Livro 9 – Capítulo IX História Eclesiástica

Cópia da tradução da carta do tirano

IIIIIIIVVVIVIIVIIIIXXXI
← Anterior Próximo →

1. Assim pois, Constantino, que, como já dissemos anteriormente, é imperador filho de imperador e

varão piedoso, filho de um pai piedoso e prudentíssimo em tudo, foi levantado contra os ímpios

tiranos616 pelo Imperador supremo, o Deus do universo e Salvador. E quando determinou-se a

lutar segundo a lei da guerra, combatendo como aliado dele, Deus da maneira mais extra-

ordinária, Maxêncio caiu em Roma ao impacto de Constantino, enquanto o outro, sobrevivendo

muito pouco tempo no Oriente, sucumbiu nas mãos de Licínio, que então ainda não estava

transtornado.

2. Constantino foi o primeiro dos dois - primeiro também em honra e dignidade imperiais - que

mostrou moderação com os oprimidos pelos tiranos em Roma. Depois de invocar como aliado em

suas orações ao Deus do céu e a seu Verbo, e ainda ao próprio Salvador de todos, Jesus Cristo,

avançou com todo seu exército, tentando alcançar para os romanos sua liberdade ancestral.

3. Maxêncio, sabemos, confiava mais nos artifícios da magia do que na benevolência dos súditos, e

na verdade não se atrevia a dar um passo fora das portas da cidade, apesar de que, com a

multidão de hoplitas617 e com as inumeráveis companhias de legionários, cobria todo lugar, toda

região e toda cidade, todas as que tinha escravizadas, em torno de Roma e em toda a Itália. O

imperador, aferrado à aliança de Deus, ataca o primeiro, o segundo e o terceiro exército do tirano, e

depois de vencê-los a todos com facilidade, avança o mais que pode pela Itália até muito perto de

Roma.

4. Logo, para que não se visse forçado a lutar contra os romanos por causa do tirano, Deus mesmo

arrastou o tirano, como em cadeias, o mais longe das portas618. E o que já antigamente estava

escrito nos sagrados livros contra os ímpios, incrível para a maioria como se se tratasse de contos

de fábula, mas bem digno de fé por sua própria evidência, ao menos para os fiéis, para dizer pouco,

fez-se crível para todos quantos, fiéis e infiéis, viram o prodígio com seus próprios olhos.

5. Da mesma forma que, nos tempos de Moisés e da antiga piedosa nação dos hebreus, precipitou no

mar os carros do faraó e seu exército, a flor de seus cavaleiros e capitães; o mar Vermelho os

tragou, o mar os cobriu619, assim também Maxêncio e os hoplitas e lanceiros de sua escolta

afundaram na profundeza como uma pedra quando, dando as costas ao exército que vinha da

parte de Deus com Constantino, atravessava o rio que lhe cortava o caminho e que ele mesmo

havia unido e bem pontoneado com barcas, construindo assim uma máquina de destruição contra

si mesmo620.

6. Dele se poderia dizer: cavou um fosso e tirou-lhe a terra; e cairá na vala que fez. Seu trabalho se

voltará contra sua cabeça, e sua injustiça recairá sobre sua moleira621.

7. Assim pois, desfeita a ponte estendida sobre o rio, a passagem afunda e as barcas se precipitam

de um golpe no abismo com todos seus homens; e ele mesmo em primeiro, o homem mais ímpio,

e logo os escudeiros que o rodeavam afundaram como chumbo nas águas impetuosas622, como

já predisse o oráculo divino;

8. de forma que, se não com palavras, como é natural, mas pelo menos com as obras, os que com a

graça de Deus haviam se alçado à vitória, poderiam junto com os seguidores do grande servo

616 Maxêncio e Maximino.

617 Soldado de infantaria com armadura pesada.

618 Maxêncio foi obrigado a seguir junto com o exército.

619 Ex 15:4-5.

620 A ponte de barcas estava preparada como armadilha contra Constantino, mas rompeu-se antes do tempo.

Maxêncio morreu afogado no Tibre.

621 Sl 7:16-17 (7:15-16).

622 Ex 15:10.

Moisés623 entoar o mesmo hino que contra o ímpio tirano de então e dizer: Cantemos ao Senhor,

porque gloriosamente cobriu-se de glória. Cavalo e cavaleiro lançou ao mar. Minha ajuda e minha

proteção, o Senhor; se fez meu salvador624; e Quem como tu entre os deuses, Senhor? Quem como

tu, glorificado nos santos, admirável na glória, operador de maravilhas!625

9. Estas e muitas outras coisas parecidas com estas cantou Constantino com suas obras ao Deus

supremo, causa de sua vitória, e entrou em triunfo em Roma, enquanto todos em massa, com

suas crianças e suas mulheres, os senadores e altos dignitários, e todo o povo romano,

recebiam-no com os olhos brilhantes, de todo coração, como a um libertador, salvador e benfeitor,

em meio a vivas e a uma alegria insaciável.

10. Mas ele, que possuía a piedade para com Deus como algo inato, sem perturbar-se o mínimo com

as aclamações nem envaidecer-se com os louvores, muito consciente de que a ajuda provinha de

Deus, ordena imediatamente que na mão de sua própria estátua se coloque o troféu da paixão

salvadora, e ao ver que lha erigiam no lugar mais público de Roma sustentando em sua mão direita

o signo salvador, ordena-lhes que gravem esta inscrição em língua latina com suas próprias

palavras:

11. "Com este símbolo salvador, que é a verdadeira prova do valor, salvei e livrei vossa cidade do

jugo do tirano; mais ainda, livrei-a e a restituí ao senado e ao povo romanos em seu antigo

renome e esplendor."

12. E depois disto, o próprio Constantino, e com ele Licínio - que então ainda não havia voltado seu

pensamento para a loucura em que viria a dar mais tarde -, depois de aplacar a Deus, causa para

eles de todos os bens, ambos juntos, por acordo e decisão comum, redigem uma lei perfeitíssima

no mais pleno sentido em favor dos cristãos, e enviam uma relação dos portentos que Deus lhes

havia feito - a vitória contra o tirano - e a própria lei a Maximino, que ainda imperava sobre os

povos do Oriente e lhes fingia amizade.

13. Mas ele, tirano como era, afligiu-se muito ao saber destas coisas, e logo, não querendo aparentar

que cedia ante os outros nem tampouco que suprimia o ordenado, por temor aos que o haviam

ordenado, vê-se na necessidade de escrever em favor dos cristãos aos governadores seus súditos,

como se o fizesse por seu próprio e absoluto poder, esta primeira carta em que falsamente finge

sobre si coisas que jamais havia realizado.

IX-a

1. "Jovio Maximino Augusto, a Sabino: Estou persuadido de que, tanto para tua firmeza quanto

para todos os homens, é evidente que nossos senhores e pais, Diocleciano e Maximiano, quando

se deram conta de que quase todos os homens, abandonando o culto dos deuses, haviam se

misturado com a raça dos cristãos, agiram corretamente ao ordenar que todos os que haviam

deserdado do culto de seus próprios deuses imortais fossem novamente chamados ao culto dos

deuses mediante correção e castigo exemplar.

2. Mas quando eu cheguei pela primeira vez ao Oriente sob bons auspícios e me inteirei de que em

alguns lugares os juízes haviam desterrado pela causa acima assinalada numerosíssimas pessoas

que podiam ser úteis ao Estado, dei ordens a cada um dos juízes para que daí em diante nenhum

deles se comportasse duramente com os habitantes das províncias, mas que, com carinho e

exortações, tentassem chamá-los novamente ao culto dos deuses.

3. Em conseqüência, por então, enquanto os juízes, conforme minhas ordens, guardavam o que

estava ordenado, nas partes do Oriente ninguém era desterrado nem ultrajado; ao contrário,

ocorria mais que, por nada de grave se fazer contra eles, retornavam ao culto dos deuses.

4. E logo, quando no ano passado entrei felizmente em Nicomedia e lá residi, apresentaram-se a

mim cidadãos da mesma cidade com as estátuas de seus deuses pedindo-me encarecidamente que

de nenhuma maneira permitisse que semelhante raça habitasse em sua pátria.

623 Ex 14:31.

624 Ex 15:1-2.

625 Ex 1511.

5. Mesmo assim, quando fui informado de que numerosíssimos homens da mesma religião

habitavam aquelas regiões, dei-lhes como resposta que lhes agradecia prazerosamente sua

petição, mas que advertia que este pedido não provinha de todos. Por conseguinte, se havia

alguns que perseveravam na mesma superstição, que cada um decidisse segundo sua preferência

pessoal, e se quisessem, que reconhecessem o culto dos deuses.

6. Mas, aos habitantes da própria Nicomedia e às demais cidades que tão solicitamente me tinham

feito também idêntica petição, ou seja, que nenhum cristão habitasse em suas cidades, tive que

responder-lhes forçosamente em termos amistosos, já que assim fizeram mesmo os antigos

imperadores, e devido aos próprios deuses - pelos quais se mantém todos os homens e a própria

administração do Estado - que eu confirmava essa importante petição que apresentavam em favor

do culto de sua divindade.

7. Por conseguinte, ainda que anteriormente tenhamos escrito a tua devoção e que te haja sido

igualmente ordenado em instruções não comportar-te duramente com os provincianos que se

empenhavam em guardar semelhante costume, mas tratá-los com paciência e moderação, mas, para

que não tenham que agüentar insultos nem violências pelas mãos dos beneficiários626 ou de

quaisquer outros, julguei oportuno sugerir a tua gravidade com esta carta que, valendo-te de

agrados e exortações, faças com que nossas províncias reconheçam o culto aos deuses.

8. Daí que, se alguém por sua vontade admitir que se deve reconhecer o culto dos deuses, a estes

convém receber. Mas se alguns desejam seguir seu próprio culto, poderias ir deixando-os em sua

liberdade.

9. Por esta razão, tua devoção deve guardar escrupulosamente o que te foi confiado, e que a ninguém se

dê a possibilidade de excitar nossos provincianos com injúrias e violências, pois, como acima está

escrito, mais convém atrair novamente nossos provincianos ao culto dos deuses com exortações e

agrados. E para que este nosso mandato chegue ao conhecimento de todos nossos provincianos,

deverás tornar público o mandato mediante uma ordem que tu proporás."

10. Como ele havia tomado estas disposições forçado pela necessidade e não por sua própria

convicção, ninguém o tomou por verdadeiro e digno de fé, devido a seu pensar inconstante e

mentiroso, já anteriormente manifestado numa concessão semelhante.

11. Em conseqüência, nenhum dos nossos se atrevia a convocar uma reunião nem a apresentar-se

em público, já que o edito não o autorizava; somente ordenava não nos insultar, mas não animava

a que se fizessem reuniões, que se construíssem igrejas e que se praticasse qualquer ato dos

costumeiros entre nós.

12. E mesmo assim os defensores da paz e da piedade lhe haviam escrito que o permitisse, e eles o

haviam concedido por meio de editos e leis a todos seus súditos. Na verdade aquele monstro de

impiedade preferia não ceder neste terreno, até que, por fim, acossado pela justiça divina, muito a

contragosto, viu-se forçado a fazê-lo.

← Voltar ao índice