Livro 6 Flávio Josefo
Capítulo 21 Flávio Josefo
,
"ESPANTOSA HISTÓRIA DE UMA MÃE QUE MATOU E COMEU EM JERUSALÉM SEU PRÓPRIO
FILHO. HORROR QUE COM ISSO TITO VEIO A SENTIR.",
"459. Uma mulher chamada Maria, filha de Eleazar, muito rica, tinha
vindo com algumas outras, à aldeia de Batechor, isto é, casa de hissope,
refugiar-se em Jerusalém, e lá se viu cercada. Aqueles tiranos, cuja crueldade
martirizava os habitantes, não se contentaram em lhe arrebatar tudo o que
tinha levado de mais precioso, tomaram-lhe ainda por diversas vezes o que ela
havia escondido para seu alimento. A dor de se ver tratada daquela maneira
lançou-a em tal desespero, que, depois de ter feito mil imprecações contra eles,
usou de palavras ofensivas, procurando irritá-los, a fim de que a matassem,
mas nem um só daqueles tigres, por vingança de tantas injúrias ou por
compaixão, lhe quis usar dessa graça. Ela se viu reduzida assim, às últimas,
não podia esperar socorro de ninguém; e a fome que a devorava, e ainda mais, o
fogo que a cólera tinha acendido no seu coração, inspiraram-lhe uma resolução
que causa horror à própria natureza. Ela arrancou o filho do próprio seio e
disse-lhe: Criança infeliz, da qual nunca se poderá chorar bastante a desgraça
de ter nascido durante esta guerra, durante a carestia e no meio de diversas
facções, que conspiram sem trégua, para a ruína de nossa pátria, para que te
haveria eu de conservar a vida? Para ser talvez escrava dos romanos, quando
mesmo eles nos quisessem ajudar? A fome nos teria feito morrer antes mesmo
de cairmos em suas mãos. E esses tiranos, que nos pisam a garganta, não são
eles ainda mais temíveis e cruéis que os romanos e a fome? Não é então
preferível que tu morras, para servir-me de alimento, para enraivecer esses
revoltosos e deixar atônita a posteridade, com uma ação tão trágica, que não
seria a única a faltar para encher a medida dos males que tornam hoje os
judeus o povo mais infeliz da terra? Depois de ter assim falado ela matou o
filho, cozeu-o, comeu uma parte e escondeu a outra. Aqueles ímpios, que só
viviam de rapina, entraram em seguida naquela casa; tendo sentido o cheiro
daquela iguaria inominável, ameaçaram matá-la, se ela não lhes mostrasse o
que tinha preparado para comer. Ela respondeu que ainda lhe restava um
pedaço da iguaria e mostrou-lhes restantes do corpo do próprio filho. Ainda que
tivessem um coração de bronze, tal espetáculo causou-lhes tanto horror, que
eles pareciam fora de si. Ela, porém, na exaltação que lhe causava o furor,
disse-lhes, com o rosto con-vulsionado: Sim, é meu próprio filho que vedes, e
fui eu mesma que o matei. Podeis comê-lo, também, pois eu já comi. Sois talvez
menos corajosos que uma mulher e tendes mais compaixão que uma mãe? Se
vossa piedade não vos permite aceitar essa vítima, que vos ofereço, eu mesma
acabarei de comê-lo. Aqueles homens que até então não haviam sabido o que
era a compaixão, retiraram-se trêmulos, e por maior que fosse a sua avidez em
procurar alimento, deixaram o restante daquela detestável iguaria à infeliz mãe.
A notícia de fato tão funesto espalhou-se incontinenti por toda a cidade. O
horror que todos sentiram foi o mesmo, como se cada qual tivesse cometido
aquele horrível crime; os mais torturados pela fome só desejavam morrer,
quanto antes, e julgavam felizes os que já haviam morrido, antes de ter tido
ciência deste fato ou ouvido narrar coisa tão execrável.
Os romanos também logo souberam de tudo, isto é, da criança sacrificada
por sua própria mãe, para que ela pudesse continuar a viver. Uns não podiam
crer no que se dizia; outros sentiam imensa compaixão, mas a maior parte viu
acender-se ainda mais o ódio que já sentiam contra os judeus. Tito, para se
justificar diante de Deus a esse respeito, protestou em voz alta que ele tinha
oferecido aos judeus uma anistia geral de todo o passado e visto que eles
tinham preferido a revolta à obediência, a guerra à paz, a carestia à abundância
e tinham sido os primeiros a incendiar com suas próprias mãos o Templo, que
ele tinha se esforçado por conservar, mereciam ser obrigados a se alimentar de
tão execrável iguaria. No entanto, ele sepultaria aquele horrível crime sob as
ruínas da sua capital, a fim de que o sol, fazendo a volta ao mundo, não fosse
obrigado a esconder seus raios, pelo horror, de iluminar uma cidade onde as
mães se nutriam de carne dos próprios filhos, onde os pais não eram menos
culpados que elas, pois tão estranhas misérias não os podiam decidir a
abandonar as armas. Estas as palavras do grande príncipe, porque,
considerando até que excesso ia a raiva daqueles revoltosos, ele não achava,
que depois de ter sofrido tantos males, dos quais apenas o temor deveria trazê-
los ao cumprimento do dever, nada poderia jamais fazê-los mudar.",