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Livro Decimo Quarto Flávio Josefo

Capítulo 28 Flávio Josefo

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"HERODES, AJUDADO POR SÓSIO, GENERAL ROMANO, TOMA JERUSALÉM E RESGATA O
SAQUE. SÓSIO APRISIONA ANTÍGONO E LEVA-O A ANTÔNIO.",
"623. Herodes levou para o seu exército, depois de suas núpcias, um
reforço de trinta mil homens. Sósio, que havia mandado a ele o seu exército,
que era poderoso tanto em cavalaria quanto em infantaria, veio ao mesmo
tempo pela Fenícia. Assim, reuniram-se tropas de todos os lados para se juntar
no cerco de Jerusalém, que era atacada pelo norte. Havia cerca de onze legiões
e seis mil cavaleiros, além das tropas auxiliares da Síria. Os dois chefes desse
célebre cerco eram Sósio, enviado por Antônio em auxílio de Herodes, e este,
que fazia guerra por si mesmo, para arruinar Antígono, inimigo declarado do
povo romano, e assim garantir-se na coroa que o decreto do senado lhe havia
conferido.
Os judeus, vindos de todas as partes do reino para reunir-se naquela
praça, defendiam-na com extrema coragem. Vangloriando-se da santidade do
Templo, afirmavam ao povo que Deus os livraria daquele perigo e faziam
secretamente incursões pelos campos, para estragar os víveres e a forragem, a
fim de que viessem a faltar aos que o cercavam. Herodes, para remediar isso,
colocou em diversos lugares tropas de emboscada e fez vir comboios de longe,
que trouxeram abundância de víveres e todas as coisas necessárias para o
exército. Empregou também um grande número de trabalhadores, pois, sendo
verão, a estação favorável os ajudava, sem retardar os trabalhos, de modo que
ele terminou as três plataformas que iniciara a construir. Batia ao mesmo
tempo nos muros da cidade com as suas máquinas e tudo fazia para chegar
logo ao termo de tão grande empresa.
Os sitiados, por sua vez, faziam todos os esforço imagináveis para bem se
defender: queimavam os trabalhos, não somente os começados, mas também os
já concluídos, e faziam ver, pelo seu extremo valor, que os romanos os
superavam somente na ciência da guerra. No lugar dos muros derrubados pelas
máquinas, eles construíam logo outros, retribuíam astúcia por as-túcia e
combatiam às vezes corpo a corpo. Assim, embora sitiados por um poderoso
exército e ao mesmo tempo oprimidos pela fome, porque aquele ano era de
sábado, o próprio desespero os animava, e nada os convencia a se entregar. Por
fim, no quadragesimo dia do cerco, vinte dos mais valentes soldados romanos
subiram a muralha seguidos por um de seus oficiais, que estava sob o comando
de Sósio, e, ajudados por outras tropas, apoderaram-se dela.
Quinze dias depois, o segundo muro também foi tomado, e alguns
pórticos do Templo foram incendiados, mas Herodes disso acusou Antígono,
para torná-lo odioso ao povo. A parte externa do Templo e a cidade baixa
também foram tomadas, e os sitiados retiraram-se para a cidade alta e para o
Templo, temendo que os romanos os impedissem de oferecer a Deus os
sacrifícios ordinários, e rogaram aos sitiantes que lhes permitissem fazer entrar
somente os animais necessários para esse fim. Herodes consentiu, na
esperança de que esse favor os dobrasse. Mas, vendo que se obstinavam mais
do que nunca em manter Antígono na realeza, redobrou os esforços para tomar
a praça.
Viu-se então surgir, mais do que antes e de todas as partes, a figura
horrorosa da morte, pois os romanos estavam irritados porque o cerco se
prolongava demasiado, e os judeus afeiçoados a Herodes queriam destruir
inteiramente os compatriotas que haviam abraçado o partido contrário. Assim,
matavam-nos nas ruas, nas casas e mesmo quando se refugiavam no Templo.
Não poupavam velhos nem moços, e a fraqueza do sexo não lhes despertava a
menor compaixão pelas mulheres. E, embora Herodes ordenasse que fossem
poupadas e unisse rogos às suas ordens, eles não lhe obedeciam, pois estavam
tão inflamados pelo furor que haviam perdido todo o senso de humanidade.
624. Antígono, com um proceder indigno de seu glorioso passado, desceu
da torre onde estava e veio lançar-se aos pés de Sósio, que, em vez de se
comover, insultou-o ainda na sua infelicidade, chamando-o não de Antígono,
mas de Antígona. Tratou-o, porém, como mulher porque não confiou nele e fez
com que o custodiassem com muito cuidado.
625. Herodes, depois de tanta dificuldade para vencer os inimigos, teve
ainda graves embaraços para reprimir a insolência daqueles estrangeiros que
havia chamado em seu auxílio. Eles lançaram-se em massa sobre o Templo e
queriam até mesmo entrar no Santuário. Para impedi-los, ele empregou não
somente rogos e ameaças, mas também a força, porque se julgava mais infeliz
como vencedor do que se tivesse sido vencido, uma vez que a sua vitória estava
expondo a olhos profanos o que não lhes era permitido ver.
Fez tudo o que foi possível para impedir o saque da cidade, dizendo
energicamente a Sósio que, se os romanos a queriam despovoar e saquear,
concluir-se-ia que ele fora constituído rei de um deserto. Declarou também que
não compraria nem mesmo o império do mundo, se lhe custasse o sangue de
um número tão grande de seus súditos. A isso Sósia respondeu que não se
podia negar aos soldados o saque de uma praça que eles haviam tomado.
Herodes então prometeu compensá-los com dinheiro. Assim, preservou a cidade
e cumpriu magnificamente a sua promessa, tanto para com os soldados quanto
para com os oficiais, particularmente Sósio.
Essa tomada de Jerusalém aconteceu sob o consulado de M. Agripa e de
Canísio Calo, na centésima octogésima quinta Olimpíada, no terceiro mês, e
durante um jejum solene, no mesmo dia em que Pompeu a havia tomado, vinte
e sete anos antes.
626. Sósio, depois de consagrar a Deus uma coroa de ouro, partiu de
Jerusalém e levou Antígono prisioneiro a Antônio. Isso pôs Herodes em grande
ansiedade, pois receava que Antônio o deixasse partir ou que Antígono, quando
chegasse a Roma, dissesse ao senado que, sendo de família real, devia ser
preferido a Herodes, o qual nada tinha de ilustre por nascimento, e que mesmo
que a sua revolta contra os romanos o impedisse de manter-se no reino, pelo
menos não poderiam com justiça privar dele os seus filhos, que não os haviam
ofendido. Para livrar-se dessas apreensões, conseguiu fazer com que Antônio,
por meio de uma grande soma de dinheiro, mandasse matar Antígono.
627. Assim, a família dos asmoneus, após reinar cento e vinte e seis anos,
perdeu o trono. Essa família foi ilustre não somente por ter sido elevada ao
poder, mas também porque sempre foi honrada com o sumo sacerdócio e
porque as muitas e ilustres ações de seus reis elevaram em muito a glória de
nossa nação. As dissensões domésticas, no entanto, causaram por fim a sua
ruína, e a sua grandeza passou à família de Herodes, filho de Antipatro, o qual
tinha origem numa família que nada possuía de nobre, para que fosse
distinguida do comum dos demais súditos dos reis.",
"