1. Posto que ao escrever seus evangelhos Mateus e Lucas nos transmitiram49 genealogias diferentes
acerca de Cristo, que para muitos parecem ser discrepantes, e como cada crente, por ignorância
da verdade, se esforça por inventar sobre estas passagens, vamos adicionar as considerações
sobre este tema que chegaram a nós e que Africanus, mencionado a pouco, recorda em carta a
Aristides, acerca da concordância das genealogias nos evangelhos. Refuta as opiniões dos demais
47 Escravos dos templos.
48 Dn 9:24-27.
49 Mt 1:1-17; Lc 3:23-38.
como forçadas e mentirosas, e expõe o parecer que recebeu, nestes mesmos termos:
2. "Porque, efetivamente, em Israel os nomes das famílias se enumeravam segundo a natureza ou
segundo a lei. Segundo a natureza, por sucessão de nascimento legítimo; segundo a lei50, quando
um morria sem filhos e seu irmão os engendrava para conservar seu nome (a razão é que ainda
não se havia dado uma esperança clara de ressurreição, e arremedavam a prometida ressurreição
futura com uma ressurreição mortal, para que se perpetuasse o nome do falecido).
3. Como queira, pois, que os incluídos nesta genealogia uns se sucederam por via natural de pais a
filhos, e os outros, ainda que gerados por uns, recebiam o nome de outros, de ambos os grupos se
registra a memória: dos que foram gerados e dos que passaram por sê-lo.
4. Deste modo, nenhum dos evangelhos engana: enumeram segundo a natureza e segundo a lei. De
fato, duas famílias, que descendiam de Salomão e de Natã respectivamente, estavam mutuamente
entrelaçadas por causa das ressurreições dos que haviam morrido sem filhos, das segundas
núpcias e da ressurreição da descendência, de forma que é justo considerar os mesmos indivíduos
em diferentes ocasiões filhos de diferentes pais, dos fictícios e dos verdadeiros, e também que
ambas genealogias são estritamente verdadeiras e chegam até José por caminhos complicados,
mas exatos.
5. Mas para que fique claro o que foi dito, vou explicar a transposição das linhagens. Quem vai
enumerando as gerações a partir de Davi e através de Salomão encontra que o terceiro antes do
final é Matã, o qual gerou a Jacó, pai de José 51. Mas, partindo de Natã, filho de Davi, segundo
Lucas52, também o terceiro para o final é Melqui, pois José era filho de Heli, filho de Melqui.
6. Portanto, sendo José nosso ponto de atenção, deve-se demonstrar como é que nos é apresentado
como seu pai um ou outro: Jacó, que traz sua linhagem de Salomão, e Heli, que descende de
Natã; e de que modo, primeiramente os dois, Jacó e Heli, são irmãos; e ainda antes, como é que
os pais destes, Matã e Melqui, sendo de linhagens diferentes, aparecem como avós de José.
7. Assim é que Matã e Melqui se casaram sucessivamente com a mesma mulher e tiveram filhos, filhos
de uma mesma mãe, pois a lei não impedia que uma mulher sem marido - porque este a houvesse
repudiado ou porque houvesse morrido - se casasse com outro.
8. Pois bem, de Esta (pela tradição era assim que se chamava a mulher), Matã, o descendente de
Salomão, foi o primeiro, gerando a Jacó; tendo morrido Matã, casou-se a viúva com Melqui,
cuja ascendência remonta a Natã e que, sendo, como dissemos antes, da mesma tribo, era de
outra família. Este teve um filho: Heli.
9. E assim encontramos que, sendo de duas linhagens diferentes, Jacó e Heli são irmãos por parte
de mãe. Morrendo Heli sem filhos, seu irmão Jacó casou-se com sua mulher, e dela teve um
terceiro filho, José, o qual, segundo a natureza, era seu (e segundo o texto, pois por isso está escrito:
Jacó gerou a José 53), mas, segundo a lei, era filho de Heli, já que Jacó, sendo seu irmão, suscitou-
lhe descendência.
10. Portanto não se tirará autoridade a sua genealogia. Ao fazer a enumeração, o evangelista Mateus
diz: Jacó gerou a José; mas Lucas procede ao contrário: O qual era, segundo se cria (porque
também acrescenta isso), filho de José, que era filho de Heli, filho de Melqui54. Não seria possível
expressar mais corretamente o nascimento segundo a lei: vai remontando um a um até Adão, que
foi de Deus55, e até o final omite o "gerou", para não aplicá-lo a este tipo de paternidade.
11. E isto não está sem provas nem é improvisado. Efetivamente, os parentes carnais do Salvador,
por geração ou simplesmente pelo ensino, mas sendo verdadeiros em tudo, transmitiram também o
que segue. Uns ladrões idumeus assaltaram Ascalom, cidade da Palestina; de um templo de Apolo,
construído diante dos muros, levaram cativo, junto com os despojos, a Antípatro, filho de certo
hieródulo chamado Herodes. Não podendo o sacerdote pagar um resgate por seu filho, Antípatro
50 Gn 38:8; Dt 25:5-6; Lc 20:28.
51 Mt 1:15-16.
52 Lc 3:23-24. Nesta passagem Africanus comete um erro: Em Lucas Melqui está em quinto lugar.
53 Mt 1:16.
54 Lc 3:23-24.
55 Lc 3:38.
foi educado nos costumes dos idumeus, e mais tarde fez amizade com Hircano, o sumo
sacerdote da Judéia.
12. Logo tornou-se embaixador junto a Pompeu em favor de Hircano, para quem conseguiu o reino
devastado por seu irmão Aristóbulo; e ele mesmo prosperou muito, pois logo conseguiu o título
de epimeletés da Palestina56. A Antípatro, assassinado por inveja de sua grande fortuna, sucedeu
seu filho Herodes, que mais tarde, por decisão de Antônio e Augusto e por decreto senatorial,
reinaria sobre os judeus. Este teve como filhos Herodes e os outros tetrarcas. Todos estes dados
coincidem com as histórias dos
gregos.
13. Além disso, estando inscritas até então nos arquivos as famílias hebréias, inclusive as que
remontavam aos prosélitos, como Aquior57 o amonita, Rute a moabita58 e os que saíram do Egito
misturados aos hebreus59, Herodes, por não ter nada com a raça dos israelitas e magoado pela
consciência de seu baixo nascimento, fez queimar os registros de suas linhagens, acreditando que
passaria por nobre, já que outros também não poderiam remontar sua linhagem, apoiados em
documentos públicos, aos patriarcas ou aos prosélitos ou aos chamados "geyoras", os estrangeiros
misturados.
14. Em realidade, uns poucos mais cuidadosos, que tinham para si registros privados ou que se
lembravam dos nomes ou haviam-nos copiado, se ufanavam de ter a salvo a memória de sua
nobreza. Ocorreu que entre estes estavam aqueles de que falamos antes, chamados despósinoi por
causa de seu parentesco com a família do Salvador e que, desde as aldeias judias de Nazaré e
Cocaba, visitaram o resto do país e explicaram a referida genealogia, começando pelo Livro dos
dias, até onde alcançaram.
15. Seja assim ou de outro modo, ninguém poderia encontrar uma explicação mais clara. Eu ao
menos penso assim, e assim também todo aquele que tenha boa vontade. Ainda que não esteja
comprovada, ocupemo-nos dela, porque não é possível expor outra melhor e mais clara. Em
todo caso, o Evangelho diz inteiramente a verdade."
16. E ao final da mesma carta adiciona o seguinte: "Matã, da linhagem de Salomão, gerou a Jacó.
Morto Matã, Melqui, o da linhagem de Natã, gerou da mesma mulher a Heli. Portanto Heli e Jacó
são irmãos uterinos. Morto Heli sem filhos, Jacó dá-lhe uma descendência gerando a José, filho
seu segundo a natureza, mas de Heli segundo a lei. Assim é que José era filho de ambos". Assim
diz Africanus.
17. Estabelecida desta maneira a genealogia de José, também Maria aparece junto a ele,
obrigatoriamente, como sendo da mesma tribo, já que, ao menos segundo a lei de Moisés, não era
permitido misturar-se às outras tribos60, pois é prescrita a união em matrimônio com um do mesmo
povo e da mesma tribo, para que a herança familiar não rodasse de tribo em tribo. Que seja isto o
bastante.