Livro 1 – Capítulo XIII História Eclesiástica

Relato sobre o rei de Edessa

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1. O relato acerca de Tadeu87 é como segue. A fama da divindade de nosso Senhor e Salvador Jesus

Cristo, devido ao seu poder milagroso, alcançou a todos os homens, e com a esperança de cura de

suas enfermidades e moléstias de toda espécie, atraía a inumeráveis pessoas que habitavam

inclusive no estrangeiro, muito longe da Judéia.

2. Nestas condições se achava o rei Abgaro, que reinava excelentemente sobre os povos do outro

lado do Eufrates e tinha seu corpo destroçado por uma doença terrível e incurável para o poder

humano. Assim que chegaram a ele notícias recorrentes sobre o nome de Jesus e os milagres

unanimemente testemunhados por todos, converteu-se em seu suplicante, enviando um

mensageiro com uma carta na qual pedia para ver-se livre da enfermidade.

3. Mas Jesus não atendeu de imediato a seu chamamento. Mesmo assim, fez-lhe a honra de uma

carta de próprio punho e letra na qual prometia enviar-lhe um de seus discípulos que o curaria da

enfermidade e ao mesmo tempo levaria a salvação para ele e para os seus.

4. Não passou muito tempo sem que Jesus cumprisse sua promessa. Depois de sua ressurreição de

entre os mortos e de sua ascensão aos céus, Tomás, um dos doze apóstolos, movido por Deus,

enviou à região de Edessa Tadeu -que também era um dos setenta discípulos de Cristo - como

arauto e evangelista da doutrina de Cristo, e por meio dele se cumpriu o que o Salvador havia

prometido.

5. Temos de tudo isto testemunho escrito, tirado dos arquivos de Edessa, que naquele tempo era a

corte. Nos documentos públicos que neles se guardam e que contém os feitos antigos e dos tempos

de Abgaro, encontra-se também o referido testemunho, conservado deste então e até hoje. Mas

nada melhor do que ouvir as próprias cartas que tiramos dos arquivos e que, traduzidas do

siríaco88, dizem textualmente como segue:

CÓPIA DA CARTA ESCRITA POR ABGARO, TOPARCA, A JESUS E ENVIADA A JERUSALÉM PELO

MENSAGEIRO ANANÍAS.

6. "Abgaro Ucama89, toparca, a Jesus, o bom salvador que surgiu na região de Jerusalém,

saudações: Tem chegado a meus ouvidos notícias acerca de tua pessoa e de tuas curas, que, ao

que parece, realizas sem empregar remédios ou ervas, pois pelo que se conta, fazes com que os

cegos recobrem a visão e que os coxos andem; limpas os leprosos e retiras espíritos impuros e

demônios; curas os que estão atormentados por longa enfermidade e ressuscitas mortos.

7. E eu, ao ouvir tudo isto de ti, pus-me a pensar que, de duas possibilidades uma: ou és Deus, que

descendo pessoalmente do céu realizas estas maravilhas, ou és filho de Deus, já que fazes tais

obras.

8. Este é, pois, o motivo para escrever-te rogando-te que te apresses a vir a mim e curar-me do mal

que me aflige. Porque também tenho ouvido que os judeus andam murmurando contra ti e

querem fazer-te mal. Muito pequena é minha cidade, mas digna, e bastará para os dois90."

9. Esta é a carta que Abgaro escreveu, iluminado então por um pouco de luz divina. Mas será bom

que escutemos a carta que Jesus enviou a ele pelo mesmo correio, carta de poucas linhas, mas

de muita força, cujo teor é o que segue:

RESPOSTA DE JESUS A ABGARO, TOPARCA, POR MEIO DO MENSAGEIRO ANANÍAS.

86 1 Co 15:5-7.

87 Cf. 12:3.

88 Eusébio provavelmente copiou os documentos já traduzidos anteriormente.

89 Abgaro o Negro.

90 Gn 19:20.

10. "Bem-aventurado tu, que creste em mim sem ter me visto. Porque de mim está escrito que os

que me viram não crerão em mim, e que aqueles que não me viram crerão e terão a vida. Mas,

acerca do que me escreves de ir para junto de ti, é necessário que eu cumpra aqui por inteiro

minha missão e que, depois de havê-la consumado, suba novamente ao que me enviou91.

Quando tiver subido, te mandarei algum de meus discípulos, que sanará tua doença

e trará a vida a ti e aos teus."

11. A estas cartas estava anexado ainda, em siríaco, o seguinte:

"Depois da ascensão de Jesus, Judas, chamado também Tomás, enviou-lhe como apóstolo a

Tadeu, um dos setenta, o qual chegou e se hospedou na casa de Tobías, filho de Tobías. Quando

se espalhou a notícia sobre ele, avisaram a Abgaro que havia chegado ali um apóstolo de Jesus,

como tinha sido descrito na carta.

12. Começou pois Tadeu, com o poder de Deus92, a curar toda enfermidade e fraqueza, ao ponto de

todos se admirarem. Mas, quando Abgaro ouviu falar dos prodígios e maravilhas que operava e

de que também curava, veio-lhe a suspeita de se seria o mesmo do qual Jesus falava na carta, ali

onde dizia: Quando tiver subido, te mandarei algum de meus discípulos, que sanará tua doença.

13. Fez pois chamar a Tobías, em cuja casa se hospedava, e lhe disse: Tenho ouvido dizer que veio

certo homem poderoso e que se aloja em tua casa. Traga-o a mim. Foi-se Tobías para junto de

Tadeu e lhe disse: O toparca Abgaro mandou chamar-me e me ordenou que te levasse até ele para

que o cures; e Tadeu respondeu-lhe: Subirei, posto que fui enviado a ele com poder."

14. "No dia seguinte Tobías madrugou, e tomando consigo a Tadeu, foi até Abgaro. Entrou Tadeu,

estando ali presentes de pé os nobres do rei, e no momento de fazer sua entrada, uma grande

visão apareceu a Abgaro no rosto do apóstolo Tadeu. Ao vê-la, Abgaro se prosternou ante Tadeu,

deixando em suspenso todos os que o rodeavam, pois eles não haviam contemplado a visão, que só

se mostrou a Abgaro.

15. Este perguntou a Tadeu: És tu em verdade discípulo de Jesus, o filho de Deus, o que me disse: te

mandarei algum de meus discípulos que te curará e te dará vida? E Tadeu respondeu: Porque é

muito grande a tua fé naquele que me enviou, por isso fui enviado a ti. E se ainda crês nele,

segundo a fé que tenhas, assim verás cumpridas as súplicas de teu coração.

16. E Abgaro respondeu-lhe: de tal maneira cri nele, que quis tomar um exército e aniquilar os judeus

que o crucificaram, se não me tivesse feito desistir o medo ao Império romano. E Tadeu lhe

disse: Nosso Senhor cumpriu a vontade do Pai, e uma vez cumprida, subiu ao Pai.

17. Disse-lhe Abgaro: Também cri nele e em seu Pai, e Tadeu disse: Por isto vou pôr minha mão

sobre ti em seu nome. E assim que o fez, no mesmo instante curou-se o rei de sua enfermidade e

das dores que tinha.

18. E Abgaro se maravilhou, porque tal como tinha ouvido dizer sobre Jesus, assim acabava de

experimentar de fato por obra de seu discípulo Tadeu, que o tinha curado sem remédios nem

ervas. E não somente a ele, mas também a Abdon, filho de Abdon, que sofria de gota e que,

aproximando-se também de Tadeu, caiu a seus pés, suplicou com suas mãos e foi curado. E muitos

outros concidadãos curou Tadeu, operando maravilhas e proclamando a palavra de Deus.

19. Depois disso disse Abgaro: Tadeu, tu fazes estes milagres com o poder de Deus, e nós ficamos

maravilhados. Mas eu te rogo que também nos dês alguma explicação sobre a vinda de Jesus,

como foi, e também sobre seu poder: em virtude de que poder operava ele os prodígios de que

ouvi falar.

20. E Tadeu respondeu: Agora guardarei silêncio. Mas amanhã, já que fui enviado para pregar a

palavra, convoca em assembléia todos teus concidadãos, e eu pregarei diante deles, e neles

semearei a palavra da vida: sobre a vinda de Jesus: como foi; e sobre sua missão: por que o Pai o

enviou; e sobre seu poder, suas obras e os mistérios de que falou no mundo: em virtude de que

poder realizava isto; e sobre a novidade de sua mensagem, de sua humildade e humilhação: como

se humilhou a si mesmo depondo e reduzindo sua divindade, e como foi crucificado e desceu ao

91 At l:2-ss.;Jo 16:5.

92 Mt 10:1.

Hades, e fez saltar o ferrolho que desde sempre prevalecia e ressuscitou mortos, e como, tendo

descido só, subiu a seu Pai com uma grande multidão.

21. Mandou pois Abgaro que ao amanhecer se reunissem todos seus cidadãos e que escutassem a

pregação de Tadeu, e ordenou que lhe dessem ouro e prata sem poupar. Mas ele não o aceitou e

disse: Se deixamos o nosso, como poderíamos tomar o alheio?

Corria o ano de 340.93

22. Baste para o momento este relato, que não será inútil, traduzido literalmente da língua Siríaca.

93 Isto seria os anos 28-29 d.C; o texto segue a Era Selêucida, iniciada em 1º de outubro de 312a.C.

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