Livro 6 Flávio Josefo
Capítulo 4 Flávio Josefo
,
"PALAVRAS DE TITO AOS SOLDADOS PARA EXORTÁ-LOS A DAR O ASSALTO, PELA
DESTRUIÇÃO QUE A QUEDA DO MURO DA TORRE ANTÔNIA HAVIA CAUSADO.",
"438. Como Tito sabia o que as palavras e a esperança podem no ânimo
dos soldados para aumentar-lhes a coragem e as exortações unidas às
promessas são por vezes capazes de não somente fazê-los esquecer o perigo,
mas também desprezar a morte — reuniu os mais valorosos do exército e falou-
lhes deste modo: Meus companheiros, ser-nos-ia igualmente vergonhoso que
eu tivesse necessidade de vos exortar a uma ação cujo perigo não fosse muito
grande. Mas é uma coisa digna de mim e de vós, propor-vos um
empreendimento não menos arriscado que glorioso. Assim, não deve a
dificuldade que nele encontramos impedir-vos de tentá-lo, mas, ao contrário, é
o que vos deve animar ainda mais, pois que o verdadeiro valor consiste em
vencer os maiores obstáculos e a não temer expor-se à morte, para conquistar
uma reputação imortal, quando mesmo não considerásseis as recompensas que
esperam de mim os que se distinguirem num feito tão importante. Essa
invencível constância que os judeus demonstram no meio de tantos males, que
assustariam as almas dos covardes, não vos devem também animar? Que
vergonha, que soldados que em tempos de paz continuamente se ocupam em
exercícios de guerra e que nesta estão habituados a vencer sempre, viessem a
perder em coragem aos judeus, mesmo quando estamos a ponto de terminar
tão grande empresa e que parece visivelmente que Deus nos ajuda? Quem não
vê que nossos bons resultados são efeitos de nosso valor, favorecido pelo seu
auxílio e que, ao contrário, os que esses revoltosos tiveram em alguns
combates, só devem ser atribuídos ao seu desespero? Que pode melhor
demonstrar que Deus está conosco e contempla esse povo com cólera, do que
os males ordinários que devem sustentar, unidos ainda a um grande assédio, à
fome que os destrói, às suas facções que os dividem, e às suas muralhas que
caem por si mesmas, sem que sejam necessárias máquinas para nos abrir
passagem? Que infâmia para vós, mostrar menos coragem que aqueles sobre os
quais tendes tantas vantagens? Que ingratidão vossa para com Deus, se
desprezásseis o seu auxílio? Oh! Os judeus, que não devem ter vergonha de ser
vencidos, pois estão acostumados à servidão, não temem, para dela se libertar,
desprezar a morte e atacar-nos com tanta ousadia, não pela esperança de nos
poder vencer, mas por generosidade. Nós, que sujeitamos à nossa dominação
quase todas as terras e todos os mares e a quem não é menos vergonhoso não
vencer, do que aos outros ser vencidos, esperamos com um tão poderoso
exército, que a fome e a miséria acabem por destruir esses rebeldes, sem
ousarmos empreender uma ação gloriosa, embora nada haja que não possamos
empreender sem grave perigo? Só temos que tomar a fortaleza Antônia, para
ficarmos senhores do restante, pois que se depois de tê-la tomado
encontrarmos ainda resistência, o que não creio, seria ela tão pequena que não
mereceria ser considerada como tal, porque a vantagem que teríamos em
combater daquele lugar elevado, que domina a todos os demais, mal daria aos
inimigos a possibilidade de respirar, quando lhe tivéssemos assim o pé sobre a
garganta. Não vos falarei dos louvores que merecem aqueles que terminam seus
dias com as armas na mão, nos maiores perigos da guerra e que uma glória
imortal torna sempre vivos, mesmo depois da morte, na memória dos homens.
Mas vos direi somente que eu desejo que uma enfermidade, durante a paz, leve
os fracos e covardes, cujas almas e corpos descem juntos para o túmulo. Quem
não sabe que os que morrem combatendo com invencível coragem apenas são
libertados da prisão de seus corpos vão tomar assento no céu entre as estrelas,
de onde suas almas heróicas são para seus descendentes como espíritos bem-
aventurados, que os animam à virtude, pelo desejo de possuir um dia a mesma
glória? Ao contrário, as almas dos que morrem de doença numa cama, por
maiores tormentos que sofram num outro mundo para serem purificadas de
seus pecados, são sepultadas com seus nomes nas trevas perpétuas?
Se a morte é inevitável a todos os homens, se é sem dúvida mais doce
recebê-la por um golpe de espada que por uma enfermidade, que covardia pode
igualar, a de recusar à utilidade da pátria e ao aumento da sua grandeza, uma
vida que não podemos evitar de perder? Vede que vos falei até aqui, como se,
dando esse assalto, corrêssemos a uma morte inevitável. Mas não há perigos
que uma grande resolução não possa vencer. A queda desse primeiro muro já
nos abre caminho para a vitória; o segundo não será difícil de se derrubar,
contanto que ataqueis todos juntamente com o mesmo ardor, exortando-vos e
animando-vos reciprocamente. Vossa coragem deixará atônitos os inimigos e
talvez tenhamos êxito sem graves perdas, numa ação tão gloriosa, porque ainda
que os judeus se esforcem por repelir os primeiros que derem o assalto, ainda
não teremos obtido sobre eles a menor vantagem, que seu vigor diminuirá, aos
poucos, até que não nos poderão mais oferecer resistência. Comprometo-me a
recompensar de tal modo o mérito daquele que subir por primeiro à brecha,
quer ele esteja vivo, quer morto, depois de ter praticado tão belo feito; ele será
digno de inveja, pois que se sobreviver, comandará os que antes lhe eram iguais
e se essa brecha for o seu túmulo, não haverá honras que eu não preste à sua
memória.",