Livro 1 – Capítulo VIII História Eclesiástica

Do infanticídio cometido por Herodes e o final catastrófico de sua vida

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1. Nascido Cristo em Belém de Judá, conforme as profecias61 no tempo mencionado, Herodes, ante a

pergunta dos magos vindos do Oriente que queriam saber onde se achava o nascido rei dos judeus

- porque tinham visto sua estrela, e o motivo de sua viagem tão longa era seu empenho em

adorar como Deus ao recém-nascido -, bastante perturbado pelo assunto, como se estivesse em

perigo sua soberania - ao menos era o que ele realmente pensava -, depois de informar-se com os

doutores da lei dentre o povo onde esperavam que haveria de nascer o Cristo, assim que soube

que a profecia de Miquéias indicava Belém, ordenou mediante um edito matar os meninos de peito

56 Espécie de procurador, talvez não apenas militar mas também administrativo.

57 Jdt 5:5;14:10 (livro não pertencente ao cânone hebraico).

58 Rt 1:16-22; 2:2; 4:19-22.

59 Ex 12:38; Dt 23:8.

60 Nm 36:8-9.

61 Mq 5:l (5:2); Mt 2:5-6.

de Belém e redondezas, de dois anos para baixo, segundo o tempo exato indicado pelos magos,

pensando que também Jesus, como era natural, teria certamente a mesma sorte que os outros

meninos de sua idade.

2. Mas o menino, levado para o Egito, adiantou-se ao plano: um anjo apareceu a seus pais indicando-

lhes de antemão o que iria acontecer. Isto é o que nos ensina a Sagrada Escritura do Evangelho62.

3. Mas, além disso, é conveniente dar uma olhada na resposta pelo atrevimento de Herodes contra

Cristo e os meninos de sua idade. Imediatamente depois, sem a menor demora, a justiça divina o

perseguiu quando ainda transbordava de vida e lhe mostrou o prelúdio do que o aguardava para

depois de sua saída desta vida.

4. Não é possível resumir agora as sucessivas calamidades domésticas com que se enevoou a

suposta prosperidade de seu reino: os assassinatos de sua mulher, de seus filhos e de outras

pessoas muito próximas a sua família por parentesco e por amizade. O que se pode supor a

respeito disso deixa à sombra qualquer representação trágica. Josefo o explica extensamente em

seus relatos históricos.

5. Mas sobre como um flagelo divino o arrebatou e ele começou a morrer já desde o momento em

que conspirou contra nosso Salvador e contra os demais meninos, será bom escutar as palavras do

próprio escritor, que no livro XVII de suas Antigüidades judaicas descreveu o final catastrófico

da vida de Herodes como segue:

"A doença de Herodes fazia-se mais e mais virulenta. Deus vingava seus crimes.

6. Com efeito, era um fogo suave que não denunciava ao tato dos que o apalpavam um abrasamento

como o que por dentro aumentava sua destruição; e logo uma vontade terrível de comer algo, sem

que nada lhe servisse, ulcerações e dores atrozes nos intestinos, e sobretudo no ventre, com inchaço

úmido e reluzente nos pés.

7. Em torno do baixo-ventre tinha uma infecção parecida; mais ainda, suas partes pudendas

estavam podres e criavam vermes. Sua respiração era de uma rigidez aguda e extremamente

desagradável pela carga de supuração e por sua forte asma; em todos os membros sofria

espasmos de uma força insuportável.

8. O certo é que os adivinhos e os que têm sabedoria para predizer estas coisas diziam que Deus

estava fazendo-se pagar pelas muitas impiedades do rei." Isto é o que o autor citado anota na

mencionada obra.

9. E no livro segundo de seus relatos históricos nos dá uma tradição parecida acerca do mesmo

assunto, escrevendo assim:

"Então a enfermidade se apoderou de todo o seu corpo e foi destroçando-o com variados

sofrimentos. A febre na verdade era fraca, mas era insuportável a comichão em toda a superfície do

corpo, as dores contínuas do ventre, os edemas dos pés, como de um hidrópico, a inflamação do

baixo-ventre e a podridão verminosa de suas partes pudendas, ao que se deve acrescentar a asma,

a dispnéia e espasmos em todos seus membros, ao ponto de os adivinhos dizerem que estes

sofrimentos eram um castigo.

10. Mas ele, mesmo lutando com tais padecimentos, ainda se aferrava à vida, e

esperando salvar-se imaginava curas. Atravessou o Jordão e utilizou as águas termais de Calirroe.

Estas vão desaguar no mar do Asfalto63, e como são doces são também potáveis.

11. Ali os médicos decidiram aquecer com azeite quente todo seu purulento corpo em uma banheira

cheia de azeite; desmaiou e revirou os olhos, como se estivesse acabado. Armou-se grande

alvoroço entre os criados, e com o ruído voltou a si. Renunciando desde então à cura, mandou

distribuir a cada soldado 50 dracmas e muito dinheiro aos chefes e a seus amigos.

12. Regressou então e chegou a Jericó, já vítima da melancolia e ameaçado pela morte. Pôs-se a

tramar uma ação criminosa. De fato, fez reunir os notáveis de cada aldeia de toda a Judéia e

mandou encerrá-los no chamado hipódromo.

13. Chamando depois sua irmã Salomé e seu marido Alexandre, disse: Sei que os judeus festejarão

minha morte, mas posso ainda ser pranteado por outros e ter uns funerais esplêndidos se vocês

62 Mt 2:1-7; 16:13-15.

63 O Mar Morto.

atenderem minhas ordens. Assim que eu expirar, fazei com que cada um dos homens aqui

detidos seja imediatamente cercado por soldados e fazei com que os matem, para que a Judéia

inteira e cada casa, ainda que à força, chore por mim."

14. E um pouco mais adiante diz:

"Depois, torturado também pela falta de alimento e por uma tosse espasmódica e abatido pelas

dores, tramava antecipar a hora fatal. Pegou uma maçã e pediu uma faca, pois tinha o costume de

cortá-la para comê-la. Depois, olhando em volta por medo de que houvesse alguém para impedi-

lo, levantou sua mão direita com a intenção de ferir-se."

15. Além destes detalhes, o mesmo escritor refere que, antes de morrer de todo, mandou que

matassem outro de seus filhos legítimos, terceiro que somou aos outros dois já assassinados

anteriormente64, e no mesmo momento, de repente e entre enormes dores, expirou65.

16. Assim foi o final de Herodes, justo e merecido pelo infanticídio perpetrado em Belém por atentar

contra nosso Salvador. Depois disto, um anjo se apresentou em sonhos a José, que vivia no

Egito, e ordenou-lhe partir com o menino e sua mãe para a Judéia, explicando-lhe que estavam

mortos os que buscavam a morte do menino, ao que acrescenta o evangelista: Porém, ouvindo que

Arquelau reinava no lugar de seu pai Herodes, temeu ir para lá, mas avisado em sonhos, retirou-

se para a região da Galiléia66.

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