1. Também por este tempo, Ródon357, oriundo da Ásia e discípulo em Roma, como ele mesmo conta,
de Taciano, a quem já conhecemos por relato anterior358, compôs diversos livros e alinhou-se
também com os outros contra a heresia de Márcion. Conta que em seu tempo esta encontrava-se
dividida em diversas correntes, descreve os causadores da ruptura e refuta com rigor as falsas
doutrinas imaginadas por cada um deles.
2. Ouve pois, o que escreve:
"Por isso discordam também entre si, porque reivindicam doutrinas inconsistentes. Efetivamente,
de seu rebanho é Apeles, venerado por sua conduta e por sua idade, que confessa sim um único
354 Tempos de Cômodo, ainda que se possa entender que sejam os de Panteno.
355 Não se conseguiu identificar estes mestres, exceto o último, que pode ser Panteno.
356 Vide IV:V1:4.
357 Sobre este só se sabe o que aqui diz Eusébio.
358 Vide IV:XVI:7; IV:XXIX.
princípio, mas diz que os profetas procedem do espírito contrário, e obedece aos preceitos de uma
virgem possuída pelo demônio chamada Filomena.
3. Outros ainda, assim como o próprio piloto (Márcion), introduziram dois princípios. De suas
fileiras vêm Potito e Basílico.
4. Também estes seguiram o lobo do Ponto, e não encontrando, como ele também não encontrou, a
divisão das coisas, deram meia volta para o lado fácil e proclamaram dois princípios,
arbitrariamente e sem demonstração. E outros, partindo por sua vez destes, chegaram ao pior e
já supõe não apenas duas, mas três naturezas; seu chefe e patrão é Sineros, segundo dizem os que
estão a cargo de sua escola."
5. Escreve também o mesmo autor que inclusive chegou a ocupar-se de Apeles; diz assim:
"Porque o velho Apeles, quando tratou conosco convenceu-se de que estava dizendo muitas coisas
equivocadamente, e a partir de então costumava repetir que não convinha examinar absolutamente
as razões, mas que cada um ficasse com sua própria crença; declarava mesmo que se salvavam
os que tinham posta sua esperança no Crucificado, contanto que apresentem boas obras. Mas,
como já dissemos, declarava que para ele, de todos, o assunto mais obscuro era o que se refere a
Deus. E dizia, assim como nossa doutrina, que há somente um princípio."
6. Logo, depois de expor toda a opinião deste, segue dizendo:
"Como eu lhe perguntasse: De onde tiras esta prova ou como podes tu dizer que há um princípio?
Explica-nos. Respondeu que as profecias se refutavam a si mesmas porque nada disseram de
inteiramente verdadeiro, já que discrepam, são enganosas e contradizem umas às outras. Quanto
a como há um só princípio, dizia que o ignorava, que assim, apenas isto, sentia-se movido.
7. Então eu o conjurei a que dissesse a verdade, e ele jurou que estava dizendo a verdade: que não
sabia como existe um só Deus incriado, mas que ele o cria. Eu então pus-me a rir e acusei-o de
dizer que é mestre e ainda assim não dominar o que ensina."
8. O mesmo autor, dirigindo-se a Calistion na mesma obra, confessa que ele mesmo foi discípulo
de Taciano em Roma e diz também que Taciano preparou um livro de Problemas; como Taciano
prometera mostrar através deles o obscuro e oculto das divinas Escrituras, o próprio Ródon
anuncia por sua vez que vai expor num livro especial as soluções dos problemas daquele.
Conserva-se também dele um Comentário sobre o Hexameron.
9. Apeles, no entanto, proferiu impiamente inúmeros ultrajes contra a lei de Moisés, blasfemando
contra as divinas palavras com seus numerosos escritos e pondo grande empenho, pelo menos
em aparência, em refutá-las e destruí-las.
Isto é, pois, o que há sobre eles.