Livro Decimo Terceiro Flávio Josefo
Capítulo 1 Flávio Josefo
,
"DEPOIS DA MORTE DE JUDAS MACABEU, JÔNATAS, SEU IRMÃO, É
ESCOLHIDO PELOS JUDEUS PARA GENERAL DE SUAS TROPAS. BACIDA,
GENERAL DO EXÉRCITO DE DEMÉTRIO, TENTA MATÁ-LO À TRAIÇÃO E, NÃO
CONSEGUINDO, ATACA-O. GRANDE COMBATE E BELA RETIRADA DE JÔNATAS.
OS FILHOS DE AMAR MATAM JOÃO, SEU IRMÃO. JÔNATAS SE VINGA.
BACIDA CERCA JÔNATAS E SIMÃO, SEU IRMÃO, EM BETALAGA.
ELES O OBRIGAM A LEVANTAR O CERCO.",
"495. 1 Macabeus 9. Vimos no livro precedente que os judeus se libertaram
da escravidão dos macedônios pela coragem e valor de Judas Macabeu, que foi
morto no último dos muitos combates nos quais se empenhara para
reconquistar a liberdade. Depois da perda desse generoso chefe, aqueles de
nossa nação que haviam abandonado as leis de seus pais fizeram mal, como
nunca antes, aos que permaneciam fiéis a Deus. E uma grande carestia afligiu
de tal modo a judéia que vários dentre aqueles passaram para os macedônios, a
fim de garantir a própria subsistência. Bacida entregou a esses desertores o
encargo dos negócios da província, e eles começaram por lhe entregar todos os
que puderam apanhar, tanto os amigos particulares de Judas Macabeu quanto
os que eram favoráveis ao seu partido. Não se contentando em mandá-los
matar, o cruel general valia-se de tormentos desconhecidos e inauditos.
Os judeus, vendo-se reduzidos à extrema miséria, qual nem mesmo
haviam sofrido após o cativeiro na Babilônia, e tendo motivo para temer a
completa ruína, pediram a Jônatas, irmão de judas, que imitasse o valor de seu
admirável irmão, o qual terminara a vida combatendo até o último suspiro pela
salvação de sua pátria, e não permitisse que toda a nação perecesse por falta de
um chefe tão competente quanto ele. Jônatas respondeu que estava pronto a
sacrificar a sua vida pelo bem público, e, como todos julgassem que não podiam
confiar o cargo a pessoa mais digna, escolheram-no para chefe com o
consentimento geral.
496. Bacida, apenas o soube, com medo de que jônatas causasse tantas
preocupações quanto o irmão ao rei e aos macedônios, resolveu mandar matá-
lo à traição. Mas Jônatas e Simão descobriram o seu intento e se retiraram com
vários dos de seu partido para o deserto próximo de Jerusalém, detendo-se
junto do lago de Asfar. Bacida, pensando que eles estavam com medo, marchou
imediatamente contra eles com todas as suas tropas e acampou além do
Jordão.
Quando Jônatas soube disso, enviou João, seu irmão, cognominado
Gadis, com a bagagem, aos árabes nabateenses, que eram seus amigos, para
lhes pedir que a guardassem até que tivessem terminado a luta com Bacida.
Porém os filhos de Amar saíram da cidade de Medeba e o atacaram, saquearam
toda a bagagem e o mataram, bem como a todos os que o acompanhavam. Tão
negra ação não ficou impune. Os irmãos de João tiraram vingança, como
diremos em seguida.
Bacida, sabendo que Jônatas se retirara aos pantanais do Jordão,
escolheu o sábado para atacá-lo, na persuasão de que a observância da Lei os
impediria de combater. Jônatas fez ver aos seus que os inimigos que tinham à
frente e o rio, que estava por trás, tirando-lhes a passagem e os meios de fuga,
exigiriam deles toda a coragem e todo o empenho na luta, se quisessem salvar-
se de tão grande perigo. Em seguida, fez a Deus uma oração para pedir-lhe a
vitória e atacou os inimigos, matando vários deles. Bacida, vendo-o aproximar-
se de maneira tão ousada, reuniu todas as suas forças para desferir-lhe um
tremendo golpe. Jônatas, porém, o evitou e, percebendo que não estava em
condições de resistir por muito tempo a um inimigo tão numeroso, lançou-se
com o seu exército ao rio, passando-o a nado, o que os inimigos não ousaram
fazer.
Assim, Bacida, que perdeu no combate uns dois mil homens, voltou para
a fortaleza de Jerusalém e fortificou várias cidades que haviam sido destruídas,
isto é, Jerico, Emaús, Bete-Horom, Betei, Tamnata, Faraton, Tefon e Gazara,*
rodean-do-as com muralhas com torres grandes e fortes e colocando nelas
guarnições, a fim de poder usá-las como base nas incursões contra os judeus.
Fortificou de modo particular a fortaleza de Jerusalém, onde mantinha
prisioneiros os principais dos judeus, que lhe haviam sido entregues como
reféns.
* Ou Cezer.
497. Por esse mesmo tempo, Jônatas e Simão souberam que os filhos de
Amar iriam levar, da cidade de Gatala, com grande pompa e magnificência, a
filha de um dos principais dos árabes, que um deles recebera como noiva, para
celebrar as bodas. Os dois irmãos julgaram que não haveria ocasião melhor
para vingar a morte de João, seu irmão. Assim, marcharam com grandes forças
para Medeba e puseram-se de emboscada no monte que está à passagem. Logo
que viram a noiva aproximar-se com o noivo e seus amigos, atiraram-se sobre
eles, mataram todos, levaram o que eles tinham de mais precioso e voltaram,
depois de se sentirem plenamente vingados. Eles mataram cerca de qua-
trocentos, entre homens, mulheres e crianças, e sua moradia agora era nos
pantanais do Jordão.
498. Bacida, depois de colocar as guarnições na Judéia, voltou para
visitar o rei Demétrio. Assim, os judeus ficaram em paz durante dois anos. Mas
os ímpios desertores, vendo que Jônatas e os seus viviam tranqüilos, sem nada
temer, foram pedir ao rei que enviasse Bacida novamente, para os aprisionar,
pois então nada seria mais fácil que os surpreender durante a noite e matar
todos eles. Bacida partiu, por ordem do príncipe, e logo que chegou à Judéia
escreveu aos seus amigos e aos judeus que eram de seu partido, ordenando que
prendessem Jônatas. Eles tudo fizeram para consegui-lo, mas inutilmente,
porque ele vivia de sobreaviso. Bacida ficou de tal modo encolerizado contra
aqueles falsos judeus, pensando que eles o haviam enganado, bem como ao rei,
que mandou matar uns cinqüenta dentre os principais.
Jônatas e seu irmão, não se sentindo bastante fortes, retiraram-se com os
seus homens para uma aldeia do deserto, de nome Betalaga,* e a rodearam com
muralhas e fortificaram as torres, a fim de poderem ficar em segurança. Bacida
sitiou-os com todas as suas tropas e com os judeus de seu partido, procurando
atacá-los durante vários dias, mas eles se defendiam corajosamente. Jônatas,
deixando o irmão na cidade, para continuar resistindo ao cerco, saiu
secretamente e, com os soldados de que dispunha, atacou à noite o acampa-
mento dos inimigos, matando muitos deles. Depois mandou avisar o irmão, que
saiu também e incendiou as máquinas com que eram atacados, matando um
grande número de inimigos. Bacida, vendo-se acossado de todos os lados e não
tendo esperança de tomar a cidade, ficou de tal modo perturbado que parecia
ter perdido a razão. Então descarregou a sua cólera sobre os miseráveis
trânsfugas, que ele julgava terem enganado o rei ao persuadir o soberano a
enviá-lo para a Judéia. Depois disso, pensava apenas em como levantar o cerco
sem desonra e retirar-se.
* Ou Bete-Busi.",