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Livro Decimo Terceiro Flávio Josefo

Capítulo 21 Flávio Josefo

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"GRANDE VITÓRIA OBTIDA POR PTOLOMEU LATUR SOBRE ALEXANDRE, REI DOS
JUDEUS, E SUA HORRÍVEL DESUMANIDADE. CLEOPATRA, MÃO DE PTOLOMEU,
VEM EM AUXÍLIO DOS JUDEUS, E LATUR TENTA INUTILMENTE TORNAR-SE
SENHOR DO EGITO. ALEXANDRE TOMA GAZA E PRATICA GRANDES ATOS DE
CRUELDADE. DIVERSAS GUERRAS REFERENTES AO REINO DA SÍRIA. ESTRANHO
ÓDIO DA MAIORIA DOS JUDEUS CONTRA ALEXANDRE, SEU REI,
QUE CHAMAM DEMÉTRIO EUCERO EM SEU AUXÍLIO.",
"551. Depois que Ptolomeu Latur tomou Azoto de assalto, foi a Séforis, que
fica próxima, e atacou-a, mas foi repelido, com grandes perdas. Em vez de
continuar esse assédio, ele marchou contra Alexandre, rei dos judeus.
Encontrou-o em Azofe, muito perto do Jordão, e acampou em frente dele. A
vanguarda de Alexandre era composta de oito mil homens, soldados veteranos,
todos armados com escudos de bronze. Os da vanguarda de Ptolomeu também
o eram, mas o resto de suas tropas não estava bem armado, o que os fazia
recear o combate. Um certo Fílonstevão, muito experimentado na guerra,
tranqüilizou-os e fê-los passar o rio que separava os dois acampamentos, sem
que Alexandre se opusesse a isso, porque ele julgava vencer mais facilmente
quando os inimigos, tendo o rio por trás, não pudessem mais fugir.
O combate foi deveras sangrento, e era difícil julgar para que lado pendia
a vitória. Por fim, as tropas de Alexandre começaram a prevalecer, enquanto as
de Ptolomeu estavam se esfacelando. Mas Fílonstevão as susteve com um corpo
de tropas que ainda não havia combatido e as reanimou. Os judeus,
espantados com tal mudança e sem receber nenhum reforço, fugiram, e todos
os outros seguiram-lhes o exemplo. Os inimigos perseguiram-nos tão vivamente
e fizeram tal morticínio que só cessaram a matança quando não agüentaram
mais o cansaço e a ponta de suas espadas começava a se entortar. O número
de mortos foi de trinta mil ou, segundo uma relação de Timagenes, cinqüenta
mil. O resto do exército foi aprisionado ou salvou-se na fuga.
552. Depois de tão assinalada vitória e de tão longa perseguição,
Ptolomeu retirou-se, à tarde, para algumas aldeias da Judéia e, encontrando-as
cheias de mulheres e de crianças, ordenou aos seus soldados que as
estrangulassem, fizessem-nas em pedaços e as lançassem numa caldeira de
água fervente, a fim de que os judeus que haviam escapado da batalha, ao
chegar àquele lugar, pensassem que os inimigos comiam carne humana e
tivessem ainda maior medo deles. Estrabão não é o único que faz menção dessa
horrível desumanidade, pois Nicolau a refere também. Ptolomeu apoderou-se
depois de Ptolemaida, à força, como já dissemos em outro lugar.
553. Quando a rainha Cleópatra viu que o seu filho crescia daquele modo
em poder e devastava, sem resistência, toda a Judéia, submetendo Gaza à sua
obediência e estando já quase às portas do Egito, e que ele nada mais pretendia
além de se apoderar do país, julgou não dever esperar mais para enfrentá-lo.
Assim, sem perder tempo, reuniu grandes forças de terra e mar, cujo comando
confiou a Chelcias e a Ananias, judeus de nascimento. Colocou em segurança,
na ilha de Choos, a maior parte de suas riquezas, seus netos e seu testamento,
mandou Alexandre, seu outro filho, para a Fenícia com uma grande esquadra,
porque aquela província estava para se revoltar, e veio em pessoa a Ptolemaida.
Os seus habitantes, porém, fecharam-lhe as portas, e ela sitiou-os. Quando
Ptolomeu viu que ela havia deixado o Egito, para lá partiu, na esperança de que
facilmente dele se poderia apoderar, mas viu-se enganado em seus intentos. Por
aquele mesmo tempo, Chelcias, um dos generais do exército de Cleópatra, que
perseguia Ptolomeu, morreu na Baixa Síria.
554. Cleópatra, ao saber que as intenções do filho a respeito do Egito
haviam sido frustradas, enviou para lá uma parte de suas forças, que o
rechaçaram totalmente. Assim, ele foi obrigado a voltar e passou o inverno em
Gaza. Então Cleópatra tomou Ptolemaida, onde Alexandre, rei dos judeus, veio
encontrar-se com ela, trazendo-lhe muitos presentes. Ela o recebeu com prazer
e como um príncipe que, tendo sido tão maltratado por Ptolomeu, somente a ela
podia recorrer. Alguns servidores propuseram que ela se apoderasse do país,
para não permitir que um número tão grande de judeus, homens de bem,
estivesse sujeito a um único homem. Mas Ananias aconselhou o contrário,
dizendo que ela não podia com justiça despojar um príncipe que fizera aliança
com ela e era parente próximo dele. Também não podia evitar dizer-lhe que, se
ela fizesse aquela injustiça, nenhum judeu deixaria de se tornar inimigo dela.
Essas razões persuadiram-na, e assim, ela não somente evitou causar
desprazer a Alexandre como renovou a aliança com ele em Citópolis, que é uma
cidade da Baixa Síria.
555. Logo que o príncipe se viu livre dos receios quanto a Ptolomeu,
entrou na Baixa Síria, tomou a cidade de Gadara depois de um cerco de dez
meses e Hamate logo em seguida, que é a mais resistente de todas as fortalezas
situadas sobre o Jordão e na qual Teodoro, filho de Zenão, havia posto tudo o
que tinha de mais precioso. Teodoro, para vingar-se, atacou os judeus quando
menos esperavam, matou cerca de dez mil e tomou toda a bagagem de
Alexandre. Esse príncipe, sem se abater com tal perda, não deixou de sitiar e de
tomar Rafa, que está à beira-mar, e Antedom, que Herodes depois chamou
Agripíada. Vendo que Ptolomeu abandonara Gaza para voltar a Chipre e que a
rainha Cleópatra, sua mãe, retomara também o caminho para o Egito, o seu
ressentimento pelo fato de os moradores de Gaza haverem chamado Ptolomeu
em seu auxílio, contra ele, levou-o a devastar-lhes o país e a sitiá-los.
Apolodoto, que os comandava, atacou o acampamento dos judeus com
dois mil soldados estrangeiros e mil servidores que pôde reunir. Durante a noi-
te, ele obteve vantagem, porque os judeus estavam certos de que Ptolomeu viera
em socorro dos sitiados, mas quando raiou o dia eles viram que se haviam
enganado, retomaram ânimo e atacaram Apolodoto com tanta coragem que
mataram ali mesmo mil de seus soldados. Os sitiados, porém, não perderam a
coragem, embora fossem ainda acossados pela fome. Preferiam sofrer até o fim
a se entregar. Aretas, rei dos árabes, que lhes prometia auxílio, fortalecia-os em
seu intento. Mas Apolodoto foi morto à traição antes que esse rei tivesse
chegado, e a cidade foi tomada. Foi Lisímaco, seu próprio irmão, quem cometeu
esse crime, por inveja do prestígio que os próprios e grandes méritos haviam
granjeado a Apolodoto. Lisímaco então reuniu um grupo de soldados e entregou
a praça a Alexandre.
Quando esse príncipe lá entrou, parecia ter Espírito de paz, mas depois
enviou tropas às quais permitiu castigar o povo com toda espécie de crueldade.
Eles não pouparam um sequer de todos os que puderam matar, porém isso
custou também a vida a vários judeus, pois uma parte dos habitantes morreu
com armas na mão, defendendo-se valentemente, outros incendiaram as
próprias casas, para impedir que fossem presa do inimigo, e outros mataram as
próprias mulheres e filhos, para evitar-lhes uma vergonhosa escravidão.
Sabendo que o senado estava reunido quando essas tropas sanguinárias
entravam na cidade, eles fugiram para o templo de Apoio, a fim de ali buscar
asilo seguro, mas não o encontraram. Alexandre mandou matá-los e, depois de
destruir a cidade, que conservava sitiada durante um ano, voltou a Jerusalém.
556. Por esse mesmo tempo, o rei Antioco Gripo foi morto à traição por
Heracleu, na idade de quarenta e cinco anos, após reinar vinte e nove. Seleuco,
seu filho, sucedeu-o e fez guerra a Antioco Cizicenio, seu tio, aprisionou-o
numa batalha e mandou matá-lo. Pouco tempo depois, Antioco, filho de
Cizicenio, e Antonino, cognominado Eusébio, vieram a Arade, onde foram
coroados reis. Eles fizeram guerra a Seleuco, venceram-no numa batalha e o
expulsaram da Síria. Ele fugiu para a Cilícia, onde foi recebido pelos
mopseatas, mas, em vez de reconhecer a obrigação que lhes devia, quis ainda
exigir deles tributo. Então eles, não o podendo suportar, puseram fogo ao seu
palácio, onde morreu queimado com os seus amigos.
557. Enquanto esse Antioco reinava na Síria, um outro Antioco, irmão de
Seleuco, fez-lhe guerra. Mas foi derrotado com todo o seu exército. Filipe, seu
irmão, fez-se coroar rei e reinou numa parte da Síria. No entanto, Ptolomeu
Latur mandou chamar Demétrio Eucero, seu quarto irmão, em Gnida, o
constituiu rei em Damasco. Antioco resistiu valentemente a esses dois irmãos,
mas não viveu por muito tempo. Tendo partido para Laodicéia em auxílio da
rainha dos galadenianos, que faziam guerra aos partos, foi morto numa
batalha, lutando corajosamente. Filipe e Demétrio, que eram irmãos, com a
morte dele ficaram de posse pacífica do reino da Síria, como já dissemos em
outro lugar.
558. Ao mesmo tempo, Alexandre, rei dos judeus, viu turbar-se o seu
reino, pelo ódio que o povo tinha contra ele. No dia da festa dos Tabernáculos,
quando se levam ramos de palmas e de limoeiros, ele preparava-se para
oferecer sacrifício. O povo não se contentou de lhe lançar limões à cabeça, mas
o ofendeu com palavras, dizendo que, tendo sido escravo, ele não merecia honra
alguma e era indigno de oferecer sacrifícios a Deus. Ele ficou de tal modo
enfurecido que mandou matar uns seis mil deles e em seguida reprimiu o
esforço da multidão irritada com uma cerca de madeira que mandou fazer ao
redor do Templo e do altar, e que se estendia até o lugar onde somente os
sacerdotes têm direito de entrar.
Ele assalariou soldados pisídios e cilícios porque, sendo inimigo dos
sírios, não se servia deles. Venceu depois os árabes, impôs tributos aos
moabitas e aos galaditas e destruiu Hamate sem que Teodoro se atrevesse a
dar-lhe combate. Fez também guerra a Obede, rei dos árabes, mas, tendo caído
numa emboscada perto de Gadara, na Galiléia, impelido por um grande número
de camelos a um estreito muito apertado e difícil de transpor, chegou a salvo
com muita dificuldade em Jerusalém. Esse mau resultado foi seguido de uma
guerra que seus súditos lhe moveram durante seis anos. Ele matou mais ou
menos uns cinqüenta mil deles e, embora tudo fizesse para estar bem com eles,
o ódio que lhe tinham era tão violento que, quanto mais queria acalmá-lo, tanto
mais ele aumentava. Assim, perguntando-lhes um dia o que queriam que
fizesse para contentá-los, todos exclamaram que ele devia se matar. Mandaram
então imediatamente chamar Demétrio Eucero, para pedir-lhe auxílio.",