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Livro 6 Flávio Josefo

Capítulo 31 Flávio Josefo

1234567891011121314151617181920212223242526272829303132333435363738394041424344454647
,
"SINAIS E PREDIÇÕES DA DESGRAÇA QUE SOBREVEIO AOS JUDEUS, AOS QUAIS ELES NÃO
DERAM CRÉDITO.",
"476. Relatarei aqui alguns desses sinais e dessas predições.
Um cometa, que tinha a forma de uma espada, apareceu sobre Jerusalém,
durante um ano inteiro.
Antes de começar a guerra, o povo reunira-se, a oito de abril, para a festa
da Páscoa, e pelas nove horas da noite viu-se durante uma hora e meia em
redor do altar e do Templo, uma luz tão forte que se teria pensado que era dia.
Os ignorantes tiveram-na como um bom augúrio, mas os instruídos e sensatos,
conhecedores das coisas santas, consideraram-na como um presságio do que
depois sucedeu.
Durante essa mesma festa uma vaca que era levada para ser sacrificada
deu à luz um cordeiro no meio do Templo.
Pelas seis horas da tarde a porta do Templo que está do lado do oriente,
que é de bronze e tão pesada que vinte homens mal a podem empurrar, abriu-
se sozinha, embora estivesse fechada com enormes fechaduras, barras de ferro
e ferrolhos, que penetravam bem fundo no chão, feito de uma só pedra. Os
guardas do Templo avisaram imediatamente o magistrado do que acontecera e
lhe foi bem difícil tornar a fechá-la. Os ignorantes interpretaram-no ainda como
um bom sinal, dizendo que Deus abria em seu favor suas mãos liberais, para
cobri-los de toda sorte de bens. Porém, os mais sensatos julgaram o contrário,
isto é, que o Templo destruir-se-ia por si mesmo e que a abertura de sua porta
era presságio, o mais favorável, que os romanos pudessem desejar.
Um pouco depois da festa, a vinte e sete de maio aconteceu uma coisa que
eu temeria relatar, de medo que a tomassem por uma fábula, se pessoas que
também a viram, ainda não estivessem vivas e se as desgraças que se lhe
seguiram não tivessem confirmado a sua veracidade. Antes do nascer do sol
viram-sé no ar, em toda aquela região, carros cheios de homens armados,
atravessar as nuvens e espalharem-se pelas cidades, como para cercá-las.
No dia da festa de Pentecostes, os sacerdotes estando à noite, no Templo
interior, para o divino serviço, ouviram um ruído e logo em seguida uma voz
que repetiu várias vezes: Saiamos daqui!
Quatro anos antes do começo da guerra, quando Jerusalém gozava ainda
de profunda paz e de fartura, Jesus, filho de Anano, que era então um simples
camponês, tendo vindo à festa dos Tabemáculos, que se celebra todos os anos
no Templo, em honra de Deus, exclamou: Voz do lado do oriente, voz do lado
do ocidente, voz do lado dos quatro ventos, voz contra Jerusalém e contra o
Templo, voz contra os recém-casados e as recém-casadas, voz contra todo o
povo. Dia e noite ele corria por toda a cidade, repetindo a mesma coisa.
Algumas pessoas de condição, não podendo compreender essas palavras de tão
mau pressá-gio, mandaram prendê-lo e vergastá-lo; mas ele não disse uma só
palavra para se defender, nem para se queixar de tão severo castigo e repetia
sempre as mesmas coisas. Os magistrados, então, pensando, como era verdade,
que naquilo havia algo de divino, levaram-no a Albino, governador da Judéia.
Ele mandou açoitá-lo até verter sangue e nem assim conseguiram arrancar-lhe
um único rogo, nem uma só lágrima, mas a cada golpe que se lhe dava, ele
repetia com voz queixosa e dolorida: desgraça sobre Jerusalém. Quando
Albino lhe perguntou quem ele era, de onde era, o que o fazia falar daquela
maneira, ele nada respondeu. Assim despediu-o como um louco e não o viram
falar com ninguém, até que a guerra começou. Ele repetia somente e sem
cessar, as mesmas palavras: Desgraça, desgraça sobre Jerusalém, sem
injuriar nem ofender aos que o maltratavam, nem agradecer aos que lhe davam
de comer. Todas as suas palavras reduziam-se a tão triste presságio e as
proferia com uma voz mais forte nos dias de festa. Dessa forma continuou
durante sete anos e cinco meses, sem interrupção alguma, sem que sua voz se
enfraquecesse ou se tornasse rouca. Quando Jerusalém foi cercada viu-se o
efeito de suas predições. Fazendo então a volta às muralhas da cidade, ele se
pôs ainda a clamar: Desgraça, desgraça sobre a cidade, desgraça sobre o povo,
desgraça sobre o Templo. Tendo acrescentado desgraça sobre mim, uma
pedra atirada por uma máquina, derrubou-o por terra e ele expirou proferindo
ainda as mesmas palavras.
Se quisermos considerar tudo o que acabo de dizer, veremos que os
homens perecem somente por própria culpa, pois não há meios de que Deus
não se sirva para procurar-lhes a salvação e manifestar-lhes por diversos sinais
o que eles devem fazer. Assim, os judeus, depois da tomada da fortaleza
Antônia, reduziram o Templo a um quadrado embora não pudessem ignorar o
que está escrito nos livros sagrados, que a cidade e o Templo seriam destruídos
quando aquilo viesse a acontecer. Mas o que os levou principalmente a encetar
aquela infeliz guerra, foi a ambigüidade de outra passagem da mesma
Escritura, que dizia que se veria naquele tempo, um homem de seu país,
governar toda a terra. Eles o interpretavam em seu favor e vários até mesmo
dos mais hábeis enganaram-se. Pois aquele oráculo dizia que Vespasiano,
então, fora criado imperador, quando estava na Judéia. Mas eles explicavam
todas essas predições, segundo sua fantasia e só conheceram seus erros,
quando ficaram completamente convencidos da sua inteira ruína e destruição.",