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Livro Decimo Terceiro Flávio Josefo

Capítulo 19 Flávio Josefo

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,
"ARISTÓBULO, FILHO MAIS VELHO DE HIRCANO, PRÍNCIPE DOS JUDEUS, FAZ-SE
COROAR REI. ASSOCIA O SEU IRMÃO ANTTGONO À COROA, PÕE OS OUTROS NA
PRISÃO E TAMBÉM A SUA MÃE, A QUAL FAZ MORRER DE FOME.
DESCONFIA DE ANTTGONO, MANDA MATÁ-LO E MORRE DE TRISTEZA.",
"546. Aristóbulo, que era o mais velho dos filhos de Hircano, cognominado
Filelés, isto é, amigo dos gregos, mudou em reino, após a morte de seu pai, o
principado dos judeus e foi assim o primeiro que se fez coroar rei. Isso
aconteceu quatrocentos e oitenta e um anos depois da volta dos judeus
libertados do cativeiro da Babilônia ao seu país. Como estimava muito
Antígono, o segundo dos irmãos, chamou-o à coroa, associando-o no governo, e
mandou colocar na prisão os outros três. Mandou também lá encerrar a própria
mãe, porque ela também queria reinar e porque Hircano, ao morrer, colocara o
governo nas mãos dela. Sua horrível crueldade chegou a tal excesso que ele a
deixou morrer de fome na prisão. A esse crime acrescentou o de mandar matar
o seu irmão Antígono, que ele demonstrara amar tanto. Calúnias foram a causa
disso, embora de início ele as tenha rejeitado, em parte pelo afeto que lhe nutria
e parte por estar persuadido de que haviam sido maliciosamente inventadas.
Esse crime tão deplorável aconteceu assim:
Estava ele enfermo, e Antígono voltou da guerra com grande aparato,
quando se celebrava a festa dos Tabernáculos. Nessa ocasião, Antígono subiu
ao Templo acompanhado de alguns homens armados, sem outra intenção além
de fazer orações a Deus pela saúde do rei seu irmão. Maus Espíritos, porém,
serviram-se dessa oportunidade, dos felizes resultados de Antígono na guerra e
de ter ele se apresentado no Templo com tanto aparato, para colocar divisão
entre os irmãos. Disseram maliciosamente a Aristóbulo que Antígono, tendo se
apresentado naquela circunstância com tal aparato, durante uma festa tão
solene, bem mostrava aspirar ao trono e que voltaria bem depressa com um
grande número de soldados para matá-lo, porque estava persuadido de que,
podendo tornar-se senhor de todo o reino, seria tolice contentar-se apenas com
uma parte.
Aristóbulo, que naquele instante estava numa torre (que depois foi
chamada Antônia), não quis acreditar nessas palavras. No entanto, para
garantir a própria vida sem condenar o irmão, mandou esconder alguns
guardas num lugar escuro e subterrâneo, com ordem de não fazerem mal a
Antígono se ele viesse desarmado e de matá-lo se viesse armado. Mandou em
seguida dizer-lhe para que viesse falar-lhe sem armas. Porém, a rainha e os
outros inimigos de Antígono apanharam esse emissário e obrigaram-no a dizer
que o rei, tendo sabido que ele tinha armas muito belas, pedia-lhe que fosse
como estava, para lhe dar o prazer de mostrá-las. O príncipe, que de nada
desconfiava e se fiava no afeto do rei seu irmão, veio armado como estava. E,
quando chegou à torre de Estratão, onde a passagem era escura, os guardas do
rei o mataram.
Essa morte tão trágica mostra de que é capaz a inveja e o que pode a
calúnia: elas são tão fortes que abafam os sentimentos mais ternos de amizade
natural. Não é, pois, de admirar que um certo Judas, essênio de nascimento,
cujas predi-ções jamais deixavam de ser verdadeiras, tendo visto Antígono subir
ao Templo, disse aos discípulos e amigos que costumavam segui-lo para
verificarem os efeitos daquela ciência que o fazia penetrar o futuro e que ele
quisera estar morto, porque a vida de Antígono faria conhecer a superfluidade
de suas predições, pois afirmara que ele morreria naquele mesmo dia, na torre
de Estratão, o que era impossível, porque ela distava de Jerusalém uns
seiscentos estádios, e a maior parte do dia já se havia passado. Quando ele
assim falava, vieram dizer-lhe que Antígono fora morto num lugar subterrâneo
com esse mesmo nome, Estratão, que tem uma torre à beira mar (chamada
depois Cesareia). Essa semelhança de nomes havia sido a causa de sua
confusão e inquietação.
547. Aristóbulo não tardou a se arrepender de haver tirado a vida a seu
irmão, o que aumentava ainda mais a sua enfermidade. Recriminava-se
continuamente por ter cometido tão horrível crime, e seu sofrimento foi tanto
que ele vomitou grande quantidade de sangue. Quando um de seus servidores
levava esse sangue, aconteceu que ele o deixou cair, creio eu por permissão
divina, e parte dele derramou-se no mesmo lugar onde ainda se viam vestígios
do sangue de Antígono, irmão do rei. Os que o viram, julgando que ele o fazia
de propósito, soltaram um grande grito, que foi ouvido pelo rei.
Ele perguntou o motivo, mas ninguém ousava dizer-lhe. O rei, porém,
insistia cada vez mais, porque os homens naturalmente ficam suspeitosos
quando se lhes procuram ocultar alguma coisa e passam a imaginá-la muito
pior do que é na realidade. Assim, Aristóbulo, por meio de ameaças, obrigou-os
a dizer a verdade, a qual fez sobre o seu Espírito tão forte impressão que ele
disse, após derramar muitas lágrimas, soltando um profundo suspiro: Bem
parece que não se pode ocultar aos olhos de Deus uma ação tão detestável, pois
Ele descarregou depressa sobre mim a sua justa vingança. Até quando este
meu miserável corpo reterá a minha alma criminosa? Não é preferível morrer de
uma vez que derramar o meu sangue gota a gota, como um sacrifício de
expiação à memória daqueles aos quais fiz tão cruelmente perder a vida?
Dizendo essas palavras, ele morreu, após reinar somente um ano. Seu
país foi-lhe devedor de muitos benefícios, porque ele declarou guerra aos
idumeus, conquistou grande parte do território deles, que anexou à Judéia, e
obrigou os seus habitantes a receber a circuncisão e a viver segundo as nossas
leis. Era de natureza doce e muito modesto, como refere Estrabão, com estas
palavras, ante a relação de Timagenes: Esse príncipe era muito afável, e os
judeus não lhe são devedores de pouco, porque ele levou bem longe os limites
de seu país, que aumentou com uma parte da Ituréia e uniu esse povo a eles
pelo laço da circuncisão.",