1. Numa obra de algum destes, fruto do trabalho contra a heresia de Artemon - a mesma que em
nossos tempos Paulo de Samosata tentou renovar -conserva-se um relato que vem ao caso da
história que estamos examinando.
2. Deixando entendido que a mencionada heresia afirma que o Salvador não é mais do que um puro
homem, e que ela era de invenção recente, ainda que seus introdutores quisessem fazê-la valer
como se fosse antiga, o tratado, depois de citar muitos outros argumentos para refutar a mentira
blasfema destes, refere textualmente o que segue:
3. "Dizem mesmo que todos os primeiros, inclusive os próprios apóstolos, receberam e ensinaram
isto que agora eles estão dizendo, e que se conservou a verdade da pregação até os tempos de
Victor, que era o décimo terceiro bispo de Roma desde Pedro, mas que, a partir de seu sucessor,
Zeferino, falsificou-se a verdade.
4. O dito poderia ser convincente se em primeiro lugar as divinas Escrituras não o contradissessem.
E também há obras de alguns irmãos anteriores aos tempos de Victor, obras que eles
escreveram contra os pagãos e contra as heresias de então em defesa da verdade. Refiro-me às
de Justino, Milcíades, Taciano, Clemente e muitos outros, todas obras que atribuem a divindade
a Cristo.
5. Porque, quem desconhece os livros de Irineu, de Meliton e dos restantes, livros que proclamam a
Cristo Deus e homem? E os muitos salmos e cânticos escritos desde o princípio por irmãos crentes
que cantam hinos ao Verbo de Deus, ao Cristo, atribuindo-lhe a divindade?
6. Como pois, estando declarado o pensamento da Igreja desde há tantos anos pode-se admitir que
os anteriores a Victor o tenham proclamado no sentido que dizem estes? E como não se
envergonham de acusar Victor falsamente de tais coisas, sendo que com toda exatidão sabem
que Victor excluiu da comunhão Teodoto o curtidor, líder e pai desta apostasia negadora de
Deus, e primeiro a dizer que Cristo foi um simples homem? Porque se Victor tivesse pensado
da mesma maneira que ensina a blasfêmia destes, como poderia expulsar Teodoto, inventor
desta heresia?"
7. Estes são os fatos dos tempos de Victor. Tendo estado ele à frente do ministério por dez anos, é
instituído seu sucessor Zeferino, era o nono ano do império de Severo. O mesmo que compôs o
supracitado livro sobre o iniciador da mencionada heresia acrescenta também outro assunto
ocorrido em tempos de Zeferino e escreve nos seguintes termos:
8. "Vou pois, recordar ao menos para muitos de nossos irmãos, o fato ocorrido em nosso tempo,
que, por ter acontecido em Sodoma, creio que seguramente teria sido um aviso para aquela
gente. Era Natalio um confessor, não dos tempos antigos, mas de nosso próprio tempo.
9. Um dia este foi enganado por Asclepiodoto e por outro Teodoto, cambista. Estes dois eram
discípulos de Teodoto o curtidor, primeiro que por este pensamento, ou melhor, por esta
loucura, foi separado da comunhão por Victor, então bispo, como já disse.
10. Ambos persuadiram Natalio para que por um salário se chamasse bispo desta heresia, de
maneira que podia receber deles cento e cinqüenta denários.
11. Estando já com eles, o Senhor o avisou muitas vezes por meio de sonhos, já que nosso Deus
misericordioso e Senhor Jesus Cristo não queria que uma testemunha de seus próprios
padecimentos saísse da Igreja e perecesse.
12. Mas como não prestasse grande atenção às visões, enganado por aquele primeiro posto entre
eles e pela torpe ganância que a tantos perde, finalmente foi açoitado por anjos santos durante
toda a noite, pelo que ficou bastante maltratado, tanto que se levantou com a aurora, vestiu-se
com um saco, cobriu-se de cinza e com muita diligência e lágrimas correu até o bispo Zeferino,
e se atirava aos pés, não apenas do clero, mas também dos laicos. Com suas lágrimas comoveu
a Igreja compassiva de Cristo misericordioso e, depois de pedi-lo com reiteradas súplicas e de
haver mostrado as contusões que os golpes lhe fizeram, a duras penas foi admitido à
comunhão."
13. A isto juntaremos também outras expressões do mesmo escritor sobre os mesmos assuntos, que
soam assim:
"Adulteraram sem escrúpulo as divinas Escrituras e violaram a regra da fé primitiva; e
desconheceram a Cristo por não investigar o que dizem as divinas Escrituras, em vez de andar
trabalhosamente exercitando-se em encontrar uma figura de silogismo para legitimar seu ateísmo.
Porque, se alguém lhes apresenta uma sentença da Escritura divina, começam a discorrer que
figura de silogismo se pode fazer, se conexo ou disjuntivo.
14. Deixaram as Santas Escrituras de Deus e se ocupam de geometria, como quem é da terra; falam
por influência da terra e desconhecem o que vem de cima394. Pelo menos entre alguns deles
estuda-se com afã a geometria de Euclides e se admira Aristóteles e Teofrasto, porque Galeno
talvez seja até adorado por alguns.
15. Mas os que se aproveitaram das artes dos infiéis para o desígnio de sua própria heresia e com as
artes dos ímpios falsificaram a fé simples das divinas Escrituras, que necessidade há de dizer
que já não estão perto da fé? Por esta causa puseram suas mãos sem escrúpulo sobre as divinas
Escrituras, dizendo que as haviam corrigido395.
16. E quem quiser pode saber que digo isto sem caluniá-los, já que, se alguém quiser reunir as cópias
de cada um deles e compará-las entre si, notará que divergem muito. Pelo menos as de
Asclepíades396 destoarão das de Teodoto.
17. E podem-se adquirir muitas cópias, porque os discípulos transcreveram com grande zelo as que
foram, como dizem eles, corrigidas, isto é, corrompidas por cada um daqueles. Tampouco as de
Hermófilo concordam com estas; quanto às de Apoloníades397, nem sequer concordam entre si
mesmas, pois é possível discernir as que eles prepararam primeiro e as que logo depois foram
alteradas, e se vê que discordam muito.
18. Do atrevimento deste pecado, não é provável que eles o ignorem, porque, ou não crêem que as
divinas Escrituras foram ditadas pelo Espírito Santo, e nesse caso são incrédulos, ou então acham
que são mais sábios do que o Espírito Santo: e que outra coisa é isto se não estar possuído pelo
demônio? Porque não podem negar que o atrevimento é deles mesmos, já que as cópias estão
escritas por suas mãos e não receberam as Escrituras nesse estado daqueles que os instruíram,
nem poderão mostrar um exemplar de onde tenham copiado as suas.
19. Alguns deles nem sequer trataram de falsificá-las, mas depois de simplesmente negar a lei e os
profetas, com o pretexto de um ensinamento iníquo e ímpio, caíram da graça na extrema ruína da
perdição." E já basta deste tipo de relatos.
394 Ironia que joga com a palavra geometria e a passagem de Jo 3:31.
395 Tratava-se da crítica textual dos Setenta.
396 Possivelmente trata-se do mesmo acima chamado de Asclepiadoto.
397 Nem de Hermófilo nem de Apoloníades sabe-se mais do que o dito aqui e que foram discípulos de Teodoto o
curtidor.