1. Esta foi a causa que o obrigou. Maximino era incapaz de levar o peso do governo supremo que
lhe haviam confiado sem merecê-lo; devido a sua falta de reflexão sensata e própria de um
imperador, manejava os assuntos públicos com total imperícia e, sobretudo, erguia-se
irrefletidamente em sua alma com orgulhosa jactância inclusive contra seus próprios colegas
imperiais, que em tudo o superavam, tanto em linhagem quanto em educação, instrução,
dignidade, inteligência e - o que é mais importante - em sábia prudência e em piedade para com o
verdadeiro Deus. Começou com a ousadia de atrever-se e de proclamar-se a si mesmo
publicamente o primeiro nas honras627.
2. Levando à loucura seu insano orgulho, quebrou todos os pactos que havia feito com Licínio e
empreendeu uma guerra sem quartel. Logo, em pouco tempo, alvoroçando tudo e perturbando
626 Soldados liberados de funções mais pesadas que exerciam o policiamento e o acompanhamento de oficiais
superiores.
627 Por direito de antigüidade, ainda que apenas como césar, correspondia-lhe a dignidade de primeiro augusto.
profundamente cada cidade, reuniu toda a força armada, uma multidão de incontáveis miríades, e
partiu para a luta em ordem de batalha contra ele e com a alma exaltada pelas esperanças postas
nos demônios, que ele acreditava serem deuses, e nas miríades de soldados armados.
3. Mas, ao chegar às mãos, encontrou-se desprovido da proteção de Deus, por outorgar-se ao que
então mandava628 a vitória que procede do mesmo e único Deus de todas as coisas.
4. Em primeiro lugar perde o corpo de hoplitas em que depositava sua confiança, enquanto os
lanceiros de sua escolta pessoal o abandonam indefeso e privado de tudo, e passam para o
vencedor. O desgraçado, despindo-se a toda pressa do ornato imperial, que de modo algum lhe
cabia, desliza entre a multidão covardemente, como um canalha e sem ânimo viril. Depois foge, e
escondendo-se com dificuldade das mãos de seus inimigos pelos campos e aldeias, vai vagando
de uma parte a outra buscando sua salvação e mostrando bem às claras, com os próprios fatos, a
fidelidade e verdade dos divinos oráculos onde se diz:
5. Não se salva o rei por seu numeroso exército nem o gigante será salvo pela abundância de sua
força. Inútil é o cavalo para salvar-se, e ninguém se salvará por sua grande potência. Vede os
olhos do Senhor postos sobre os que o temem, os que esperam em sua misericórdia, para
arrancar suas almas da morte629.
6. Foi assim que o tirano chegou coberto de vergonha a seu próprio território, e ali, enfurecido,
começou por fazer executar muitos sacerdotes e profetas dos deuses que ele antes admirava e
cujos oráculos o haviam incitado a empreender a guerra, acusando-os de impostores, de
charlatães, e sobretudo de haverem-se convertido em traidores de sua salvação. Logo630 deu glória
ao Deus dos cristãos, e depois de haver disposto uma lei perfeitíssima e completíssima em favor da
liberdade dos mesmos, acabou imediatamente sua vida com uma morte penosa e sem que lhe
fosse dado um prazo de tempo. A lei que ele havia enviado era do seguinte teor:
CÓPIA DA TRADUÇÃO DA ORDEM DO TIRANO EM FAVOR DOS CRISTÃOS, TRADUZIDA DA LÍNGUA LATINA À
GREGA.
7. "O imperador César Caio Valério Maximino Germânico Sarmático Augusto Pio Félix Invicto: Que
nós velamos continuamente e de todas as maneiras pelo proveito de nossos provincianos e que
nossa vontade é proporcionar-lhes o que mais faça prosperar as vantagens de todos e o que seja de
proveito e utilidade comuns, assim como o que se presta à utilidade pública e resulta
agradável ao parecer de cada um, cremos que ninguém o ignora, antes, cremos que cada um se atém
aos próprios fatos e é consciente de sua evidência.
8. Assim pois, quando antes ficou patente a nosso conhecimento que, sob o pretexto de que os
divinos Diocleciano e Maximiano, nossos pais, tinham mandado abolir as assembléias dos
cristãos, os officiales631 haviam causado muitos prejuízos e espoliações, e que em seguida isto
havia se estendido como dano a nossos provincianos (por cujo cuidado nos estamos debatendo),
ficando destruídas as propriedades de particulares, no ano passado dirigimos cartas aos
governadores de cada província e legislamos o seguinte: que se alguém quiser seguir semelhante
costume ou a própria observância da religião, que não tivesse impedimento a seu propósito e
que ninguém lhe pusesse estorvos nem o proibisse, e que todos tivessem facilidade para fazer sem
temor nem suspeita o que a cada um agradasse.
9. Somente que agora não se pôde mais ocultar-nos que alguns juízes vinham descuidando de nossos
comandos, expunham nossos homens à dúvida sobre as ordens e faziam com que se aproximassem
com maior vacilação às próprias práticas religiosas que eram de seu agrado.
10. Por conseguinte, para eliminar logo toda suspeita e ambigüidade causadoras de temor,
determinamos que se promulgue esta ordem, com o fim de que a todos seja manifesto que, por
este nosso presente, àqueles que quiserem tomar parte em semelhante seita ou religião é lícito
628 Licínio.
629 Sl 32(33): 16-19.
630 Maximino publicou este edito antes de ver-se totalmente perdido em Tarso, provavelmente com a intenção de
ganhar o apoio dos cristãos contra Licínio.
631 Maximino trata de lançar a culpa sobre os oficiais ou funcionários superiores.
aproximar-se, da maneira que cada um queira, ou como mais goste, a aquela religião que tenha
escolhido praticar habitualmente. E também fica-lhes permitido construir suas próprias igrejas.
11. Mas, para que seja maior o nosso presente, julgamos digno legislar também o seguinte: que se
algumas casas e campos, anteriormente propriedade por direito dos cristãos, tiverem vindo a cair
em posse legal do fisco por ordem dos nossos, ou se alguma cidade deles tiver se apropriado,
seja por leilão ou porque foi obsequiado a alguém, tudo isto ordenamos que seja restituído ao
antigo direito de propriedade dos cristãos, com o fim de que, inclusive nisto, todos percebam
nossa piedade e nossa providência."
12. Estas são as palavras do tirano, que chegaram com quase um ano de atraso sobre os editos que ele
mesmo havia feito afixar em esteias contra os cristãos. E aos que até pouco antes sucumbiam ante
seus próprios olhos a ferro e fogo e como pasto das feras e aves de rapina, e sofriam todo tipo de
castigo, de suplício e de morte do modo mais miserável, como se se tratasse de ateus e ímpios, a
estes o mesmo declarava agora observantes da religião e lhes permitia construir igrejas. E até o
tirano em pessoa confessa que têm parte em certos direitos!
13. E quando havia realizado tais confissões, padecendo sem dúvida menos do que merecia padecer,
como se por causa delas tivesse alcançado certo favor, ferido repentinamente pelo flagelo de
Deus632, sucumbe na segunda refrega da guerra.
14. Mas não teve a morte que acontece aos generais supremos da guerra que, batendo-se
varonilmente repetidas vezes pela virtude e por seus amigos, sofreram com valentia um fim
glorioso na batalha; este, bem ao contrário, como ímpio e hostil a Deus, recebeu o castigo
merecido quando se achava em casa e andava se ocultando enquanto seu exército seguia ainda na
planície combatendo por ele. Ferido repentinamente em todo seu corpo pelo flagelo de Deus,
caiu de bruços como empurrado por atrozes sofrimentos e vivíssimas dores. Devorado pela
fome e com suas carnes consumidas por um fogo invisível e de origem divina, toda a aparência
de sua antiga forma desapareceu como que aniquilada e ficou unicamente nos puros ossos, como
um espectro há muito tempo reduzido a esqueleto; assim que os que o rodeavam não podiam
senão pensar que o corpo se lhe havia convertido em sepulcro da alma, enterrada já num cadáver
em completa decomposição. 15. Mas ao abrasar-lhe muito mais terrivelmente o fogo desde o fundo
da medula, os olhos lhe saltaram, e caindo de suas órbitas deixaram-no cego. Ele, ainda
respirando, apesar disto, confessava o Senhor e chamava a morte. E depois de confessar que
padecia isto com toda justiça por causa de seu excesso demencial contra Cristo, entregou sua
alma.