Livro 1 – Capítulo VI História Eclesiástica

De como, segundo as profecias, em seus dias terminaram os reis por linha hereditária que regiam a nação judia e começou a reinar Herodes, o primeiro estrangeiro

IIIIIIIVVVIVIIVIIIIXXXIXIIXIII
← Anterior Próximo →

1. Foi nesse tempo que assumiu o reinado sobre o povo judeu, pela primeira j vez, Herodes, de

família estrangeira, e cumpriu-se a profecia feita por meio de Moisés, que dizia: Não faltará

chefe saído de Judá nem governante nascido de sua carne até que chegue aquele para quem está

reservado46, e sinaliza-o como esperança das nações.

2. Esta predição efetivamente não havia sido cumprida durante o tempo em que ainda lhes era

permitido viver sob governantes de sua própria nação, começando com o próprio Moisés e

continuando até o império de Augusto. Nos tempos deste é que pela primeira vez um estrangeiro,

Herodes, se vê investido pelos romanos com o governo dos judeus: segundo nos informa Josefo,

era idumeu por parte de pai e árabe por parte de mãe. Mas, segundo Africanus - que não era mau

historiador —, os que dão informação exata sobre Herodes dizem que Antípatro (este era seu

43 Mq 5:1 (5:2).

44 Lc 2:2.

45 At 5:37.

46 Gn 49:10.

pai) era filho de um certo Herodes de Ascalon, um dos chamados hieródulos47, que servia no

templo de Apolo.

3. Este Antípatro, ainda criança, foi raptado por bandidos idumeus e viveu com eles, porque seu

pai, pobre como era, não podia oferecer resgate por ele. Criado em meio a seus costumes, mais

tarde firmou amizade com Hircano, sumo sacerdote judeu. Dele nasceu o Herodes dos tempos de

nosso Salvador...

4. Tendo pois o reino judeu vindo às mãos de tal pessoa, a expectativa das nações, conforme a

profecia, estava também à porta; haviam desaparecido do reino os príncipes e mandatários

descendentes por via de sucessão entre si do próprio Moisés.

5. Ao menos tinham reinado antes do cativeiro e da migração para a Babilônia, começando com Saul

- o primeiro - e por Davi. E antes dos reis, foram governados por mandatários chamados juízes,

que tinham começado também depois de Moisés e de seu sucessor, Josué.

6. Pouco depois do regresso da Babilônia serviram-se ininterruptamente de um regime político de

oligarquia aristocrática (eram os sacerdotes que estavam à frente dos assuntos), até que o

general romano Pompeu atacou Jerusalém, assaltou-a à força e profanou os lugares santos

entrando até a parte mais escondida do templo. E àquele que até esse momento havia se mantido

por sucessão hereditária, na qualidade de rei e de sumo sacerdote - chamava-se Aristóbulo -

mandou acorrentado a Roma, junto com seus filhos, e entregou o sumo sacerdócio a seu irmão

Hircano. A partir daquele momento o povo judeu inteiro tornou-se tributário dos romanos.

7. Desta forma, assim que Hircano, último a quem chegou a sucessão dos sumos sacerdotes, foi

levado cativo pelos partos, o senado romano e o imperador Augusto colocaram a nação judia nas

mãos de Herodes, o primeiro estrangeiro, como já foi dito.

8. Em seu tempo ocorreu visivelmente a vinda de Cristo e, segundo a profecia, seguiu-se a esperada

salvação e vocação dos gentios. A partir desse tempo, efetivamente, os príncipes e mandatários

originários de Judá, quero dizer, os que vinham do povo judeu, desapareceram, e em seguida

naturalmente viram perturbados também os assuntos do sumo sacerdócio, que até então vinha

sendo passado de modo estável de pais a filhos em cada geração.

9. Encontramos importante testemunho de tudo isso em Josefo, que explica como Herodes, assim

que os romanos lhe confiaram o reino, deixou de instituir sumos sacerdotes vindos da antiga

linhagem, pelo contrário, distribuiu esta honra entre gente sem expressão. E diz ainda que na

instituição dos sacerdotes Herodes foi imitado por seu filho Arquelau e depois dele pelos

romanos, quando tomaram para si o governo dos judeus.

10. O mesmo Josefo explica como Herodes foi o primeiro a fechar sob seu próprio selo as

vestimentas sagradas do sumo sacerdote, não permitindo mais aos sumos sacerdotes levá-las

sobre si, e que o mesmo foi feito por seu sucessor Arquelau, e depois deste pelos romanos.

11. Tudo o que foi dito sirva também como prova do cumprimento de outra profecia referente à

manifestação de Jesus Cristo nosso Salvador. No livro de Daniel48, a Escritura determina clara e

expressamente um número de semanas até o Cristo-príncipe - acerca do que fiz uma exposição

detalhada em outra obras - e profetiza que, depois de cumpridas estas semanas, seria extinta por

completo a unção entre os judeus. Agora, pois, demonstra-se claramente que também isto se

cumpriu com o nascimento de nosso Salvador Jesus Cristo. Sirva o dito como exposição

necessária para a verdade das datas.

← Voltar ao índice