Livro 1 – Capítulo II História Eclesiástica

Resumo da doutrina sobre a preexistência de Nosso Salvador e Senhor, o Cristo de Deus, e da atribuição da divindade

IIIIIIIVVVIVIIVIIIIXXXIXIIXIII
← Anterior Próximo →

1. Sendo a índole de Cristo dupla: uma, semelhante à cabeça do corpo, e por esta o reconhecemos

como Deus, e outra, comparável aos pés, mediante a qual, e para nossa salvação ele se revestiu de

homem, sujeito ao mesmo que nós, nossa exposição a seguir será perfeita se iniciarmos o discurso

1 1 Tm, 6:20.

2 At 20:29.

de toda sua história partindo dos pontos principais e dominantes. Deste modo, a antigüidade e o

caráter divino dos cristãos ficará patente aos olhos de todos que pensam que [o cristianismo] é algo

novo, estranho, de ontem e não de antes.

2. Nenhum tratado poderia bastar para explicar em pormenores a própria substância e natureza de

Cristo, por isso o Espírito divino diz: Sua linhagem, quem a narrará?3; pois na verdade

ninguém conheceu o Pai senão o Filho, e ninguém conheceu alguma vez ao Filho, segundo sua

dignidade, se não o próprio Pai que o engendrou.4

3. E quem, a não ser o Pai, poderia conceber sem impureza a luz que é anterior ao mundo e a

sabedoria inteligente e substancial que precedeu aos séculos,5 o Verbo vivente no Pai e que desde o

princípio é Deus, o primeiro e único que Deus engendrou antes de toda a criação e de toda a

produção de seres visíveis e invisíveis, o general do exército espiritual e imortal do céu, o anjo do

grande conselho, o servidor do pensamento inefável do Pai, o fazedor de todas a coisas junto ao

Pai, a causa segunda de tudo depois do Pai, o Filho de Deus, genuíno e único, o Senhor, o Deus e

Rei de todos os seres, que recebeu do Pai a autoridade soberana e a força, junto com a divindade,

o poder e a honra? Porque, em verdade, segundo o que dizem d'Ele os misteriosos ensinamentos

das Escrituras: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus, e o Verbo era Deus. Todas

as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada foi feito.6

4. E isto mesmo que ensina o grande Moisés, como o mais antigo dos profetas, ao descrever, sob a

inspiração do espírito divino, a criação e a ordenação do universo: o criador e fazedor do

universo cedeu a Cristo e apenas a Cristo, seu divino e primogênito Verbo, o fazer os seres

inferiores; e com Ele o vemos conversando acerca da formação do homem; Disse também Deus:

Façamos o homem à nossa imagem e à nossa semelhança?7

5. Fiador desta sentença é outro profeta, ao falar assim de Deus em certa passagem de seus hinos:

Pois ele falou, e foi feito; ele ordenou, e foi criado.8 Introduz aqui o Pai e criador dispondo com

gesto régio, na qualidade de soberano absoluto, e o Verbo divino, não outro que o mesmo que

nos foi anunciado, como segundo depois d'Ele e ministro executor das ordens paternas.

6. A este já desde o alvorecer da humanidade, todos quantos nos foi dito que sobressaíram por sua

retitude e sua religiosidade: os companheiros do grande servidor Moisés, e antes dele Abraão, o

primeiro, assim como seus filhos e todos que se mostraram justos e profetas, ao contemplá-lo

com os olhos límpidos de sua inteligência, o reconheceram e renderam-lhe o culto devido como

o Filho de Deus.

7. E Ele mesmo, sem desviar em nada de sua piedade para com o Pai, tornou-se para todos o mestre

do conhecimento do Pai. E assim lemos que o Senhor Deus foi visto por Abraão, que estava sentado

no carvalhal de Manré, sob a forma de um homem comum.9 Abraão se prostra de pronto e, ainda

que o olhe com seus olhos de homem, ainda assim o adora como Deus, suplica-lhe como Senhor

e confessa saber de quem se tratava, ao dizer textualmente: Senhor, tu que julgas toda a terra,

não vais fazer justiça?10

8. Porque, se nenhuma razão pode admitir que a substância não criada e imutável de Deus todo-

poderoso se transforme na forma de homem, nem que com a aparência de homem criado engane

os olhos dos que o vêem, nem que a Escritura forje enganosamente tais coisas, um Deus e Senhor

que julga toda a terra e faz justiça, e que é visto sob a aparência de homem, nem se permitindo

dizer que se trata da causa primeira do universo, que outro poderia ser proclamado como tal,

senão seu único e preexistente Verbo? Sobre ele também se diz nos salmos: Mandou seu Verbo

e os sanou e os livrou de sua corrupção11.

3 Is 53:8.

4 Mt 11:27.

5 Pv 8:23.

6 Jo 1:1-3.

7 Gn 1:26.

8 Sl 32:9.

9 Gn 18:1-3

10 Gn 18:25.

11 Sl 106 (107):20.

9. Moisés o proclama claramente segundo Senhor depois do Pai quando diz: Fez o Senhor chover

enxofre e fogo, da parte do Senhor sobre Sodoma e Gomorra12. Também a Sagrada Escritura o

proclama Deus quando apareceu a Jacó na figura de um homem e falou a ele dizendo: Já não te

chamarás Jacó, e sim, Israel, pois lutaste com Deus13, e então Jacó chamou àquele lugar "Visão

de Deus", dizendo: Porque vi Deus face a face, e a minha vida se salvou14.

10. E não se pode supor que estas aparições divinas mencionadas sejam de anjos inferiores e

servidores de Deus, pois quando algum destes aparece aos homens, não se cala a Escritura, mas

chama-os por seu nome, não Deus nem sequer Senhor, mas anjos, como é fácil provar com

incontáveis passagens.

11. E a este Verbo, Josué, sucessor de Moisés, depois de havê-lo contemplado não de outra maneira

que em forma e figura de homem também, chama-o príncipe do exército de Deus15, como

fazendo-o chefe dos anjos e arcanjos do céu e dos poderes superiores, e como sendo poder e

sabedoria do Pai16 e a quem foi confiado o segundo posto do reinado e do principado sobre todas

as coisas.

12. Porque está escrito: Estando Josué perto de Jericó, levantando os olhos, viu diante dele um

homem que trazia na mão uma espada nua; chegou-se Josué a ele, e disse-lhe: És tu dos nossos,

ou dos nossos adversários? Respondeu ele: Eu sou o general do exército do Senhor; acabo de

chegar. Então Josué se prostrou sobre o seu rosto na terra e disse-lhe: Que diz meu Senhor ao seu

servo ? Respondeu o general do exército do Senhor a Josué: Descalça as sandálias de teus pés,

porque o lugar em que estás é santo17.

13. De onde, partindo das próprias palavras, observarás que este é o mesmo que se revelou a Moisés,

pois efetivamente a Sagrada Escritura refere-se a ele nos mesmos termos: Vendo o Senhor que ele

se aproximava para ver, o Senhor, do meio da sarça, o chamou, e disse: Moisés, Moisés! Ele

respondeu:

Eis-me aqui. E disse o Senhor: não te chegues para cá; tira as sandálias dos pés, porque o

lugar em que estás é terra santa. E lhe disse: Eu sou o Deus de teu pai, Deus de Abraão, Deus

de Isaque e Deus de Jacó18.

14. E que ao menos há uma substância anterior ao mundo, viva e subsistente, que serviu de ajuda ao

Pai e Deus do universo na criação de todos os seres, chamada Verbo de Deus e Sabedoria. Além

das provas expostas, nos foi dado ouvi-lo da própria Sabedoria em pessoa que, pela boca de

Salomão, nos inicia claramente em seu próprio mistério: Eu, a Sabedoria, plantei minha lenda

no conselho e invoquei o conhecimento e a inteligência; por meu intermédio reinam os reis, e os

potentados administram justiça; por meu intermédio os grandes são engrandecidos; e por meu

intermédio os soberanos dominam a terra19.

15. Ao que acrescenta: O Senhor me criou como princípio de seus caminhos em suas obras, antes

dos séculos assentou meus fundamentos. No princípio, antes que fizesse a terra, antes que

brotassem as fontes das águas, antes de firmar os montes e antes de todos os outeiros,

engendrou a mim. Quando preparava os céus, eu estava com Ele; e quando tornava perenes os

mananciais que estão sob o céu, eu estava com Ele a dirigir. Eu me sentava ali onde a cada dia

Ele se agradava e me encantava estar diante d'Ele em toda ocasião, quando Ele se

congratulava por ter terminado o universo20.

16. Brevemente pois, está exposto que o Verbo divino existia antes de tudo, e também a quem

apareceu, já que não o fez a todos.

17. Mas por que não foi isto ensinado antes, antigamente, a todos os homens e a todas as nações,

12 Gn 19:24.

13 Gn 32:28.

14 Gn 32:30.

15 Js 5:14.

16 1 Co 1:24.

17 Js 5:13-15.

18 Ex 3:4-6. 19

19 Pv 8:12, 15-16.

20 Pv 8:22-25, 27-28, 30-31.

assim como é agora? Talvez possa explicá-lo esta resposta: a vida primitiva dos homens era

incapaz de encontrar um lugar para o ensinamento de Cristo, todo sabedoria e virtude.

18. De fato, logo no início, depois de seu primeiro tempo de vida feliz, o primeiro homem se

afastou dos mandamentos divinos e lançou-se nesta vida mortal e perecível, trocando as delícias

divinas do começo por esta terra maldita.

E seus descendentes povoaram toda nossa terra, e com exceção de uns poucos aqui e ali, foram

manifestamente degenerando e chegaram a ter uma conduta própria de animais e uma vida

intolerável21.

19. Não lhes ocorria sequer pensar em cidades, nem em normas, nem em artes, nem em ciências.

De leis e juízos, assim como da virtude e da filosofia não

conheciam nem o nome. Como gente rude e selvagem, levavam vida nômade por lugares

desertos. Com a excessiva maldade a que livremente se entregaram, corrompiam o raciocínio

natural e toda semente de inteligência e j suavidade próprias da alma humana. E a tal ponto se

entregavam sem reservas a toda iniqüidade, que por vezes se corrompiam mutuamente, às vezes

se matavam uns aos outros, ocasionalmente praticavam a antropofagia, levaram sua ousadia até a

combater contra Deus e travar estas guerras de gigantes por todos conhecidas, e pensaram em

fortificar a terra contra o céu e preparar-se, em seu louco desvario, para fazer guerra àquele que

está sobre tudo.

20. Aos que levavam tal vida, Deus, que tudo controla, perseguiu com inundações e incêndios

devastadores, como se fossem uma floresta selvagem espalhada pela terra, e os abateu com

fomes contínuas, com pestes e guerras, e ainda fulminando-os do alto, como se com estes

remédios tão amargos tentasse eliminar uma espantosa e gravíssima enfermidade das almas.

21. Então pois, quando estavam realmente a ponto de chegar ao estupor da maldade, como o de uma

tremenda embriaguez que obscurecesse e afundasse em trevas as almas de quase todos os

homens, a Sabedoria de Deus, sua primeira e primogênita criatura, o próprio Verbo preexistente,

por um excesso de amor aos homens, se manifestou aos seres inferiores, algumas vezes por

meio de visões de anjos e outras por si mesmo, como poder salvador de Deus, a alguns poucos

dos antigos varões amigos de Deus, e não de outra maneira que em forma de homem, a única

em que poderia aparecer para eles.

22. Mas uma vez que, por meio destes, a semente da religião se estendeu a uma multidão de homens, e

surgiu dos primeiros hebreus da terra uma nação inteira que se apegou à religião, Deus, por meio

do profeta Moisés, entregou a estes, como a homens que continuavam em seu antigo estilo de

vida, imagens e símbolos de certo misterioso sábado e da circuncisão, e iniciou-os em outros

preceitos espirituais, mas não revelou-lhes o próprio mistério.

23. Mas a sua lei ficou famosa, e como uma brisa perfumada difundiu-se entre os homens. Então, a

partir deles, as mentes da maioria dos povos se foi suavizando por influência de legisladores e

filósofos daqui e d'acolá, e a própria condição de animais rudes e selvagens foi-se

transformando em suavidade, ao ponto de chegarem a uma paz profunda, amizade e trato de uns

com os outros. Pois bem, assim é que finalmente, no início do império romano e por meio de um

homem que em nada diferia de nossa natureza quanto à substância corporal, se manifestou a todos

os homens e a todas as nações espalhadas pelo mundo considerando-os preparados e dispostos já

a receber o conhecimento do Pai, aquele mesmo mestre de virtudes em pessoa, o colaborador do

Pai em toda boa obra, o divino e celestial Verbo de Deus, e tão grandes coisas realizou e padeceu

quantas se achavam nas profecias; estas haviam proclamado de antemão que um homem e Deus

ao mesmo tempo viria a habitar nesta vida e realizaria maravilhas e seria reconhecido como

mestre da religião de seu Pai para todas as nações; também haviam proclamado a maravilha de seu

nascimento, a novidade de seus ensinamentos, suas obras admiráveis e, como se isto fosse

pouco, a forma de sua morte, sua ressurreição de entre os mortos e sobretudo sua divina

restauração nos céus.

24. Quanto ao reinado final do Verbo, o profeta Daniel, contemplando-o sob influência do espírito

divino, sentiu-se divinamente inspirado e descreveu assim, bem ao estilo humano, sua visão:

21 Esta visão tão pessimista não provém das Escrituras, mas da filosofia grega.

Porque eu - disse - estava olhando até que foram colocados tronos, e um ancião de muitos dias se

assentou. E sua roupa era alva como a neve, e seu cabelo como lã limpa; seu trono era uma

chama de fogo, e suas rodas, fogo ardente. Um rio de fogo brotava diante d'Ele e milhares de

milhares o serviam e miríades e miríades estavam diante d'Ele. Sentou-se o tribunal e se abriram

os livros22.

25. Após poucas linhas continua dizendo: Eu estava olhando, e eis que vinha com as nuvens do céu

um como o Filho do homem que dirigiu-se ao Ancião de muitos dias, e o fizeram chegar até ele.

Foi-lhe dado domínio e glória e o reino, para que os povos, nações e homens de todas as línguas o

servissem; o seu domínio é domínio eterno, não passará, e o seu reino não será destruído23.

26. Pois bem, está claro que todas estas coisas não poderiam referir-se a outro que a nosso Salvador,

ao Deus-Verbo, que no princípio estava em Deus e que, por causa de sua encarnação nos últimos

tempos, foi chamado Filho do homem.

27. Mas fiquemos contentes com o que foi dito, para a presente obra, pois em comentários especiais

já reuni as profecias que tangem a Jesus Cristo, nosso Salvador, e em outros escritos dei uma

melhor demonstração de tudo que expusemos acerca d'Ele.

← Voltar ao índice