutos dos profetas,

9. "já que por seu fruto se conhece a árvore379. E para que todos que o desejem conheçam a história de

Alexandre, foi julgado por Emílio Frontino, procônsul de Éfeso380, não por causa do nome381, mas

pelos roubos que ousou cometer, porque já era um delinqüente. Logo, juntando mentira a mentira

em nome do Senhor, enganou os fiéis do lugar e foi posto em liberdade, e sua própria comunidade

374 Montano convocava a uma entrega total a obra do Espírito, ainda que às custas de romper com o cônjuge.

375 1 Co 9:14.

376 Ou seja, do martírio.

377 No templo grego era a câmara mais interna, tem aqui o sentido de arquivo.

378 Mt 10:9-10.

379 Mt 7:16; 12:33.

380 Desconhecido.

381 O nome de Cristo.

de origem não o recebeu, por ser ladrão; os que queiram saber sua história têm o arquivo público

da Ásia.

10. O profeta não o conhece, apesar de conviver com ele muitos anos. Nós, desmascarando-o, por

ele colocamos em evidência a natureza do profeta. Coisas semelhantes podemos demonstrar de

muitos; e se se atrevem, que suportem a prova".

11. E novamente, em outro lugar da obra, acrescenta o que segue, sobre os profetas de que se

jactam:

"Se porventura negam que seus profetas receberam presentes, que admitam isto: se for provado que

os receberam, não são profetas, e nós apresentaremos provas disto aos milhares. É preciso

comprovar todos os frutos do profeta. Um profeta, diga-me, tinge os cabelos? Um profeta pinta de

negro as sobrancelhas e pestanas? Um profeta é amigo de enfeites? Um profeta joga com

tabuleiros e dados? Um profeta empresta dinheiro a juros? Que confessem se é permitido ou não,

e eu demonstrarei que entre eles ocorreu."

12. Este mesmo Apolônio refere na mesma obra que, quando escrevia seu livro, haviam transcorrido

já quarenta anos desde que Montano empreendeu sua fingida profecia.

13. E diz ainda que, estando Maximila em Pepuza fingindo que profetizava, Zotico - que também

foi mencionado pelo escritor anterior - enfrentou-a tentando refutar o espírito que operava nela,

mas que foi impedido pelos que pensavam o mesmo que aquela mulher. Menciona também um

certo Traseas, um dos mártires de então.

14. Diz ainda, como proveniente de uma tradição, que o Salvador ordenou a seus discípulos que não se

afastassem de Jerusalém em doze anos; utiliza também testemunhos tirados do Apocalipse de João e

refere que o mesmo João ressuscitou um morto com o poder divino em Éfeso; e ainda diz outras

coisas mediante as quais corrigiu acertada e completamente o erro da citada heresia. Isto disse

Apolônio.

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