Livro 1 – Capítulo III História Eclesiástica

De como os nomes de Jesus e de Cristo já eram conhecidos desde a antigüidade e honrados pelos profetas inspirados por Deus

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1. É chegado o momento de demonstrar que também entre os antigos profetas, amigos de Deus, já se

honravam os nomes de Jesus e de Cristo.

2. Moisés mesmo foi o primeiro a conhecer o nome de Cristo como o mais augusto e glorioso

quando fez entrega de figuras, símbolos e imagens misteriosos das coisas do céu, conforme a

voz que lhe dizia: Vê pois, farás todas as coisas segundo o modelo que te foi mostrado no

monte24; e celebrando ao sumo sacerdote de Deus tanto quanto é possível a um homem, proclama-

o "Cristo"25. A esta dignidade do supremo sacerdócio, que para ele ultrapassa a qualquer

dignidade dos homens, sobre a honra e a glória, adiciona o nome de Cristo. Portanto, ele

conhecia o caráter divino de Cristo.

3. Mas o mesmo Moisés, por obra do espírito divino, conhecia de antemão bem claramente também

o nome de Jesus, considerando-o mesmo digno de um privilégio único. Na verdade, nunca se

havia pronunciado este nome entre os homens antes de ser conhecido por Moisés. Este aplica o

nome de Jesus pela primeira e única vez àquele que, novamente conforme a figura e o símbolo,

ele sabia que viria a sucedê-lo depois de sua morte no comando supremo26.

4. Nunca antes seu sucessor havia usado o nome de Jesus, mas era chamado por outro nome, Ausé,

exatamente o que lhe haviam dado seus pais27. Moisés deu-lhe o nome de Jesus como um privilégio

precioso, muito maior do que o de uma coroa real. Deu-lhe este nome porque, em realidade, o

próprio Jesus, filho de Navé, era portador da imagem de nosso Salvador, o único que, depois de

Moisés e depois de haver concluído o culto simbólico por ele transmitido, o sucederia no

comando da verdadeira e sólida religião.

5. E desta maneira Moisés, dando-lhes a maior honra, aplicou o nome de Jesus Cristo nosso Salvador

aos dois homens que, segundo ele, mais sobressaíam em virtude e glória sobre todo o povo, a

saber, o sumo sacerdote e aquele que haveria de sucedê-lo no comando.

6. Está claro também que os profetas posteriores anunciaram a Cristo por seu nome e deram

testemunho adiantadamente, não apenas da conspiração do povo judeu que seria levantada contra

Ele, mas também do chamamento que Ele faria a todas as nações. Uma vez será Jeremias,

quando assim diz: O espírito de nosso rosto, o Cristo Senhor, de quem havíamos dito: "A sua

22 Dn 7:9-10.

23 Dn 7:13-14.

24 Ex 25:40 cf. Hb 8:5.

25 Lv 4:5-16; 6:22.

26 Nm 13:16.

27 Ausé é a forma usada na LXX, assim como Jesus mais adiante; no texto masorético os nomes são Oséias e

Josué.

sombra viveremos entre os povos ", caiu preso em sua armadilhas28. Outra vez será Davi, que

exclama perplexo: Por que se amotinaram as nações e os povos imaginaram planos vãos?

Levantaram-se os reis da terra e os príncipes se uniram contra o Senhor e seu Cristo29; e logo

acrescenta, falando na própria pessoa de Cristo: O Senhor me disse: Tu és meu filho, eu, hoje, te

gerei. Pede-me, e eu te darei as nações em herança e os confins da terra em possessão30 .

7. Mas, deve-se saber que, entre os hebreus, o nome de Cristo não era ornamento apenas dos que

estavam investidos do sumo sacerdócio e eram ungidos simbolicamente com óleo preparado,

mas também dos reis, que eram ungidos pelos profetas por inspiração divina e faziam deles

imagens de Cristo, pois efetivamente estes reis já levavam em si mesmos a imagem do poder real

e soberano do único e verdadeiro Cristo, Verbo divino, que reina sobre todas as coisas.

8. Além disso, a tradição nos faz saber igualmente que também alguns profetas foram convertidos

em Cristos, figuradamente, por meio da unção com o óleo31, de forma que todos estes fazem

referência ao verdadeiro Cristo, o Verbo divino e celestial, único sumo Sacerdote do universo,

único rei de toda a criação e, entre os profetas, único sumo Profeta do Pai.

9. Prova disto é que nenhum dos que antigamente foram ungidos simbolicamente: nem sacerdotes,

nem reis, nem profetas, possuíram tão alto poder de virtude divina como está demonstrado que

possuiu Jesus, nosso Salvador e Senhor, o único e verdadeiro Cristo.

10. Ao menos nenhum deles, por mais que brilhasse por sua dignidade e por sua honra entre os seus

em tantas gerações, deu jamais o nome de cristãos aos seus súditos, aplicando-lhes

figuradamente o nome de Cristo. Nem tampouco seus súditos renderam-lhes a honra de culto,

nem foi de nenhum deles a disposição de que após a sua morte estivessem preparados para

morrer pelo mesmo a quem honravam. E por nenhum deles houve tamanha comoção de todas as

nações do vasto mundo. E assim é, que a força do símbolo que havia neles era incapaz de operar

como operou a presença da verdade demonstrada através de nosso Salvador.

11. Este não tomou de ninguém os símbolos e figuras do sumo sacerdócio, nem descendia, quanto à

carne, de família sacerdotal, nem foi elevado à dignidade real por um corpo de guarda composto de

homens; nem mesmo foi um profeta igual aos de antigamente nem obteve entre os judeus

nenhuma precedência de honra ou de qualquer outro tipo; e, ainda assim, está adornado pelo Pai de

todas estas prerrogativas, e não por figura, mas em verdade mesmo.

12. Assim, sem ter sido objeto de nada semelhante ao que descrevemos, está proclamado Cristo com

mais razão que todos aqueles, e sendo Ele mesmo o único e verdadeiro Cristo de Deus, encheu o

mundo inteiro de cristãos, isto é, de seu nome realmente venerável e sagrado. Já não são figuras e

imagens o que Ele entrega a seus seguidores, mas as próprias virtudes em sua pureza e uma vida

no céu com a própria doutrina da verdade.

13. E a unção que recebeu não foi preparada com substâncias materiais, mas algo divino pelo

Espírito de Deus, por sua participação na divindade incriada do Pai. É justamente isto que

ensinava Isaías quando clamava, como se o fizesse com a própria voz de Cristo: O Espírito do

Senhor está sobre mim, por isto me ungiu: enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, a

apregoar aos cativos a liberdade e aos cegos o ver de novo32.

14. E não apenas Isaías. Também Davi dirige-se ao mesmo Cristo e lhe diz: Teu trono é, ó Deus, eterno

e para sempre; o cetro do teu reino, cetro de retidão. Amaste a justiça e odiaste a maldade, por

isso te ungiu Deus, o teu Deus, com óleo de alegria, mais que aos teus companheiros33. Aqui, o

primeiro versículo do texto o chama Deus; o segundo honra-o com o cetro real.

15. Em continuação, depois de seu poder divino e real, mostra o mesmo Cristo, em terceiro lugar,

ungido não com o óleo que procede de matéria física, mas com o óleo divino da alegria,

representando sua excelência, sua superioridade e sua diferença em relação aos antigos, ungidos

28 Lm 4:20.

29 Sl 2:1-2.

30 Sl 2:7-8.

31 Recorde-se que "Cristo" significa "ungido".

32 Is 61:1; Lc 4:18-19.

33 Sl 44:7-8 (45:6-7).

mais corporeamente e figuradamente.

16. Em outra passagem, o mesmo Davi revela as coisas que se referem a Cristo com estas palavras:

Disse o Senhor ao meu senhor: Senta-te à minha destra enquanto ponho teus inimigos sob os teus

pés34. E também: Do meu seio te criei antes do alvorecer. Jurou o Senhor e não se arrependerá:

Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque35.

17. Pois bem, este Melquisedeque aparece nas Sagradas Escrituras como sacerdote do Deus

Altíssimo36 sem que fosse assinalado com algum óleo preparado e sem que fosse aparentado com

o sacerdote hebreu por sucessão hereditária alguma. Por isso é que nosso Salvador é proclamado

com juramento Cristo e Sacerdote segundo sua ordem e não segundo a de outros, que haviam

recebido símbolos e figuras.

18. E por isso que a história tampouco nos transmitiu que Cristo tivesse sido ungido corporeamente

entre os judeus, nem que tivesse nascido de uma tribo sacerdotal, pelo contrário, que recebeu seu

ser de Deus mesmo antes do alvorecer, isto é, antes da criação do mundo, e que tomou posse de

um sacerdócio imortal e duradouro pela eternidade sem fim.

19. Uma prova sólida e patente desta unção incorpórea e divina é que, de todos os homens de seu

tempo e dos que se seguiram até hoje, unicamente Ele, entre todos e no mundo inteiro, foi

chamado e proclamado Cristo; somente a Ele reconhecem sob este nome, dão testemunho d'Ele e

se recordam d'Ele todos, tanto gregos quanto bárbaros; e até hoje seus seguidores, espalhados por

toda a terra habitada, seguem dando-lhe honras de rei, honrando-o mais do que aos profetas e

glorificando-o como o verdadeiro e único sumo Sacerdote de Deus, e acima de tudo isto, por ser

Verbo de Deus, preexistente e nascido antes de todos os séculos, e por haver recebido do Pai as

honras divinas, adoram-no como a Deus.

20. E o que é mais extraordinário: que aqueles que a Ele estamos consagrados não somente o

honramos com a voz e com palavras, mas também com a plena disposição da alma, ao ponto de

estimar mais o martírio por Ele do que nossa própria vida.

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