Livro 6 Flávio Josefo
Capítulo 20 Flávio Josefo
,
"MALES HORRÍVEIS QUE A CARESTIA SEMPRE CRESCENTE CAUSA A JERUSALÉM.",
"458. Enquanto tudo isso se passava em redor do Templo, a fome e a
carestia faziam tal devastação na cidade que o número dos que ela destruía era
impossível de se conhecer. Quem poderia descrever a horrível miséria que ela
causava? Ante a menor suspeita de que ainda havia alguma coisa para se
comer numa casa, declarava-se guerra. Os melhores amigos tornavam-se
inimigos quando se procurava conservar a vida e se atracavam uns com os
outros para obter o mínimo bocado. Não se acreditava nem mesmo nos
moribundos, quando diziam que nada mais lhe restava, mas por uma
desumanidade mais que bárbara, eles eram revistados, para verificar se não
tinham escondido nas vestes algum pedaço de pão. Quando aqueles homens,
aos quais restava apenas a aparência de um ser humano, viam-se enganados,
sem esperança de encontrar algo com o que matar a fome, então mais se
assemelhavam a cães enraivecidos; a menor coisa que lhes vinha às mãos os
fazia bailar como homens embriagados. Não se contentavam de procurar uma
só vez em todos os recantos da casa, mas faziam-no diversas vezes e a fome
enraivecida os fazia apanhar para saciá-la aquilo que os animais imundos
calcariam aos pés. Comiam até mesmo a sola dos sapatos, o couro dos escudos;
um punhado de feno podre, era vendido por quatro moedas áticas. Para falar só
de coisas inanimadas, a fim de mostrar até que ponto chegou aquela espantosa
carestia, pois tenho uma prova única e sem precedentes; nem mesmo entre os
gregos, nem entre as outras nações mais bárbaras, viu-se coisa tão horrível;
dir-se-ia mesmo incrível, e eu não teria podido resolver-me a referi-la se não
tivesse várias testemunhas e se nos males que minha pátria sofreu fosse isso
apenas uma leve consolação, suprimir-lhe a memória.",