Livro 6 Flávio Josefo
Capítulo 8 Flávio Josefo
,
"TITO MANDA DESTRUIR OS ALICERCES DA FORTALEZA ANTÔNIA EJOSEFO FALA AINDA,
POR SUA ORDEM, AFOÃO E AOS SEUS PROCURANDO INCITÁ-LOS A PEDIR A PAZ, MAS
INUTILMENTE. OUTROS DEIXAM-SE PERSUADIR POR SUAS PALAVRAS.",
"443. Tito mandou destruir os alicerces da fortaleza Antônia, para dar
uma entrada fácil a todo seu exército e tendo sabido, a dezessete de julho, que
o povo estava muito aflito por não ter podido celebrar a festa que tem o nome de
Endelechisma, isto é, quebramento das mesas, ordenou a Josefo que dissesse
uma segunda vez a João que se a louca paixão de resistir ainda subsistia, ele
podia sair com o número de soldados que quisesse, para um combate, sem se
obstinar mais em querer a ruína da cidade e do Templo; que ele devia estar
cansado de profanar um lugar tão santo, de ofender a Deus com tantos
sacrilégios e que lhe permitia escolher os de sua nação que ele quisesse, para
recomeçar a oferecer-lhe os sacrifícios, que tinham sido interrompidos.
Josefo, depois dessa ordem, julgou não dever falar somente a João, e para
ser ouvido por muitos, subiu a um lugar elevado de onde lhes comunicou o que
Tito lhe havia ordenado, e tudo fez para levá-los a ter compaixão de sua pátria,
de afastar tão grande desgraça, como ver incendiar-se o Templo, cujo fogo já
estava perto, e de pensar em dar a Deus a adoração que lhe era devida.
O povo, embora bastante impressionado com essas palavras, não ousou
abrir a boca para manifestar seu pesar, mas João respondeu com injúrias e
maldições. Depois acrescentou que jamais lhe aconteceria de temer a ruína de
uma cidade, que era de Deus. Josefo então retomou a palavra e disse com voz
ainda mais forte: O extremo cuidado que tendes de conservar a Deus essa
cidade, na sua pureza e de impedir a profanação das coisas santas, vos dá sem
dúvida um grande motivo de confiar em seu auxílio, a vós que não tendes medo
de cometer os mais horríveis atos de impiedade e de empregar para usos
profanos as vítimas reservadas para lhe serem oferecidas em sacrifícios. Se
alguém vos quisesse privar do alimento de que tendes necessidade, cada dia,
vós o consideraríeis um malvado e vosso inimigo mortal; depois que impedistes
que se prestasse a Deus o culto e a homenagem perpétua que lhe é devida,
ousais ainda persuadir-vos de que Ele vos há de ajudar, nesta guerra e atribuir
o horror que deve ter os vossos crimes, sobre os romanos que mantêm ainda
hoje a observância de nossas leis e que vos querem obrigar a restabelecer os
sacrifícios que interrompestes. Quem poderia sem ter o coração partido de dor
ver tão estranho e incrível transtorno? Estrangeiros, e estrangeiros que nos
fazem guerra, vos querem impedir de continuar a cometer atos de impiedade e
vós, ainda que judeus de nascimento, instruídos desde a infância em nossas
santas leis, não tendes vergonha de vos declarardes seu inimigo capital? Esse
último extremo, a que vossa pátria se encontra reduzida, não é capaz de vos
levar ao arrependimento, embora o exemplo de um de nossos reis possa ser
suficiente para a ele vos levar. Bem sabeis que, quando os babilônios entraram
na Judéia com tão grandes forças, Jeconias, que então reinava, saiu
voluntariamente de Jerusalém e lhe deu como reféns sua mãe e vários dos seus
parentes, a fim de impedir a ruína da cidade, a profanação das coisas santas e
o incêndio do Templo. Toda nossa nação reconheceu dever a ele, que tal não
acontecesse e por isso renova-se todos os anos a recordação desse fato, para
que ele passe de século a século, a fim de perpetuar o reconhecimento por tão
grande benefício! Embora estejais à beira do precipício, ainda vos podeis salvar,
pois asseguro que os romanos vos perdoarão, contanto que não vos obstineis
mais em vos tornardes indignos de todo perdão. E para que não possais
duvidar de minha palavra, considerai que é um judeu que a dá, por que motivo
ele a dá e da parte de quem a dá? Deus me livre de ser tão infeliz e tão covarde
de esquecer a minha origem e o amor que sou obrigado a ter pelas leis de meu
país. Mas, em vez de ficardes impressionados com tantas considerações,
começais um novo furor e continuais a me injuriar. Mas confesso que o mereço,
pois estou agindo contra a ordem de Deus, exortando-vos a pensar na salvação
àqueles que sua justiça condenou. Todos sabem o que os profetas predisseram,
que essa miserável cidade será destruída, quando virmos os que têm a graça de
terem nascido judeus, manchar as mãos com assassínios de seus próprios
irmãos? Esse tempo, talvez, ainda não chegou? Toda a cidade e também o
Templo ainda conservam os corpos daqueles que tão cruelmente massacrastes.
Podemos então duvidar de que Deus mesmo não se una aos romanos para fazer
expiar pelo fogo tanta abominação e tantos crimes? Josefo não pôde continuar
a falar, porque as lágrimas e os soluços embargaram-lhe a voz. Os romanos
tiveram compaixão de seu sofrimento e admiraram seu amor pela pátria. Mas
suas palavras somente conseguiram irritar ainda mais a João e aos seus e
aumentar o desejo que eles tinham de poder apanhá-lo.",