Livro Decimo Terceiro Flávio Josefo
Capítulo 18 Flávio Josefo
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"HIRCANO TOMA SAMARIA E A DESTRÓI INTEIRAMENTE. COMO ESSE SUMO
SACERDOTE ERA FAVORECIDO POR DEUS. ELE DEIXA A SEITA DOS FARISEUS E
ABRAÇA A DOS SADUCEUS. SUA MORTE.",
"542. Quando Hircano se viu tão poderoso, resolveu sitiar Samaria, então
chamada Sebaste. Diremos a seu tempo de que modo ela foi depois
reconstruída por Herodes. Nada se poderia acrescentar ao vigor com que ele
apertava o cerco, tanto estava irritado contra os samaritanos por causa dos
maus-tratos que haviam infligido aos mariceenses, os quais, embora súditos do
rei da Síria, moravam na Judéia e eram aliados dos judeus. Depois de rodear a
cidade como uma dupla circunvalação, cuja extensão era de oitenta estádios,
entregou a direção dos trabalhos a Aristóbulo e a Antígono, seus filhos.
Eles de tal modo assediaram a praça que os samaritanos ficaram
reduzidos a uma grande carestia, de forma que, para sustentar a vida, tinham
de recorrer a coisas que os homens não estão acostumados a comer. Em tal
aperto, imploraram o socorro de Antíoco Cizicênio, e ele veio imediatamente,
porém as tropas de Aristóbulo o venceram. Ele e o irmão perseguiram-no até
Citópolis. Voltaram depois ao assédio e de tal modo oprimiram os samaritanos
que eles se viram obrigados a pedir uma segunda vez o auxílio de Antíoco.
Antíoco obteve de Ptolomeu, cognominado Latur, mais ou menos seis mil
soldados e, contra a opinião e ordem de sua mãe, que o queria dissuadir desse
intento, foi com esses egípcios devastar a região sujeita a Hircano sem, porém,
ousar combater, pois se sentia muito fraco, mas se iludia com a esperança de
que Hircano, para impedir o saque, abandonaria o assédio. No entanto, depois
de perder vários dos seus, devido às emboscadas que os judeus lhe armaram,
retirou-se para Trípoli e deixou o encargo da guerra a Calimandro e a Epícrates.
O primeiro travou temerari-amente um combate e foi derrotado e morto.
Epícrates deixou-se corromper pelo dinheiro e entregou Citópolis e outras
praças aos judeus, sem prestar auxílio algum aos samaritanos. Assim, Hircano,
após um ano de sítio, tomou a cidade e, não se contentando em se tornar
senhor dela, destruiu-a completamente, fazendo passar por ela várias torrentes,
de modo que ela perdeu todo e qualquer aspecto de cidade.
Dizem-se coisas incríveis desse sumo sacerdote. Afirma-se que o próprio
Deus lhe falava e que, estando sozinho no Templo, onde oferecia incenso, no
mesmo dia em que os filhos se empenhavam numa batalha contra Antíoco
Cizicênio, ele ouviu uma voz dizer-lhe que seria vitorioso. Saiu imediatamente
para dar essa grande notícia ao povo, e os fatos provaram que aquela revelação
era verdadeira.
543. Todavia, não era somente em Jerusalém, na Judéia, que os judeus
estavam em franco progresso. Eles também eram poderosos em Alexandria, no
Egito, e na ilha de Chipre. A rainha Cleopatra, estando incompatibilizada com
Ptoiomeu Latur, deu o comando de seu exército a Chelcias e a Ananias, filho de
Onias que, como vimos, construiu no território de Heliópolis um templo
semelhante ao de Jerusalém. A princesa nada fazia sem o conselho deles, como
refere Estrabão da Capadócia, com estas palavras: Vários daqueles que tinham
vindo conosco a Chipre e dos que para lá foram enviados depois pela rainha
Cleopatra abandonaram o seu partido para seguir o de Ptoiomeu. Somente os
judeus, que conservam o afeto a Onias, mantiveram-se fiéis à princesa, por
causa da confiança que ela depositava em Chelcias e em Ananias, seus
compatriotas.
544. A felicidade de Hircano despertou a inveja dos judeus,
particularmente entre os que pertenciam à seita dos fariseus, de que falamos
há pouco, os quais desfrutam tal prestígio perante o povo, que este acolhe os
seus sentimentos, ainda que contrários aos dos reis e dos sumo sacerdotes.
Hircano, que fora um discípulo muito amado por eles, deu-lhes um grande
banquete. Quando viu que todos estavam bem alegres, disse-lhes que,
conhecendo os sentimentos dele, sabiam que não tinha maior desejo que não
fosse trilhar sempre o caminho da justiça e nada fazer que fosse desagradável a
Deus, e por isso estavam obrigados a avisá-lo quando julgassem que ele falhava
em alguma coisa, a fim de corrigi-lo.
Os convidados, por esse motivo, elogiaram-no muito, e ele com isso
mostrou-se bastante satisfeito. Porém um deles, de nome Eleazar, homem
muito mau, tomou a palavra e disse: Se desejais, como dizeis, que vos falemos
com franqueza e segundo a verdade, dai-nos uma prova de vossa virtude,
renunciando o sumo sacerdócio e contentando-vos em ser apenas príncipe do
povo. Hircano perguntou-lhe o que o levava a fazer tal proposta, e ele
respondeu: É porque soubemos de nossos antepassados que a vossa mãe foi
escrava durante o reinado do rei Antíoco Epifânio. Como esse boato era falso,
Hircano ficou muito ofendido com tais palavras, e os outros fariseus
mostraram-se também tão ultrajados quanto ele.
Então Jônatas, o mais íntimo dos amigos de Hircano, que era da seita dos
saduceus, inteiramente contrária à dos fariseus, disse-lhe saber que fora com o
consentimento deles que Eleazar lhe fizera tão grande ultraje e que era fácil
descobri-lo: perguntando-lhes como ele devia ser castigado. Hircano perguntou
em seguida qual era a opinião deles, e, como não são muito severos no castigo
dos crimes, responderam que ele merecia apenas a prisão e o azorrague, pois
achavam que só a maledicência torna um homem réu de morte. Essa resposta
deu a entender a Hircano que eles mesmos haviam induzido Eleazar àquela
grande injúria. Ele ficou muito irritado, e Jônatas aumentou-lhe a irritação, de
modo que ele não somente renunciou à seita dos fariseus, para abraçar a dos
saduceus, como aboliu todos os seus estatutos e mandou castigar os que
continuavam a observá-los. Isso tornou ele e os filhos odiosos a todo o povo,
como veremos a seu tempo.
Contentar-me-ei agora em dizer que os fariseus, que receberam essas
constituições pela tradição de seus antepassados, as ensinaram ao povo. Os
saduceus, porém, as rejeitavam, porque elas não estão compreendidas entre as
leis dadas por Moisés, que estes afirmam serem as únicas que são obrigados a
observar. Isso fez surgir entre eles uma grande divergência, que deu origem a
diversos partidos. As pessoas de classe mais elevada abraçaram o dos
saduceus, e o povo alinhou-se com os fariseus. Mas já falamos amplamente, no
segundo livro da Guerra dos Judeus, sobre essas duas seitas e sobre uma
terceira, que é a dos essênios.
545. Hircano, depois de pacificar todas as divergências e conservar o
poder e o principado entre os judeus durante trinta e um anos, bem como o
sumo sacerdócio, terminou honrosamente a sua vida. Ele deixou cinco filhos.
Deus julgou-o digno de desfrutar três maravilhosas honras, a saber: o
principado de sua nação, o sumo sacerdócio e o dom da profecia. Pois Deus
mesmo se dignava falar-lhe e dava-lhe tal conhecimento das coisas futuras que
ele predisse que seus filhos mais velhos não usufruiriam por muito tempo a
autoridade que lhes deixava. Isso nos obriga a relatar o seu fim, para melhor
conhecermos a graça que Deus lhe havia concedido de penetrar as coisas
futuras.",