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Livro Decimo Terceiro Flávio Josefo

Capítulo 9 Flávio Josefo

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"TRÍFON TENTA RESTABELECER ANTÍOCO, FILHO DE ALEXANDRE BALAS, NO
REINO DA SÍRIA.JÔNATAS CERCA A FORTALEZA DE JERUSALÉM E MANDA
SOCORRO AO REI DEMÉTRIO NICANOR, QUE POR ESSE MEIO REPELE OS
HABITANTES DE ANTIOQUIA, QUE O HAVIAM SITIADO EM SEU PALÁCIO. SUA
INGRATIDÃO PARA COM JÔNATAS. É VENCIDO PELO JOVEM ANTÍOCO E FOGE
PARA A CILÍCIA. GRANDES HONRAS PRESTADAS POR ANTÍOCO A JÔNATAS,
QUE O AJUDA CONTRA DEMÉTRIO. GLORIOSA VITÓRIA OBTIDA POR JÔNATAS
SOBRE O EXÉRCITO DE DEMÉTRIO. JÔNATAS RENOVA A ALIANÇA COM OS
ROMANOS E OS LACEDEMÔNIOS. SEITAS DOS FARISEUS, SADUCEUS E DOS
ESSÊNIOS. OUTRO EXÉRCITO DE DEMÉTRIO NÃO OUSA COMBATER JÔNATAS.
ESTE TENTA FORTIFICAR JERUSALÉM. DEMÉTRIO É VENCIDO E APRISIONADO
POR ÁRSACES, REI DOS PARTOS.",
"515. Quando Diodoro, cognominado Trífon — que era de Apaméia e fora
um dos chefes e comandantes do exército de Alexandre Balas — viu que os
soldados de Demétrio Nicanor estavam indispostos contra ele, foi procurar um
árabe de nome Male, que educava Antíoco, filho de Alexandre. Contou-lhe do
descontentamento dos soldados de Demétrio e rogou que lhe entregasse o jovem
príncipe, pois queria colocá-lo no trono de seu pai. O árabe, que não podia
prestar fé a essas palavras, recusou-o de início, mas Trífon insistiu tanto que
por fim ele se deixou vencer pelos pedidos.
516. jônatas, sumo sacerdote, persistia no seu intento de expulsar os
macedônios da fortaleza de Jerusalém, os quais ainda faziam parte da guarni-
ção, bem como aqueles judeus ímpios que nela se haviam refugiado. Ele queria
também libertar todas as outras fortalezas da Judéia das guarnições que as
ocupavam e então enviou embaixadores com presentes ao rei Demétrio para
pedir-lhe permissão. O príncipe não somente consentiu como disse que faria
ainda mais, tão logo se tivesse livrado da guerra que estava empreendendo e
que o impedia de executar imediatamente o seu desejo. Enquanto isso, rogava a
Jônatas que lhe mandasse auxílio, porque os seus soldados o haviam
abandonado e passado para o lado dos inimigos. Jônatas enviou três mil sol-
dados escolhidos.
Quando os antioquenses, que esperavam apenas o momento de matar
Demétrio pelos grandes males que lhes causara e pelos ultrajes que haviam
recebido do rei seu pai, viram o auxílio que ele recebia de Jônatas, o receio de
que ele reunisse forças ainda maiores, caso não se antecipassem, levou-os a
tomar as armas. Eles o sitiaram em seu palácio e apoderaram-se das ruas e
avenidas, para impedi-lo de escapar. Demétrio tentou fugir com os soldados
estrangeiros e com os judeus auxiliares, mas depois de um grande combate foi
obrigado, devido ao número dos oponentes, a voltar para o palácio. Então os
judeus, servindo-se da vantagem que tinham num lugar assaz elevado,
lançaram-lhes dardos do alto das ameias, que os obrigaram a abandonar as
casas vizinhas e incendiá-las, o que destruiu imediatamente toda a cidade, pois
as casas estavam muito próximas umas das outras e eram feitas de madeira.
Os habitantes, não podendo resistir à violência do fogo, pensaram
somente em salvar as suas mulheres e filhos. O rei, enquanto os judeus os
perseguiam por um lado, atacou-os pelo outro, por diversos lugares. Vários
foram mortos, e o resto foi obrigado a deixar as armas e se entregar. Ele
perdoou-lhes a revolta, acalmou a sedição, deu aos judeus os despojos que
haviam apanhado e enviou-os a Jerusalém, a Jônatas, com grandes elogios,
dizendo que lhe devia a vitória alcançada sobre os seus súditos. Mas bem
depressa mostrou também a sua ingratidão, pois, não se contentando em não
cumprir o que prometera a Jônatas, ainda ameaçou fazer-lhe guerra, caso os
judeus não lhe pagassem o mesmo tributo que pagavam ao seus predecessores
Essas ameaças teriam sido seguidas por fatos se Trífon não o tivesse
obrigado a voltar as armas contra ele. Vindo da Arábia para a Síria com o jovem
Antíoco, filho de Alexandre Balas, que fizera coroar rei, e com os soldados de
Demetrio que não haviam mais recebido o seu soldo, os quais agora estavam
unidos a ele, deu combate a Demetrio. Venceu-o, tomou-lhe os elefantes,
apoderou-se de Antioquia e obrigou-o a fugir para a Cilícia.
517. O jovem Antioco enviou depois embaixadores a Jônatas, com cartas
pelas quais o chamava de amigo e aliado, confirmando-o no cargo de sumo
sacerdote e concedendo-lhe as quatro províncias que haviam sido unidas à
judéia. Mandou-lhe também vasos de ouro, uma veste de púrpura, um broche
de ouro com a autorização de usá-lo e afirmou que o considerava um de seus
maiores amigos. Além disso, constituiu a Simão, irmão de Jônatas, general das
tropas que ele mantinha desde Tiro até o Egito. Jônatas, cumulado de tantos
favores e honras, enviou, por seu lado, embaixadores ao jovem príncipe e a
Trífon para afirmar que jamais lhes faltaria à amizade e à fidelidade, e que se
unia a eles para combater Demetrio, de quem tinha muitos motivos para se
lamentar, pois este lhe pagara com ingratidão os auxílios dele recebidos.
Antioco permitiu-lhe em seguida recrutar soldados na Síria e na Fenícia, a
fim de marchar contra as tropas de Demetrio, e ele foi logo às cidades vizinhas.
Estas o receberam muito bem, mas não lhe deram soldados. Ele partiu para a
Asquelom, cujos habitantes compareceram à sua presença com muitos
presentes. Ele os exortou, como aos das outras cidades e da Baixa Síria, a
abraçar, como ele havia feito, o partido de Antioco e abandonar o de Demetrio,
para se vingarem das injúrias que dele tinham recebido. As razões de que se
serviu foram tão poderosas que eles se deixaram persuadir e prometeram-lhe
auxílio.
Dali ele partiu para Gaza, a fim de ganhar também os seus habitantes em
favor de Antioco. Estes, porém, em vez de fazer o que ele desejava, fecharam-lhe
as portas. Para vingar-se, ele devastou os campos, sitiou a cidade e, depois de
deixar parte de suas tropas para continuar o assédio, foi com o resto incendiar
as aldeias vizinhas. Os habitantes de Gaza, não podendo numa alternativa tão
difícil esperar socorro de Demetrio, pois, ainda que ele estivesse em condições
de atendê-los, a distância faria com que não o pudesse enviar imediatamente,
foram então obrigados a ceder. Assim, enviaram embaixadores a Jônatas,
contraíram aliança com ele e obrigaram-se a unir as suas armas naquela
guerra. Esse exemplo nos faz ver que a maior parte dos homens não sabe o que
lhes é útil, a não ser pela experiência dos males que sofrem, quando a
prudência os deveria levar a preveni-los e a fazer voluntariamente o que não
poderiam deixar de fazer, jônatas, depois de tomar dentre eles alguns reféns, os
quais mandou a Jerusalém, visitou toda a província até Damasco.
518. Nesse entretempo, um grande exército reunido por Demétrio veio
acampar próximo da cidade de Cedasa,* junto ao território de Tiro e da Galiléia,
a fim de obrigar jônatas a deixar a Síria para socorrer a Galiléia, que era de seu
governo. Com efeito, ele avançou imediatamente para aquele lado, mas deixou
Simão, seu irmão, na Judéia. Este, com as tropas que pôde reunir, sitiou Bete-
Zur, que é a praça mais forte da província e o lugar onde, como dissemos,
Demétrio conservava uma guar-nição. Ele atacou com tanto vigor, fazendo
funcionar tantas máquinas, que os sitiados, temendo ser vencidos e perder a
vida, capitularam e se retiraram para Demétrio, depois de entregar a Simão
aquela praça, e ele colocou ali a sua guarnição.
* Ou Quedes.
519. jônatas, que estava na Galiléia, deixou as margens do lago de
Genezaré e avançou para Azoto, onde julgava não encontrar os inimigos. Estes,
porém, que desde o dia precedente tinham notícia de sua marcha, puseram
soldados de emboscada no monte e avançaram contra ele na planície. Logo que
os viu marchando, dispôs os seus homens em ordem de batalha, para iniciar o
combate. Mas quando os judeus viram surgir os que estavam de emboscada,
tiveram tanto medo de ser envolvidos ao mesmo tempo pela vanguarda e pela
retaguarda que fugiram todos, exceto Matatias, filho de Absalão, Judas, filho de
Capso, generais de Jônatas, e cinqüenta outros dos mais valentes, os quais,
levados pelo desespero, atacaram os inimigos com tanta fúria e tão prodigioso
valor que os assustaram. Os inimigos fugiram, e tão inesperado êxito fez voltar
do susto os que haviam abandonado Jônatas. Ele os perseguiu até o seu
acampamento, próximo de Cedasa, e dois mil deles foram mortos.
Jônatas, após obter, com o auxílio de Deus, tão gloriosa vitória, voltou a
Jerusalém e enviou embaixadores a Roma para renovar a aliança com o povo
romano, dando-lhes ainda o encargo de passar, no regresso, pela Lacedemônia
e renovar também a aliança com eles e a recordação de sua consangüinidade.
Esses embaixadores foram tão bem recebidos em Roma que não somente
obtiveram tudo o que desejavam, mas também cartas dirigidas aos reis da Ásia,
da Europa e aos governadores de todas as cidades, a fim de poderem voltar com
toda segurança.
Quanto à Lacedemônia, a carta que lá apresentaram estava assim escrita:
jônatas, sumo sacerdote, o senado e o povo judeu, aos éforos, ao senado e ao
povo da Lacedemônia, nossos irmãos, saudação. Há alguns anos, Demoteles
entregou a Onias, então sumo sacerdote de nossa nação, uma carta de Ario,
vosso rei, da qual vos mandamos uma cópia, pela qual vereis que nela se fazia
menção do parentesco que há entre nós. Recebemos com alegria essa carta e a
manifestação a Ario e a Demoteles, embora tal parentesco não nos fosse
desconhecido, porque os nossos santos livros o dizem. O que nos impediu de
vos falar disso foi que julgamos não dever desejar a vantagem de vos anteceder.
E, desde o dia em que renovamos a nossa aliança, não deixamos de rogar a
Deus, em nossos sacrifícios e nas festas solenes, que vos conserve e vos faça
vitoriosos sobre os vossos inimigos. Embora a ambição desmesurada de nossos
vizinhos nos tenha obrigado a sustentar grandes guerras, não quisemos
depender de nossos aliados. E, após triunfarmos honrosamente em todas elas,
enviamos aos romanos dois embaixadores, Numênio, filho de Antímaco, e
Antípatro, filho de Jasão, ilustres senadores, e lhes ordenamos que vos
entregassem esta carta, a fim de renovarmos a amizade e as boas relações entre
nós. Dar-nos-ei um grande prazer fazendo-nos saber em que vos poderemos ser
úteis, não havendo serviços que não estejamos prontos a vos prestar. Os
lacedemônios receberam muito bem os embaixadores e deram-lhes uma
demonstração pública da renovação de sua amizade e aliança.
520. Havia então entre nós três seitas, divergentes nas questões relativas
às ações humanas. A primeira era a dos fariseus; a segunda, a dos saduceus; a
terceira, a dos essênios. Os fariseus atribuem certas coisas ao destino, porém
nem todas, e crêem que as outras dependem de nossa liberdade, de sorte que
podemos realizá-las ou não. Os essênios afirmam que tudo geralmente depende
do destino e que nada nos acontece que ele não determine. Os saduceus, ao
contrário, negam absolutamente o poder do destino, dizendo que ele é uma
quimera e que as nossas ações dependem tão absolutamente de nós que somos
os únicos autores de todos os bens e males que nos acontecem, conforme
seguimos um bom ou um mau conselho. Mas tratei particularmente dessa
matéria no segundo livro das Guerras dos (udeus.
521. Os chefes do exército de Demétrio, querendo reparar a perda que
haviam sofrido, reuniram grandes forças, maiores que as anteriores, para
marchar contra Jônatas. Logo que ele soube disso, veio contra eles ao campo de
Hamate, para impedir que entrassem na Judéia. Acampou a cinqüenta estádios
deles e enviou exploradores até o seu acampamento. Depois de saber, pelas
informações deles e de alguns prisioneiros, que eles os queriam surpreender,
tomou providências imediatamente: colocou guardas e sentinelas avançadas e
conservou o exército em armas durante toda a noite.
Quando os inimigos, que não se julgavam bastante fortes para combatê-lo
em campo raso, viram que o seu intento fora descoberto, levantaram acampa-
mento e acenderam uma grande quantidade de fogueiras, para cobrir a sua
retirada. Jônatas partiu ao alvorecer, para atacá-los em seu acampamento, e,
vendo que estava abandonado, perseguiu-os, mas em vão: eles já haviam
passado o rio de Eleutério e estavam salvos. Voltou então à Arábia, devastou o
país dos nabateenses, conquistou grandes despojos e levou uma grande
quantidade de prisioneiros, os quais vendeu em Damasco.
522. Nesse mesmo tempo, Simão, irmão de jônatas, percorreu toda a
Judéia e a Palestina até Asquelom e colocou guarnições em todas as praças-
fortes onde julgou conveniente. Depois de assim haver assegurado e fortificado
o país, marchou para Jope, tomou-a e lá deixou uma forte guarnição, porque
soubera que os seus habitantes queriam entregar a cidade a Demétrio.
523. Os dois irmãos, depois de tantos feitos assinalados, voltaram a
Jerusalém. Jônatas reuniu o povo e aconselhou-o a refazer os muros da cidade,
a reconstruir os do Templo, que o rodeavam, acrescentando-lhes grandes
torres, para torná-los ainda mais fortes, e também a fazer outro, no meio da
cidade, a fim de cortar a entrada da guarnição da fortaleza e impedir-lhe assim
o fornecimento de viveres. A isso ele acrescentou que era de opinião que se
fortificasse e guarnecesse, mais do que já estavam, as praças mais fortes e
importantes da província. Todas essas propostas foram aprovadas. Ele
encarregou-se de fortificar a cidade, e Simão, seu irmão, de providenciar a
fortificação das outras.
524. O rei Demétrio, depois de passar o rio, foi para a Mesopotâmia, para
dela se apoderar, e à Babilônia, para lá estabelecer a capital de seu império de-
pois que as outras províncias lhe estivessem também sujeitas, pois os gregos e
os macedônios, que as habitavam, enviavam-lhe continuamente embaixadores
para garantir que se submeteriam a ele e o serviriam na guerra que fizesse a
Arsaces, rei dos partos. Demétrio, iludido com tais esperanças, apressou-se em
marchar para aquele país, julgando que se vencesse os partos seria fácil
expulsar Trífon da Síria. Os povos dessas províncias receberam-no com alegria,
e ele, depois de reunir um grande exército, fez guerra a Ársaces, mas este o
derrotou completamente, e Demétrio caiu vivo em suas mãos, como dissemos
alhures.",