Livro 9 – Capítulo XI História Eclesiástica

Assim varridos os ímpios, Constantino e Licínio guardaram para si sós a parte correspondente do Império, segura e indiscutível. Estes, depois de eliminar do mundo antes de mais nada a inimizade contra Deus, conscientes dos bens que Deus lhes havia outorgado, demonstraram seu amor à virtude, seu amor a Deus, sua piedade e gratidão para com a divindade por meio de sua legislação em favor dos cristãos.

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1. Morto desta maneira Maximino, único sobrevivente dos inimigos da religião e que manifestou ser o

pior de todos, as igrejas surgiam, pela graça de Deus Todo-poderoso, reconstruídas desde os

fundamentos, e a doutrina de Cristo, rutilante para a glória do Deus do universo, alcançava uma

liberdade confiante, maior do que a de antes, enquanto os ímpios inimigos da religião se

cumulavam de vergonha e desonra extremas.

2. Efetivamente, o próprio Maximino foi o primeiro a quem os imperadores proclamaram inimigo

comum de todos, e por meio de editos públicos, para conhecimento geral, foi denunciado como

tirano ímpio, abominável e inimigo de Deus. Das pinturas que em cada cidade foram dedicadas a

sua honra e de seus filhos, umas foram lançadas do alto contra o solo e desfizeram-se em pedaços;

outras tiveram seus rostos enegrecidos com cores sombrias e ficaram inservíveis. Assim também

as estátuas, todas as que foram erigidas em sua honra: também foram derrubadas e feitas em

pedaços, ficando expostas aos riso e à burla dos que queriam insultá-las e enfurecer-se com elas.

3. E logo também os restantes inimigos da religião foram sendo despojados de todas as honras, e

inclusive matavam-se todos os partidários de Maximino, especialmente os que, tendo sido honrados

por ele com as honras do governo, para adulá-lo haviam-se atirado com violência contra nossa

632 Esta expressão, que já encontramos aplicada a Herodes (vide I:8:5), indica alguma enfermidade grave e mesmo

mortal.

doutrina.

4. Assim era Peucetio, para todos o mais honrado por ele, o mais respeitado e de maior confiança

entre seus companheiros, a quem ele havia nomeado cônsul duas e três vezes, e prefeito de todas

as contas. Assim também Culciano, que havia ascendido por todos os graus do governo e que

também se gloriava de inúmeras matanças de cristãos no Egito633. E além destes havia muitos

outros, por meio dos quais se havia firmado e aumentado a tirania de Maximino.

5. Deve-se saber que também Teotecno era procurado pela justiça, que não esquecia o que ele havia

levado a cabo contra os cristãos. Efetivamente, porque havia erigido um ídolo em Antioquia pensava

que seus dias seriam felizes, e realmente até Maximino o havia considerado digno de um cargo de

governo.

6. Mas quando Licínio entrou na cidade de Antioquia e empreendeu a busca dos charlatães, fez

atormentar profetas e sacerdotes do recém-erigido ídolo, tratando de averiguar por que razão

haviam fingido a fraude. Como apertados pelos tormentos não lhes era possível seguir ocultando-

o, declararam que todo o mistério era uma fraude urdida pelo engenho de Teotecno. Então

impôs a todos o castigo que haviam merecido e entregou à morte primeiro o próprio Teotecno, e

logo também seus cúmplices no engodo, depois de numerosos suplícios.

7. A todos estes vieram juntar-se inclusive os filhos de Maximino, aos quais já tinha feito sócios da

dignidade imperial e da dedicatória em retratos e em pinturas. E os que anteriormente se

jactavam de parentesco com o tirano e estavam prestes a subjugar todos os homens, sofreram as

mesmas penas que os supracitados, junto com a desonra extrema, já que não haviam aceitado a lição

nem conheciam nem compreendiam a exortação que nas Sagradas Escrituras vai repetindo:

8. Não confieis em príncipes nem nos filhos dos homens, em que não há salvação. Sai-lhes o

espírito, e eles tornam ao pó. Nesse mesmo dia perecem todos os seus desígnios.

633 Cláudio Culciano, prefeito do Egito, foi quem condenou Fileas e Filoromo (vide VIII:IX:7-X:6).

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