Livro 6 Flávio Josefo
Capítulo 34 Flávio Josefo
,
SIMÃO E JOÃO, REDUZIDOS AOS EXTREMOS, PEDEM PARA FALAR COM TITO. COMO ESSE
PRÍNCIPE LHES FALA.",
"480. Simão e João, os dois chefes dos revoltosos, que tinham exercido
sobre os de sua própria nação, tão horrível tirania, vendo-se sem esperanças de
poder fugir, porque estavam rodeados de todos os lados pelas tropas romanas,
pediram para falar com Tito e ele concedeu-lhes o que pediam, quer porque
sendo naturalmente afável, queria impedir a destruição da cidade, quer porque
seus amigos o haviam aconselhado, na esperança de que aqueles malvados
seriam mais sensatos para o futuro. Tito ficou de pé, fora do Templo, do lado do
ocidente, no lugar onde estavam as portas para a galeria e uma ponte que unia
a cidade alta com o Templo. A ponte estava entre Tito e os revoltosos, e havia de
um lado e de outro um grande número de soldados. Via-se no rosto dos judeus,
que estavam perto de Simão e de João, a agitação de espírito em que os punha
a dúvida de obter o perdão que pediam; os romanos tinham os olhos abertos
para ver de que modo Tito os receberia. O príncipe ordenou aos seus que
deixassem a cólera, proibiu-lhes atirar e, como sinal de sua vitória, começou a
falar aos sediciosos, por meio de um intérprete. Não estais cansados, disse-
lhes, de tantos males suportados por vossa pátria, vós, que sem considerar
nossas forças e vossa fraqueza, causais, por um furor cego e uma loucura sem
igual, a ruína de vosso povo, de vossa cidade, de vosso Templo, e que estais
prestes a perecer com eles? Depois que Pompeu tomou Jerusalém, não
deixastes de vos revoltar e chegastes por fim a declarar guerra aos mesmos
romanos. Em que vos fundastes para conceber tão ousado empreendimento?
Em vosso número? Mas uma pequena parte das tropas romanas seria capaz de
vos vencer. Num auxílio estrangeiro? Que nação não nos está sujeita e ousaria
tomar o vosso partido contra nós? Por que sois tão robustos? Os alemães nos
obedecem. Nas vossas muralhas? Os ingleses, embora cercados pelo oceano,
que é a mais poderosa de todas as defesas, puderam talvez conter o ímpeto de
nossas armas? Na vossa coragem, no procedimento e na perícia de vossos
chefes? Ignorais que nós vencemos dos cartagineses? Como não pode ter sido
nenhuma destas razões, que vos serviu de base, para vos empenhardes numa
empresa tão temerária; só se poderia atribuir vossa ousadia à enorme bondade
dos romanos. Nós vos demos terras para as cultivardes e nelas habitardes,
demo-vos reis de vossa mesma nação, não vos pusemos empecilhos na prática
de vossas leis, vos permitimos viver com toda liberdade não somente entre vós
mesmos, mas também com os outros povos; e o que é ainda muito mais
importante, não vos proibimos de recolher contribuições, para empregá-las no
serviço de Deus e de lhe oferecer sacrifícios em vosso Templo. Embora
cumulados de tantos benefícios vos insurgis contra nós, como se nós vos
tivéssemos deixado enriquecer, para vos darmos os meios de nos fazer guerra; e
mais malvados que as mais peçonhentas de todas as serpentes, espalhais vosso
veneno sobre aqueles, aos quais deveis tantos e tantos favores. Vosso desprezo
pela moleza de Nero vos fez esquecer a tranqüilidade de que gozáveis, para
conceberdes esperanças criminosas e formar desígnios extravagantes. No
entanto, quando meu pai veio à Judéia, ele não queria castigar-vos por vossa
revolta contra Céstio, mas somente trazer-vos ao arrependimento, pelas boas
maneiras. Se sua intenção tivesse sido destruir vossa nação, ele teria começado
por tomar e destruir esta cidade, ao passo que ele se contentou em fazer sentir
o poder de suas armas à Galiléia e às províncias vizinhas, a fim de vos dar a
oportunidade de vos arrependerdes. Mas sua bondade passou por fraqueza, em
vossa imaginação e só fez aumentar vossa ousadia. Depois da morte de Nero
vos tomastes ainda mais insolentes e atrevidos, na esperança do vos
aproveitardes das perturbações que avassalavam o império. Apenas havíamos
partido, eu e meu pai, para irmos ao Egito, tomastes a ocasião de nossa
ausência para vos preparardes para a guerra; e, por mais provas que vos
tivéssemos dado de nossa benevolência e de nossa humanidade, no governo
dessas províncias, não tivestes vergonha de nos querer desobedecer, quando
meu pai foi declarado imperador, e eu, César. Fostes ainda mais além: após um
consentimento geral, nós ficamos pacificamente de posse do império e nessa
calma feliz, todos os outros povos nos mandaram embaixadores para
demonstrar a sua alegria. Vós persististes em vos declarardes nossos inimigos,
mandastes, até o Eufrates, emissários para pedir auxílio à vossa revolta,
construístes novas fortificações e formastes novos partidos; vossos tiranos
chegaram mesmo a uma guerra civil, para ver quem ficaria chefe, e por fim,
nada esquecestes, do que os mais celerados de todos os homens poderiam
empreender e executar. Quando para abafar uma revolta unida a tanta
ingratidão e a tantos crimes, meu pai mandou-me sitiar esta cidade, com
ordens, que ele não podia, sem pesar, ver-se obrigado a me dar, eu vi, com
alegria, que o povo desejava a paz; e antes de iniciar a guerra vos exortei a
deixar as armas. Não podendo conseguir que o fizésseis, por muito tempo vos
poupei. Prometi segurança a todos os que viessem ter comigo e guardei-lhes
inviolavelmente minha palavra; perdoei a vários prisioneiros e castiguei
somente os que os incitavam à guerra; só em último caso me servi de minhas
máquinas. Moderei o ardor de meus soldados, para salvar a vida a muitos dos
vossos; em todas as minhas vitórias logo, em seguida, sempre vos exortei à paz,
agindo assim, embora vencedor, como se fosse eu o vencido. Quando me
aproximei do Templo, em vez de me servir do meu poder para destruí-lo,
segundo o direito da guerra, vos exortei a conservá-lo e o permiti que saíssem
com todas as garantias, para combatermos em outro lugar, se tínheis tanto
amor à guerra. Desprezastes todas estas graças, que vos fiz; vós mesmos
incendiastes o Templo e quereis agora parlamentar comigo, como se ainda
estivesse em vosso poder conservar o que vossa impiedade não teve receio de
destruir, e como se a ruína desse Templo não vos tornasse indignos de todo
perdão. Ousais mesmo em tal extremo e fingindo vir como suplicantes, vos
apresentardes diante de mim, com vossas armas. Em que, então, miseráveis
que sois, vos baseais para serdes tão ousados? A guerra, a fome e vossas
horríveis crueldades fizeram perecer todo vosso povo. O Templo não existe
mais, a cidade está em meu poder, vossa vida, nas minhas mãos, e imaginareis
depois de tudo isso, que depende de vós terminá-la com uma morte honrosa?
Não me demoro mais em confundir a vossa loucura. Deixai as armas, entregai-
vos à minha discrição; eu vos concedo a vida e reservo-me o restante, para fazer
como eu quiser, agindo como um bom senhor, que castiga com pesar e por
dever os crimes mais irremissíveis.",