Livro 5 – Capítulo XVI História Eclesiástica

O que se menciona sobre Montano e os pseudoprofetas de sua companhia

IIIIIIIVVVIVIIVIIIIXXXIXIIXIIIXIVXVXVIXVIIXVIIIXIXXXXXIXXIIXXIIIXXIVXXVXXVIXXVIIXXVIII
← Anterior Próximo →

1. Contra a heresia chamada catafriga, o poder defensor da verdade levantou em Hierápolis uma

arma potente e invencível: Apolinário, a quem esta obra já mencionou mais acima360, e com ele

muitos outros homens doutos daquele tempo, dos quais foi-nos deixado abundante material para

historiar.

2. Ao começar pois, um dos mencionados seu escrito contra aqueles, assinala primeiramente que

também lutou contra eles com argumentos orais. Escreve no prólogo desta maneira:

3. Faz muito e bem longo tempo, querido Avircio Marcelo, que tu me ordenaste escrever algum

tratado contra a heresia dos chamados "de Milcíades", mas até agora de certa maneira sentia-me

indeciso, não por dificuldade em poder refutar a mentira e dar testemunho da verdade, mas por

temor de que, apesar de minhas precauções, parecesse a alguns que de certo modo acrescento ou

junto361 algo novo à doutrina do Novo Testamento, ao qual não pode juntar nem tirar nada quem

tenha decidido viver conforme este mesmo Evangelho.

4. Encontrando-me recentemente em Ankira da Galácia e compreendendo que a igreja local estava

aturdida por esta, não como dizem, nova profecia, mas mais propriamente, como se demonstrará,

pseudoprofecia, enquanto nos foi possível e com a ajuda do Senhor, durante vários dias,

discutimos intensamente sobre estes mesmos homens e sobre os pontos propostos por eles, tanto

que a igreja encheu-se de alegria e ficou robustecida na verdade, enquanto que os contrários eram

rechaçados na hora e os inimigos abatidos.

5. Em conseqüência, os presbíteros do lugar pediram que lhes deixássemos alguma nota do que

havia sido dito contra os que se opõe à doutrina da verdade, achando-se também presente nosso

co-presbítero362 Zotico, o de Otreno, mas nós não o fizemos; em troca, prometemos escrevê-lo

aqui, com a ajuda de Deus, e enviá-lo com toda a presteza."

6. Depois de expor no começo isto e em seguida alguma outra coisa, segue adiante e narra a causa

da mencionada heresia desta maneira:

"Agora bem, sua conduta e sua recente ruptura herética a respeito da Igreja tiveram como causa o

que segue.

7. "Diz-se que em Misia da Frígia existe uma aldeia chamada Ardaban. Ali foi, dizem, que um

recém-convertido à fé chamado Montano, pela primeira vez, em tempos de Grato, procônsul da

Ásia, saindo contra o inimigo com a paixão desmedida de sua alma ambiciosa de proeminência,

ficou a mercê do espírito e de repente entrou em arrebatamento convulsivo como se possesso e

em falso êxtase, e começou a falar e a proferir palavras estranhas, profetizando desde aquele

momento contra o costume recebido pela tradição e por sucessão desde a Igreja primitiva.

8. Dentre os que naquela ocasião escutaram estas expressões bastardas, uns, ofendidos com ele

como energúmeno, endemoninhado, embebido no espírito do erro e perturbador das multidões,

repreendiam-no e tentavam impedi-lo de falar, lembrando-se da explicação e advertência do

Senhor sobre estar em guarda e alerta com a aparição de falsos profetas363; os outros em troca,

como que excitados por um espírito santo e um carisma profético, e não menos inchados de

orgulho e esquecidos da explicação do Senhor, fascinados e extraviados pelo espírito insano,

sedutor e desencaminhador do povo, provocavam-no para que não permanecesse mais em

silêncio.

9. Com certa habilidade, ou melhor, com tais métodos fraudulentos, o diabo maquinou a perdição

dos desobedientes e, honrado por eles contra todo merecimento, excitou e inflamou ainda suas

mentes adormecidas, já distantes da fé verdadeira, e assim suscitou outras duas mulheres

quaisquer364 e encheu-as com seu espírito bastardo, de maneira que também elas começaram a

falar delirando, inoportunamente e de modo estranho, como o mencionado antes. O espírito

360 Vide IV:XXI; IV:XXVI: 1; IV:XXVII.

361 Gl 3:15.

362 É como os bispos se dirigiam aos presbíteros e às vezes a seus colegas de episcopado.

363 Mt 7:15.

364 Quer dizer, outras vítimas (do diabo), não outras duas mulheres.

proclamava bem-aventurados aos que se alegravam e vangloriavam nele e os enchia com a

grandeza de suas promessas; às vezes, no entanto, por motivos aceitáveis e verossímeis,

condenava-os publicamente a fim de parecer também ele capaz de argumentar; mas contudo,

poucos eram os frígios enganados. O orgulhoso espírito ensinava também a blasfemar contra a

Igreja católica inteira que se estende sob o céu, porque o espírito pseudoprofético não tinha

conseguido louvor nem entrada nela.

10. Efetivamente, os fiéis da Ásia haviam-se reunido para isto muitas vezes e em muitos lugares da

Ásia, e depois de examinar as recentes doutrinas, declararam-nas profanas e as rechaçaram

como heresia; desta maneira aqueles foram expulsos da Igreja e separados da comunhão."

11. É a isto que se refere no início; logo continua através de todo o livro a refutação do erro

montanista, e no segundo livro diz sobre o fim das pessoas citadas o que segue:

12. "Pois bem, posto que nos chamam mata-profetas365 porque não aceitamos seus profetas charlatães

← Voltar ao índice