Livro 9 – Capítulo VIII História Eclesiástica

Dos acontecimentos que seguiram entre fome, peste e guerras

IIIIIIIVVVIVIIVIIIIXXXI
← Anterior Próximo →

1. Por conseguinte, os aguaceiros costumeiros e as chuvas contínuas retiveram seu habitual tributo à

terra, mesmo sendo a estação invernal, e uma fome inesperada fez sua aparição, ao que se juntou

a peste e o ataque de alguma outra enfermidade: uma úlcera que, por causa de sua inflamação,

chamava-se significativamente carbúnculo614, ocorrendo por todo o corpo, causava sérios perigos

aos pacientes, e não só isso, mas atacando na maior parte dos casos particularmente os olhos,

deixava cegos inúmeros homens, mulheres e crianças.

2. Por cima disto tudo sobreveio ao tirano a guerra contra os armênios, amigos antigos e aliados dos

romanos. Como também eles eram cristãos e cultivavam com diligência a piedade para com a

divindade, o inimigo de Deus tratou de obrigá-los a sacrificar aos ídolos e demônios, e de

amigos tornou-os inimigos, e de aliados, adversários.

3. O fato de que tudo isto afluísse de um golpe e a um mesmo tempo serviu para refutar a jactância

do ousado tirano contra Deus, já que, efetivamente, vinha se vangloriando de que, por causa de

seu zelo pelos ídolos e de sua obsessão contra nós, nem a fome, nem a peste, nem sequer a guerra

tinham lugar em seus dias. Estas calamidades pois, sobrevindo juntas e ao mesmo tempo,

constituíram também o prelúdio de sua queda.

612 Mt 24:24.

613 Os encarregados de sua publicação.

614 O nome técnico atual é Antraz.

4. Assim, ele mesmo se ocupava junto com suas tropas na guerra contra os armênios, enquanto a

fome e a peste juntas deixavam terrivelmente exaustos os demais habitantes das cidades sujeitas a

ele, tanto que por uma medida de trigo dava-se em troca dois mil e quinhentos dracmas áticos.

5. Em conseqüência eram milhares os que morriam nas cidades, ainda que mais numerosos do que

estes fossem os que morriam nos campos e nas aldeias, até o ponto de que os antigos censos,

abundantes em camponeses, por pouco não foram completamente apagados quando morreram

quase todos de uma vez por falta de alimento e pela pestilenta enfermidade.

6. Assim pois, alguns julgaram bom vender seus mais apreciados bens aos mais ricos por umas

migalhas de alimento; outros, vendendo pouco a pouco suas posses, haviam chegado à mais

extrema penúria, e houve ainda alguns que, tendo mastigado fiapos de ervas ou comido por

descuido certas plantas mortíferas, arruinaram o estado físico de seu corpo e pereceram.

7. E algumas mulheres nobres das cidades, empurradas pela indigência ao mais vergonhoso mister,

saíam pelas praças públicas a mendigar, e somente no rubor de seu rosto e na decência de sua

vestimenta deixavam entrever a prova de sua antiga criação nobre.

8. E outros, já secos, como fantasmas cadavéricos, lutando com a morte e resvalando aqui e acolá,

terminavam caindo, impotentes para manter-se em pé. Estendidos de boca para baixo no meio das

praças, imploravam que se lhes estendesse um pedacinho de pão, e com a alma já nos últimos

sopros, gritavam que estavam famintos, sem ter mais forças do que para este único e doloroso

grito.

9. Outros, por outro lado, os que pareciam ser dos mais acomodados, estupefatos ante a multidão

de pedintes, depois de terem repartido inumeráveis esmolas, passaram a se encerrar numa atitude

dura e insensível, esperando ainda não padecer também eles o mesmo que os pedintes. De fato, em

meio às praças e às vielas ofereciam já à vista o mais lamentável espetáculo os cadáveres

desnudos que jaziam insepultos desde muitos dias.

10. Alguns até já eram repasto para os cães, e por esta causa, sobretudo, os vivos começaram a

matar cães, temerosos de que tivessem raiva e se dedicassem a devorar homens.

11. Mas a própria peste causava maiores estragos em todas as casas, sobretudo naquelas em que a

fome não era capaz de exterminá-los porque abundavam em provisões. Assim, os opulentos:

magistrados, governadores e muitíssimos funcionários, deixados pela fome como de propósito para a

peste, padeceram uma morte cruel e rapidíssima. Tudo, em conseqüência, estava cheio de

gemidos e por todas as vielas, praças e avenidas não se podia contemplar outra coisa que as

lamentações com seu costumeiro acompanhamento de flautas e ruído de golpes615.

12. Desta maneira, lutando ao mesmo tempo com as armas acima, a peste e a fome, a morte devorou

em pouco tempo famílias inteiras, ao ponto de ser possível ver num só enterro levarem-se os

corpos de dois ou três mortos.

13. Tais calamidades eram o pagamento pela grande jactância de Maximino e pelas petições das

cidades contra nós, sendo assim que a todos os pagãos se manifestava a prova do zelo e da

piedade dos cristãos em tudo.

14. Eles eram, efetivamente, os únicos que nesta circunstância calamitosa demonstravam com suas

próprias obras a compaixão e o amor aos homens. Uns perseveravam todo o dia no cuidado e no

enterro dos mortos (pois eram milhares os que não tinham quem se ocupasse deles), e outros,

reunindo num mesmo lugar a multidão dos que em toda a cidade estavam esgotados

pela fome, repartiam pão para todos, de forma que o fato correu de boca em boca e todos os

homens glorificavam o Deus dos cristãos, e convencidos pelas próprias obras, confessavam que

estes eram os únicos verdadeiramente piedosos e temerosos a Deus.

15. Depois de cumprido isto como foi dito, Deus, o maior e celestial defensor dos cristãos, depois de

ter mostrado pelos meios mencionados sua ira e seu desagrado contra todos os homens,

novamente nos devolveu, em resposta aos excessos que eles haviam mostrado contra nós, o raio

propício e esplendoroso de sua providência para conosco. Como numa escuridão profunda, fez

com que do modo mais maravilhoso nos iluminasse a luz da paz, que dele procede, e a todos

615 Sons musicais ruidosos eram usados para afastar os maus espíritos que acompanhavam a morte; este uso durou

pelo menos até o final da Idade Média.

deixou manifesto que Deus mesmo foi e segue sendo o supervisor de nossos interesses, o que

açoita seu povo e que, valendo-se das circunstâncias segundo a ocasião, converte-o novamente, e

por fim, o que depois de uma boa lição se mostra propício e piedoso para os que n'Ele esperam.

← Voltar ao índice