Livro 6 Flávio Josefo
Capítulo 42 Flávio Josefo
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"DEPOIS QUE OS ROMANOS ERGUERAM AQUELES CAVALETES, DERRUBARAM COM OS
ARÍETES UM PEDAÇO DO MURO E FIZERAM BRECHA EM ALGUMAS
TORRES; SIMÃO EJOÃO E OS OUTROS REVOLTOSOS SÃO TOMADOS DE TAL
TERROR QUE ABANDONAM, PARA FUGIR, AS TORRES DE HÍPICOS, DE FAZAEL
E DE MARIANA, QUE SÓ SERIAM TOMADAS PELA FOME, E ENTÃO OS
ROMANOS, TORNANDO-SE SENHORES DE TUDO, FAZEM UMA HORRÍVEL
MATANÇA E INCENDEIAM A CIDADE.",
"492. Dez dias depois que os cavaletes haviam sido iniciados, foram
acabados, a sete de setembro e os romanos colocaram suas máquinas sobre
eles.
Então, os revoltosos perderam toda esperança de poder por mais tempo
defender a cidade. Vários abandonaram os muros para se refugiar no monte
Acra ou nos esgotos, porém os mais corajosos atacaram os que faziam os
aríetes avançar. Os romanos não somente lhes eram superiores em número e
em força, mas sua prosperidade animava-lhes a coragem, ao passo que os
judeus estavam abatidos, sob o peso de tantos males. Os aríetes derribaram um
bom pedaço de muro e fizeram brecha em algumas torres; os que as defendiam,
fugiram; Simão e Judas foram tomados de tal horror, que imaginando o mal
muito maior que na verdade era, só pensaram em fugir, antes mesmo que os
romanos tivessem chegado até aquele muro. O horrível orgulho daqueles ímpios
converteu-se de repente em tal espanto que por mais malvados que eles fossem,
não se poderia deixar de sentir compaixão de tão estranha mudança. Queriam,
para se salvar, atacar os que defendiam o muro feito pelos romanos em redor
da cidade, mas vendo-se abandonados por aqueles mesmos que antes lhes
eram os mais fiéis, cada qual fugiu, como pôde; e como o medo perturba o juízo
e faz que se vejam coisas que não existem, uns vinham dizer-lhes que todo o
muro do lado do ocidente tinha sido derribado, outros, que os romanos já
haviam entrado, outros, que eles se tinham apoderado das torres. Tantos
boatos falsos aumentaram de tal modo o seu terror, que, atirando-se de rosto
por terra, eles recriminavam sua loucura e, como se tivessem sido feridos por
um raio, ficavam imóveis, sem saber que deliberação tomar.
493. Viu-se então claramente um efeito do poder de Deus e a boa sorte
dos romanos; pois a perturbação em que se encontravam aqueles tiranos, fez
que se privassem por si mesmos da maior vantagem que lhes restava,
abandonando as torres, onde nada tinham a temer, senão a fome. Assim, os
romanos que tanto tinham se esforçado para derribar os muros mais fracos
foram tão felizes, que se tornaram senhores, sem dificuldade, das três
admiráveis torres de Hípicos, de Fazael e de Mariana, de que falamos há pouco
e cuja resistência era tão extraordinária, que teriam atacado inutilmente, com
todas as suas máquinas. Depois que Simão e João as abandonaram, ou melhor,
que Deus os expulsou de lá, eles fugiram para o vale de Siloé, onde depois de
ter retomado ânimo e se terem recuperado um tanto de seu terror, atacaram o
novo muro, não, porém, com tanta força para dele se apoderar, porque o
cansaço, o medo e tantos males que suportaram, tinham diminuído muito suas
energias. Assim foram rechaçados e retiraram-se uns para um lado, uns para
outro.
Os romanos vendo-se então senhores dessas torres, hastearam suas
bandeiras, bem no alto delas, com grandes gritos de alegria, porque os últimos
esforços que haviam feito naquela guerra, os faziam desfrutar com mais prazer
a felicidade de a ter gloriosamente terminado. Mas tendo assim conquistado
sem resistência este último muro, eles não podiam imaginar que não restasse
ainda outro para vencer, e custavam crer no que viam com seus próprios olhos.
494. Os soldados, espalhados por toda a cidade, matavam sem distinção
os que encontravam e incendiavam todas as casas com as pessoas que lá
estavam escondidas. Os que nelas entravam, para saqueá-las, encontravam-
nas cheias de cadáveres de toda a família, que a fome havia feito perecer; o
horror de tal espetáculo os fazia sair de mãos vazias. Mas embora sentissem
alguma compaixão pelos mortos, não eram mais humanos com os vivos, pois
matavam a todos os que encontravam; o número dos corpos amontoados uns
sobre os outros era tão grande que entupia as ruas e o sangue em que nadavam
apagava o fogo em vários lugares. A matança terminava à noite, o incêndio,
porém, aumentava.
495. Foi a oito de setembro que Jerusalém, depois de ter sofrido tantos
males, por fim, desapareceu sob o violento incêndio. Durante o assédio, mil
sofrimentos a atormentaram, fazendo que sua felicidade e seu esplendor, que
desde a fundação haviam sido enormes, se eclipsassem, depois de a terem
tornado digna de inveja. Mas em tal conjuntura, depois de tantos males, essa
infeliz cidade não é digna de lástima, a não ser por ter agasalhado em seu seio
aquela multidão de víboras, que a devoraram e foram a causa de sua ruína.",